Patrimônio e requalificação na Biblioteca Mário de Andrade
Resumo
Este artigo discute o modo como edifícios localizados em áreas centrais de cidades metropolitanas brasileiras vêm sendo tratados em projetos de requalificação urbana, especialmente no que diz respeito ao reconhecimento dos valores arquitetônicos e históricos cristalizados no patrimônio edificado. Para isso, analisamos a Biblioteca Mário de Andrade, objeto de um amplo projeto de intervenção de autoria do Escritório Piratininga Arquitetos Associados (2005–2012), no âmbito das iniciativas de requalificação do centro de São Paulo financiados pelo BID. O estudo revisita o projeto original de Jacques Pilon (1935–1942) para compreender os sentidos atribuídos à criação desse equipamento cultural e reconstruir as transformações que marcaram sua trajetória até a intervenção contemporânea. Com isso, revela que o reconhecimento patrimonial, mesmo quando formalizado pelos instrumentos de tombamento, permanece restrito ao objeto arquitetônico enquanto patrimônio material, desarticulado das dinâmicas e responsabilidades da gestão urbana. Tal dissociação contribui para que os bens tombados sejam tratados como elementos isolados da cidade, mesmo quando se trata de exemplares qualificados que buscaram estabelecer relações consistentes entre o edifício e seu entorno urbano. Revela-se assim as tensões entre memória e gestão alinhadas às lógicas da produção capitalista da cidade, que inclui formas de segregação socioespacial que distorcem e limitam os sentidos originais das soluções propostas.
Palavras-chave
Como citar
SPERANDIO, Annabia F.; SCATALON, Aline Passos. Patrimônio e requalificação na Biblioteca Mário de Andrade. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais do 16º Seminário Docomomo Brasil: O Futuro do Passado: Arquitetura Moderna Viva e Urbana. Porto Alegre: Docomomo Brasil, 2026. ISBN 978-65-993024-6-6. DOI: 10.5281/zenodo.19434747.
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