Arquitetura como estrutura qualificada

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

Defendida por Lucio Costa, a noção de arquitetura como construção qualificada diferencia arquitetura da “simples construção” através da intenção plástica. Costa diz em Razões da Nova Arquitetura (1934) que o segredo da nova arquitetura é a “ossatura independente”, um esqueleto independente qualificado pela ausência de vigas aparentes que comprometessem a livre disposição de paredes internas e externas e pelo recuo da linha de suportes em relação aos bordos de laje. Após mais de duas décadas, é Colin Rowe que confirma em A Estrutura de Chicago (1956) a atribuição da estrutura como essência da arquitetura moderna, comparável ao papel desempenhado pela coluna na Antiguidade Clássica, ao estabelecer “uma razão comum com a qual se relacionam todas as partes”, ou ainda aquela que “estabelece relações, define uma disciplina e produz uma forma”. Nas palavras do engenheiro de estruturas dos palácios de Brasília, Joaquim Cardozo, “Forma Estática – Forma Estética”. Essa sessão se propõe a discutir o papel fundamental da estrutura no campo da arquitetura muito além do seu viés pragmático, ou, em geral, subavaliado pela crítica de arquitetura. Afinal, a própria derivação da palavra arquitetura é composta por arché, ligada à origem, ao princípio, à intenção plástica, a qual se refere Lucio Costa, enquanto tektonicos, é vinculado à ação de construir; esta não pode ser avaliada como exclusiva do campo da engenharia de estruturas. A sessão identifica essa invisibilidade da concepção estrutural no ensino de arquitetura e nas pesquisas de pós-graduação, e se propõe a estimular a dimensão tectônica inerente ao ofício e à disciplina. Do ponto de vista da integração entre os componentes da estrutura e os demais elementos de arquitetura, considera-se a relevante herança e tradição presente na arquitetura moderna brasileira do século XX. Com batismo corbusiano em solo brasileiro, a partir da década de 1930 uma nova arquitetura se fundamenta na estrutura tipo Dom-ino em suas bases no Rio de Janeiro, com expansão Brasil afora, especialmente na Região Nordeste, e posteriormente nos anos 1960 se transforma profundamente em São Paulo através do Brutalismo Paulista, caracterizado tanto pelo fascínio do concreto à vista quanto pela mutação e inclusão de elementos estruturais. A partir dos anos 1980, componentes em aço substituem porções da estrutura anteriormente ocupadas exclusivamente pelo concreto armado, resultando em um conjunto muitas vezes híbrido entre concreto e aço. No cenário brasileiro das duas primeiras décadas do século XXI, prosseguem as mesclas entre diferentes materiais de estruturas, com ampliação dessa paleta, através do emprego de madeira industrializada. Portanto, a sessão visa a estimular aproximações entre estudos focados na dimensão técnica da estrutura e outros que abordem a representação desta no recorte temporal do 16º Seminário DOCOMOMO Brasil (1920-2020); busca-se conectar estas pesquisas àquelas. Reafirma-se que o comportamento estrutural pertence ao campo arquitetônico tanto quanto as questões de caracterização da estrutura, esta reconhecida como fundamental agente de representação da construção. Nesse sentido, são bem-vindos trabalhos que abordem estudos de caso vinculados à iconografia da estrutura, a sua dimensão tectônica, os tipos de caráter lastreados na Tradição Acadêmica, ou ainda a gama de conotações abstratas ou figurativas, e as repercussões sistêmicas próprias do seu papel ordenador da geometria do espaço, assim como pesquisas que evidenciam as pressões e demandas específicas da tecnologia da construção que em muitos casos contribuem decisivamente para o resultado formal.

Como citar

BAHIMA, Carlos Fernando Silva. Arquitetura como estrutura qualificada. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.