Modernização pelos trilhos: a Estação Ferroviária de Goiânia e a produção do espaço urbano
Resumo
Na primeira metade do século XX, o Brasil passava por um intenso processo de modernização, que se manifestava de modo particular nas regiões Centro-Oeste e Norte, historicamente distantes dos principais polos econômicos do país. Em contraste com o modernismo europeu — associado à ruptura estética e funcionalista com os modelos clássicos —, o modernismo brasileiro incorporou elementos regionais e buscou conciliar modernidade com identidade nacional. Isso se refletiu também nos planos urbanísticos desenvolvidos para cidades novas como Goiânia, concebida nos anos 1930 como modelo da cidade moderna planejada no coração do país, e nova capital moderna para Goiás. A criação de Goiânia esteve diretamente ligada às estratégias de interiorização promovidas pelo governo de Getúlio Vargas, especialmente no âmbito da política da Marcha para o Oeste. Nesse contexto, o projeto da nova capital do estado de Goiás representava não apenas a substituição da antiga capital Vila Boa, mas a materialização de um ideal desenvolvimentista, com forte apelo simbólico e político. A concepção urbanística da cidade foi elaborada por Atílio Corrêa Lima, arquiteto influenciado tanto pelos preceitos do urbanismo moderno. O plano de Atílio previa uma estrutura funcional, com eixos monumentais, arborização abundante e setores bem definidos, alinhando-se ao discurso da modernidade. No contexto latino-americano, e principalmente no Brasil, a modernidade se traduzia também na substituição das importações pela criação de indústrias nacionais e na propagação de ferrovias do centro aos rincões do país. Diretamente associada às diretrizes desenvolvimentistas da política da Marcha para o Oeste, a diversificação das linhas férreas ocasionou duas maneiras distintas de modernização: para os estados do sudeste, as ferrovias eram uma extensão das suas crescentes indústrias, já para os estados do norte e centro-oeste, as vias representaram uma conexão entre o moderno e o arcaico. Ao momento da chegada da estrada de ferro em 1912, o estado de Goiás ainda possuía uma economia de subsistência, baseada na produção de grãos e na pecuária, com raros pontos restantes do ciclo do ouro. Cenário que gradualmente ia se alterando conforme a ferrovia se adentrava no estado, estabelecendo assentamentos ao longo da linha e modernizando a paisagem de cidades já existentes. A extensão do trecho buscava conectar o tronco de Araguari / Minas Gerais ao oeste do estado de Goiás, e foi um dos elementos fundamentais no plano para a nova capital a ser inaugurada em 1933. Logo, a história da ferrovia em Goiânia remonta aos primeiros anos de fundação da cidade, materializando elo estratégico entre o interior e o centro do território nacional. Inaugurada em 1954 e desativada em 1984, a estação ferroviária local atuou como uma das principais portas de entrada da nova capital, simbolizando, por meio da linguagem art déco de seu edifício, os ideais de modernização projetados para a cidade. Localizada ao término do boulevard da Avenida Goiás, a estação e sua praça adjacente — posteriormente denominada Praça do Trabalhador — constituíam uma extensão do projeto moderno goianiense, articulavam-se como conexão entre a malha urbana planejada e a integração do interior ao restante do país. Contudo, o entorno da estação sofreu rápidas e intensas apropriações populares, que em pouco tempo transformaram a área de borda planejada em uma nova centralidade espontânea. A Praça do Trabalhador, situada ao redor do edifício ferroviário, tornou-se palco de usos diversos, nem sempre compatíveis com o ordenado do plano original. A partir dos anos 1980, com a desativação da ferrovia, a região entrou em processo de degradação e marginalização, refletindo as tensões entre o projeto modernista e as camadas de uso e significado acumuladas pelos habitantes. Ainda assim, o bairro manteve sua relevância urbana, consolidando-se como o terceiro maior polo turístico de Goiás, com movimentação econômica anual bilionária. Evidenciando o contraste entre a cidade planejada e suas margens não planejadas. Este trabalho propõe uma análise crítico-visual da área a partir de fotografias históricas e atuais, cartografias e diagramas, de modo a evidenciar o papel central da infraestrutura ferroviária na conformação das dinâmicas urbanas e econômicas locais, para compreender os modos como a infraestrutura moldou as dinâmicas urbanas e revelou a distância entre a cidade projetada e a cidade vivida. Ao evidenciar as transformações ocorridas nos 31 anos entre a inauguração e a desativação da estação, o estudo busca discutir as tensões entre o urbanismo moderno e as apropriações sociais, problematizando a permanência simbólica da ferrovia como vetor de desenvolvimento e como marco de um modernismo brasileiro.
Como citar
BLANCO VENCIO, Sarah Adorno. Modernização pelos trilhos: a Estação Ferroviária de Goiânia e a produção do espaço urbano. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais do 16º Seminário Docomomo Brasil: O Futuro do Passado: Arquitetura Moderna Viva e Urbana. Porto Alegre: Docomomo Brasil, 2026. ISBN 978-65-993024-6-6.

