Releituras feministas do Moderno brasileiro: Enilda Ribeiro e Maria do Carmo Schwab
Resumo
O trabalho propõe uma discussão sobre as contribuições de duas arquitetas modernas, contemporâneas , que se dedicaram a âmbitos diferentes da arquitetura moderna brasileira. A gaúcha Enilda Ribeiro e da capixaba Maria do Carmo Schwab. Para, através de uma leitura feminista que tensiona os cânones estabelecidos e revela narrativas historicamente silenciadas, tecer uma compreensão contemporânea da arquitetura moderna brasileira produzida por arquitetas. Busca-se entender como essas arquitetas, em suas práticas crítica e projetual respectivamente, oferecem chaves interpretativas para repensar o projeto moderno brasileiro na primeira metade do século XXI. A pesquisa se estrutura a partir do entendimento do presente como "campo de tensões e confluências", onde o moderno brasileiro – tradicionalmente narrado através de figuras masculinas hegemônicas como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa – é reinterpretado através de epistemologias feministas que revelam outras modernidades. Para Enilda Ribeiro militância e prática profissional se sintetizavam. A teoria, a prática e a crítica da arquitetura e do urbanismo foram realizadas sob a orientação da ideologia proletária e sempre ao lado da classe operária. E a visão crítica do contexto no qual estava inserida fez com que a arquiteta desenvolvesse uma produção teórica e crítica muito avançada para sua época e de grande atualidade para os tempos que vivemos. Quando todo o país estava envolvido no entusiasmo do sucesso da arquitetura moderna produzida aqui, Enilda já avançava na análise dessa produção no contexto da realidade social e econômica do país, entendendo que a grande maioria da população estava à margem dos avanços técnicos, projetuais e programáticos da arquitetura moderna. A crítica de Enilda pretendia retomar os princípios da arquitetura moderna como resposta teórica e prática da arquitetura às questões do contexto social, econômico e tecnológico no qual se inseria Maria do Carmo Schwab, por sua vez, representa uma geração de arquitetas de prancheta, atuando ativamente desde sua formação, em 1953, até 1981, como uma das arquitetas responsáveis pela interiorização dos princípios da arquitetura moderna no Brasil e pelo aumento do acervo da arquitetura moderna no Espírito Santo. A obra de Schwab se destaca por sua qualidade arquitetônica, avanços técnicos, a inventividade, a pesquisa plástica e volumétrica que fazem de seus projetos uma referência para esta arquitetura. Mas também é importante destacar quantitativamente suas produções. O artigo argumenta que a partir da produção de ambas as arquitetas é possível estabelecer simultaneamente uma crítica ao passado moderno e um posicionamento para a prática atual e futura, recuperando suas trajetórias e suas contribuições. Recuperando trajetórias femininas apagadas da história da arquitetura moderna brasileira, não apenas reescrevendo o passado, mas também ampliando o horizonte de expectativas para as gerações futuras de arquitetas. Metodologias de pesquisa historiográficas feministas contemporâneas promovem deslocamentos epistemológicos, questionam os centros hegemônicos ao evidenciar as contribuições das periferias de gênero, mas também regionais e socioculturais; tensionam fronteiras geográficas e culturais ao demonstrar como diferentes territórios brasileiros desenvolveram modernidades próprias; e desafiam os cânones estabelecidos ao revelar outras genealogias e outras possibilidades referenciais para a arquitetura moderna. As práticas de Ribeiro e Schwab, são exemplos concretos de como uma "cultura aberta às relações entre diferenças e multiplicidades" pode reconfigurar nossa compreensão do moderno brasileiro. Suas contribuições evidenciam que o projeto moderno, longe de ser um movimento monolítico e masculino, sempre foi plural e diverso, incorporando sensibilidades e metodologias que apenas recentemente começam a ser reconhecidas e valorizadas. Por fim, o artigo sugere que uma perspectiva feministas não apenas oferecem uma releitura crítica do passado moderno, mas principalmente apontam para "distintos e divergentes futuros da arquitetura" brasileira, onde a diversidade de vozes e metodologias pode contribuir para enfrentar os novos paradigmas urbanos, tecnológicos e sociais do mundo contemporâneo.
Palavras-chave
Como citar
MERLI, Giovanna; LIMA, Ana Gabriela Godinho. Releituras feministas do Moderno brasileiro: Enilda Ribeiro e Maria do Carmo Schwab. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais do 16º Seminário Docomomo Brasil: O Futuro do Passado: Arquitetura Moderna Viva e Urbana. Porto Alegre: Docomomo Brasil, 2026. ISBN 978-65-993024-6-6. DOI: 10.5281/zenodo.19434751.
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