O viaduto, a galeria e a Via expressa: vazio planejado como potencialidade — o caso da galeria dos estados em Brasília
Resumo
As críticas ao urbanismo moderno consolidaram um repertório analítico que, embora relevante, tende a homogeneizar experiências e obscurecer nuances importantes do projeto moderno. Autores como James Holston identificaram na racionalidade do planejamento, na rigidez do zoneamento e na separação funcional dos espaços as causas da fragmentação urbana e da falência simbólica de projetos como Brasília. Ao privilegiar a leitura das formas modernas como dispositivos de exclusão, essas abordagens fragilizam a percepção das ambivalências que atravessam o modernismo enquanto linguagem de projeto. Diferentemente dessa chave exclusivamente crítica, é possível reconhecer nas mega infraestruturas modernas uma condição ambígua: ao mesmo tempo em que respondem à lógica da eficiência, conformam espacialidades abertas, porosas e não inteiramente programadas. Viadutos e eixos expressos não são apenas instrumentos funcionais, mas peças do desenho urbano que reconfiguram o solo e instauram espacialidades que ultrapassam a finalidade técnica. No urbanismo moderno, o viaduto ocupa lugar emblemático: infraestrutura e forma urbana. Ao suspender a via, transforma o relevo e instaura zonas de sombra, atravessamentos e áreas abertas ao céu. Manfredo Tafuri reconhece que, embora a extrema funcionalização reduza a cidade a um artefato técnico, é dessa radicalidade que emergem frestas e interstícios. Vazios não programados tornam-se paisagens livres. Diferente de outras passagens do Plano Piloto, o viaduto que abriga a Galeria dos Estados nasce rompendo com o anonimato das infraestruturas rodoviárias ao propor passagem aberta ao pedestre, gerando espaço urbano autônomo. Reportagem do Correio Braziliense de 1977 já retratava o local como ponto de encontro. Essa pré-configuração permitiu que o viaduto se tornasse lugar de travessia, encontro e permanência. A Galeria expressa a reinvenção ordinária dos espaços modernos, cuja potência reside na abertura ao uso e à experiência urbana.
Palavras-chave
Como citar
LIMA, Amanda Mendes de. O viaduto, a galeria e a Via expressa: vazio planejado como potencialidade — o caso da galeria dos estados em Brasília. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.
Referências
- Carlos, Ana Fani Alessandri. A (re)produção do espaço urbano. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1994.
- Holston, James. A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
- Jacobs, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.
- Lassance, Guilherme; Saboia, Luciana; Pescatori, Carolina. Cidade pós-compacta: estratégias de projeto a partir de Brasília. Rio de Janeiro: Rio Books, 2021.
- Lynch, Kevin. A Imagem da Cidade. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.
- Saboia, Luciana. “O vazio moderno e a luta por reconhecimento: (re)configurações da Esplanada dos Ministérios em Brasília.” Em Arquitetura, Estética e Cidade: questões da modernidade, editado por José Manoel Morales Sánchez, 222-234. Brasília: Universidade de Brasília, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2014. Solá-Morales, Ignasi de. “Terrain Vague.” Em Territórios. Barcelona: Gustavo Gili, 2002.
- Tafuri, Manfredo. Projeto e utopia: Arquitetura e desenvolvimento capitalista. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

