Outdoors de concreto: ornamento e comunicação na Curitiba moderna
Resumo
A segunda metade do século XX marcou, em Curitiba, uma experimentação intensa com o concreto aparente como veículo de comunicação urbana. Longe de operar apenas como solução estrutural, o material foi progressivamente investido de uma função cultural, tornando-se superfície para narrativas, grafismos e relevos capazes de ampliar o alcance simbólico da arquitetura moderna. A integração das artes às obras públicas consolidou-se como política deliberada, articulando modernidade estética e projeto de Estado, sobretudo a partir do pós-guerra. Nesse contexto, o concreto deixa de ser apenas matéria tectônica e passa a operar como campo de inscrição visual e mediação simbólica, projetando-se para além da escala do edifício e interferindo diretamente na experiência cotidiana da cidade. Nesse quadro, a produção muralista de Poty Lazzarotto ocupa posição estratégica. Suas obras atravessam mais de três décadas e funcionam como vetor privilegiado da construção visual de uma identidade paranaense moderna, articulando memória histórica, monumentalidade e presença urbana. Do mural do Monumento ao 1º Centenário do Paraná, de 1953, ainda em técnica mista de azulejo e granito, às grandes composições em concreto aparente, como no Teatro Guaíra, em 1969, e no Palácio Iguaçu, em 1987, Poty consolida um repertório no qual narrativa figurativa e síntese gráfica se inscrevem diretamente na matéria arquitetônica, transformando superfícies construídas em dispositivos de comunicação pública. A década de 1970, contudo, marca um deslocamento decisivo na relação entre arte, arquitetura e percepção. O painel figurativo cede lugar a superfícies abstratas e padrões geométricos de leitura rápida, concebidos para a escala do tráfego e para a experiência da cidade em movimento. Arquitetos como Lubomir Ficinski, Jaime Wasserman e o grupo liderado por Luiz Forte Netto e José Maria Gandolfi desenvolvem uma gramática em que a fachada se converte em signo urbano, orientado pela distância, pela repetição e pelo impacto visual. Essa linguagem ganha projeção nacional no edifício-sede da Petrobras, em 1974, consolidando o prestígio do chamado Grupo do Paraná (Pacheco 2010). Paralelamente, intervenções em infraestruturas viárias radicalizam essa tendência. Trincheiras e viadutos incorporam relevos anônimos moldados no próprio concreto, dialogando diretamente com o fluxo motorizado. Nessas obras, a ornamentação abandona qualquer vocação narrativa e passa a operar como presença quase subliminar, marcando o espaço e rompendo a monotonia do cinza urbano. Consolida-se, assim, uma trajetória de abstração contínua, que vai da narrativa figurativa ao ornamento de infraestrutura e da leitura contemplativa à percepção instantânea.
Palavras-chave
Como citar
TOMITA, Kadu. Outdoors de concreto: ornamento e comunicação na Curitiba moderna. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
Referências
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