Do tapete ao painel: a trama como sintaxe azulejar moderna

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

Este artigo defende que a trama deve ser compreendida como uma estrutura morfológica, um gesto autoral e uma sintaxe visual, como também como uma chave de leitura para compreender o uso do azulejo na arquitetura moderna brasileira — não apenas como ornamento ou revestimento, mas como linguagem crítica que articula arte e arquitetura. Em vez de restringir-se à oposição historiográfica entre o painel artístico e o revestimento, dota-se uma perspectiva transversal, em que a trama emerge como operador projetual, histórico e simbólico. Ao articular composição, cor, padrão e escala, o azulejo moderno funciona como campo pictórico, ornamento e pele tectônica, afirmando-se como linguagem crítica entre as décadas de 1930 e 1970, com repercussões contemporâneas. A compreensão dessa sintaxe exige atenção às raízes históricas do uso do azulejo no Brasil. Antes da arquitetura moderna, o Neocolonial apropriou-se desse material como signo de identidade nacional e tradição inventada, alinhado a movimentos internacionais voltados à construção de narrativas nacionais por meio da retomada de repertórios históricos. Tais painéis em azulejo — figurativos e narrativos — mobilizam tramas regulares e padronagens rítmicas que ativam signos territoriais e culturais, produzindo pertencimento baseado em imagens ficcionalizadas do passado colonial luso-brasileiro. Esse imaginário ecoa no Movimento Moderno, e o painel Estrela-do-mar e Peixes, de Cândido Portinari, no Ministério da Educação e Saúde (MES, 1936), constitui exemplo emblemático dessa continuidade crítica. Ao aproximar esse painel das composições neocoloniais, o artigo evidencia convergências formais e simbólicas. Ambos mobilizam a azulejaria como dispositivo de identidade nacional. Assim, a trama emerge como sintaxe visual que media memória e invenção, revelando projetos de nação permeados pelo imaginário da colonialidade, ainda que sob gramáticas distintas e temporalidades próprias.

Palavras-chave

Como citar

RACHED, Mary da Silva. Do tapete ao painel: a trama como sintaxe azulejar moderna. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

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