A Arquitetura Moderna nos tempos da cólera
Resumo
Um espectro ronda o mundo da cultura — o espectro do modernismo. Todos os grupos da arquitetura unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o comunista e o conservador, o pesquisador e o influenciador, os militantes da moradia popular e os estetas do neoclassicismo. A arquitetura moderna foi declarada morta por alguns às 15h32min de 15 de julho de 1972, quando o conjunto habitacional Pruitt-Igoe foi implodido. Mas a arquitetura moderna vive tanto no Docomomo quanto nas pranchetas, livros e prêmios dos arquitetos, ela está nas redes sociais, nas exposições, no cinema. Ela está em nossas cidades, como patrimônio vivo e como arquitetura contemporânea. A arquitetura moderna está de volta ao debate político. O filme “O brutalista” (Brady Corbet, 2024) parece tentar trazer uma redenção popular ao estilo mais achincalhado pela crítica aos modernos. De fato, pululam nas redes sociais perfis e grupos de admiradores da arquitetura moderna em todos os seus estilos, inclusive os brutalismos. Mas outro tipo de conteúdo, carregado de cólera, vem também ganhando espaço. Inicia-se com imagens de arquitetura tradicional ou clássica. “Como nossas cidades deixaram de ser assim para ficarem assim?”. As imagens exibem então algum tipo de arquitetura moderna que os autores consideram degenerada: periferias, condomínios uniformes, centros corporativos de vidro ou obras de feição pouco convencional. A “culpa” não recairia sobre o capitalismo, a industrialização, a urbanização, a desigualdade social. As cidades simplesmente seriam feias por serem modernas. E como o modernismo seria obra do comunismo, assim como este, aquele deveria ser banido de nossas vidas. A “limpeza estética” parece já ter tido início. Donald Trump promulgou em 20 de janeiro de 2025 um decreto “Promovendo a bela arquitetura cívica federal” que edifícios públicos devem “respeitar a herança regional, tradicional ou clássica, de modo a elevar e embelezar espaços públicos e a enobrecer os Estados Unidos”. Considerando que o moderno não era um estilo e sim vários, haveria realmente uma relação direta e clara entre arquitetura moderna e o socialismo? Ou, na via inversa, haveria uma relação direta entre classicismo e extrema direita? É fora de questão que a vanguarda construtivista serviu aos revolucionários soviéticos de 1917, e que o neoclassicismo de Speer serviu tanto a Hitler. Mas é fato também que o racionalismo italiano foi incorporado pelo fascismo de Mussolini, que Le Corbusier preferia evitar a revolução e manteve relações com o governo fascista de Vichy, e que o neoclassicismo foi o estilo oficial da União Soviética durante todo o governo de Stálin. Afinal, pode-se dizer de fato que o moderno foi uma causa? Qual a natureza política desta categoria? A proposta dessa sessão, dialogando com o tema do seminário, é discutir as relações entre ideologia política e os múltiplos estilos modernos em arquitetura. Interessam tanto as contradições entre as práticas discursiva, projetual e construtiva quanto as confirmações de determinadas associações estilísticas a determinadas políticas. Estimula-se que tal reflexão chegue aos dias de hoje, levando a uma apreciação crítica dos novos ataques dirigidos a uma certa “arquitetura moderna”.
Como citar
MACEDO, Danilo Matoso; MANENTI, Leandro. A Arquitetura Moderna nos tempos da cólera. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

