Murais na rede Sarah e a humanização do espaço hospitalar
Resumo
No Brasil, a arquitetura hospitalar moderna tem sido frequentemente compreendida de forma restrita, com ênfase quase exclusiva em sua dimensão técnico-funcional, o que limita a compreensão de seu potencial simbólico, estético e sensorial. Em contraste com essa abordagem, a Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, concebida por João Filgueiras Lima, o Lelé, a partir da década de 1980, constitui uma das experiências mais relevantes de integração entre arquitetura, arte e cuidado no país. Alinhados aos princípios da arquitetura moderna, seus edifícios articulam industrialização construtiva, eficiência operacional e atenção à experiência subjetiva dos usuários, superando a lógica meramente funcional do espaço hospitalar. Este estudo propõe refletir sobre os murais artísticos presentes nas unidades da Rede Sarah como parte integrante do processo projetual e da cultura material da arquitetura hospitalar moderna. Executadas em diferentes técnicas e escalas, essas obras ocupam pontos estratégicos dos edifícios — como circulações, áreas de espera e salas de reabilitação — atuando como elementos de orientação espacial, criação de vínculos afetivos e estímulo à permanência. Suas geometrias abstratas, cores intensas e inserção arquitetônica dialogam diretamente com a percepção sensível dos usuários, contribuindo para a construção de ambientes terapêuticos. A arte, nesse contexto, não se apresenta como ornamento supérfluo, mas como parte indissociável da linguagem arquitetônica. Em consonância com pesquisas da neurociência e da arquitetura, como as de Ulrich (1984), Zeisel (2006) e Sussman e Hollander (2021), compreende-se que estímulos visuais positivos impactam o sistema límbico, promovendo bem-estar emocional, redução do estresse e favorecendo a recuperação clínica. Assim, os murais funcionam como dispositivos sensíveis de mediação entre espaço, cultura e cuidado. A abordagem de Lelé, ao combinar sistemas construtivos industrializados, soluções passivas de ventilação e iluminação natural e atenção à escala humana, reforça uma concepção ampliada do edifício hospitalar como artefato cultural, social e urbano, conforme destaca Toledo (2006/2022).
Como citar
YAMAMOTO, Larissa. Murais na rede Sarah e a humanização do espaço hospitalar. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
Referências
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