Arte sobre Arquitetura
Resumo
Frederico Morais conclamava, em seu Manifesto Do Corpo à Terra (1970), que a arte daquele momento refletia uma “nostalgia do corpo”, em clara alusão às experimentações de Lygia Clark durante a ditadura militar no Brasil — momento que dolorosamente reposicionava o corpo na arte como metáfora e denúncia — bem como ao corpo “participador”, como proposto por Hélio Oiticica. A década de 1960 corresponde, assim, a uma conquista do espaço que, posteriormente, se transforma em uma reflexão sobre o próprio espaço como (um) tema. Este artigo propõe uma reflexão com base em trabalhos de arte desenvolvidos entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000 que, ao atuarem, serem montados e tratarem sobre arquitetura moderna, lidam com uma certa nostalgia, em paralelismo à nostalgia do corpo à qual se referia Frederico Morais. A preposição sobre indica tanto a arquitetura como suporte material quanto a indica como tema. No que tange à arquitetura como suporte material, reside a ambiguidade de ser, ela mesma, na maioria das vezes, o museu. O artigo analisa o vídeo Rampas, de Cristina Ribas, gravado em arquiteturas de Belo Horizonte, e os trabalhos de Denise Gadelha e Pedro Engel desenvolvidos para exposição no Palácio Capanema. A tensão apontada por Thierry de Duve entre lugar, escala e espaço é invocada como meio de compreender a produção analisada, uma produção “em resposta” às arquiteturas às quais se refere, o que pressupõe uma pergunta proposta pela arquitetura. Ao dar voz à arquitetura, a arte reposiciona o legado moderno. Como documentação, o artigo apresenta catálogos e fotos originais, bem como baseou-se em depoimentos de alguns dos artistas.
Palavras-chave
Como citar
RECENA, Maria Paula Piazza. Arte sobre Arquitetura. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais do 16º Seminário Docomomo Brasil: O Futuro do Passado: Arquitetura Moderna Viva e Urbana. Porto Alegre: Docomomo Brasil, 2026. ISBN 978-65-993024-6-6. DOI: 10.5281/zenodo.19434713.
Referências
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