O viaduto, a galeria e a Via expressa: vazio planejado como potencialidade — o caso da galeria dos estados em Brasília

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

As críticas ao urbanismo moderno consolidaram um repertório analítico que, embora relevante, tende a homogeneizar experiências e obscurecer nuances importantes do projeto moderno. Autores como James Holston identificaram na racionalidade do planejamento, na rigidez do zoneamento e na separação funcional dos espaços as causas da fragmentação urbana e da falência simbólica de projetos como Brasília. Ao privilegiar a leitura das formas modernas como dispositivos de exclusão, essas abordagens fragilizam a percepção das ambivalências que atravessam o modernismo enquanto linguagem de projeto. Diferentemente dessa chave exclusivamente crítica, é possível reconhecer nas mega infraestruturas modernas uma condição ambígua: ao mesmo tempo em que respondem à lógica da eficiência, conformam espacialidades abertas, porosas e não inteiramente programadas. Viadutos e eixos expressos não são apenas instrumentos funcionais, mas peças do desenho urbano que reconfiguram o solo e instauram espacialidades que ultrapassam a finalidade técnica. No urbanismo moderno, o viaduto ocupa lugar emblemático: infraestrutura e forma urbana. Ao suspender a via, transforma o relevo e instaura zonas de sombra, atravessamentos e áreas abertas ao céu. Manfredo Tafuri reconhece que, embora a extrema funcionalização reduza a cidade a um artefato técnico, é dessa radicalidade que emergem frestas e interstícios. Vazios não programados tornam-se paisagens livres. Diferente de outras passagens do Plano Piloto, o viaduto que abriga a Galeria dos Estados nasce rompendo com o anonimato das infraestruturas rodoviárias ao propor passagem aberta ao pedestre, gerando espaço urbano autônomo. Reportagem do Correio Braziliense de 1977 já retratava o local como ponto de encontro. Essa pré-configuração permitiu que o viaduto se tornasse lugar de travessia, encontro e permanência. A Galeria expressa a reinvenção ordinária dos espaços modernos, cuja potência reside na abertura ao uso e à experiência urbana.

Palavras-chave

Como citar

LIMA, Amanda Mendes de. O viaduto, a galeria e a Via expressa: vazio planejado como potencialidade — o caso da galeria dos estados em Brasília. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

Referências

  • Carlos, Ana Fani Alessandri. A (re)produção do espaço urbano. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1994.
  • Holston, James. A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
  • Jacobs, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.
  • Lassance, Guilherme; Saboia, Luciana; Pescatori, Carolina. Cidade pós-compacta: estratégias de projeto a partir de Brasília. Rio de Janeiro: Rio Books, 2021.
  • Lynch, Kevin. A Imagem da Cidade. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.
  • Saboia, Luciana. “O vazio moderno e a luta por reconhecimento: (re)configurações da Esplanada dos Ministérios em Brasília.” Em Arquitetura, Estética e Cidade: questões da modernidade, editado por José Manoel Morales Sánchez, 222-234. Brasília: Universidade de Brasília, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014. Solá-Morales, Ignasi de. “Terrain Vague.” Em Territórios. Barcelona: Gustavo Gili, 2002.
  • Tafuri, Manfredo. Projeto e utopia: Arquitetura e desenvolvimento capitalista. São Paulo: Martins Fontes, 2007.