Miami vice: garagens tropicais
Resumo
O Brutalismo, cujo nome deriva do francês béton brut, designa edifícios em que esse material predomina, seja pré-moldado e liso, seja moldado in loco com textura rugosa. Urbano em certos contextos e rústico em outros, atende a programas monumentais e cotidianos, alternando soluções minimalistas e maximalistas, sempre como alternativa às limitações pragmáticas e semânticas das “caixas brancas” do Estilo Internacional. Ruth Zein demonstrou a contemporaneidade do brutalismo nas Américas e na Europa, contestando a narrativa de Reyner Banham sem negar a liderança de Le Corbusier. Elementos brutalistas, contudo, antecedem 1945, presentes tanto em casas corbusianas (Le Pradet, 1929–31) quanto nas casas de Juan O’Gorman no México (1929–31) ou nas casas operárias de Lucio Costa em Monlevade (1934). Apesar disso, a produção latino-americana foi considerada irrelevante pelo Norte Global já nos anos 1960 — muito antes de redescobrirem o brutalismo. Só por volta de 2000, com a Conferência DOCOMOMO Internacional em Brasília e o Prêmio Pritzker de Paulo Mendes da Rocha, obras como as de Lina Bo Bardi e Mendes da Rocha ganhariam visibilidade internacional. É nesse quadro que propomos outra leitura para o conjunto 1111 Lincoln Road (2005–10), em Miami Beach, projetado por Herzog & de Meuron, com Christine Binswanger como sócia responsável. O 1111 é uma colagem temporal: uma nova estrutura aérea, com ecos brasileiros dos anos 1950/60 — garagem e centro de eventos — conecta-se a um edifício brutalista de 1968, renovado, de linhagem anglo-americana. Complementam o conjunto uma praça reformada ao estilo Burle Marx e novos apartamentos-jardim. Argumentamos que o 1111 homenageia a história do Brutalismo nos (sub)trópicos e indica seu potencial futuro, articulando inclusão formal e funcional, ainda que voltado a uma burguesia transnacional.
Palavras-chave
Como citar
PEIXOTO, Marta Silveira. Miami vice: garagens tropicais. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
Referências
- Reyner Banham, The New Brutalism: Ethic or Aesthetic? (London: Architectural Press, 1966).
- John Summerson, The Language of Classical Architecture (Cambridge, MA: MIT Press, 1963).
- Adrian Forty, Concrete and Culture: A Material History (London: Reaktion Books, 2012).
- Robert Venturi, Denise Scott Brown, and Steven Izenour, Learning from Las Vegas (Cambridge, MA: MIT Press, 1972).
- Joan Didion, Miami (New York: Simon and Schuster, 1987).
- Beth Broome, “1111 Lincoln Road: Herzog & de Meuron Strips Down in Miami Beach with a Revealing New Parking Garage,” Architectural Record 198, no. 6 (June 2010): 135–39, <https://www.architecturalrecord.com/articles/8232-lincoln-road>

