Arquitetura Moderna e estratificação: a tranformação como valor

Capa dos anais

16º Seminário Docomomo Brasil, Porto Alegre, 2025

Resumo

No final do século XX, quando as preocupações com a conservação da arquitetura moderna tornaram-se centrais, surgiram os principais confrontos entre a história de diversas construções, suas relações com as intenções originais de projeto e sua efetiva condição material. Se, de um lado, a obsolescência dos materiais e seu estado de degradação acelerada convidavam a uma revisão crítica do ideário moderno — especialmente quanto à confiança no progresso técnico e na permanência das soluções construtivas —, de outro, o uso continuado de inúmeros edifícios desde sua construção revela uma dinâmica diferente. Intervenções voltadas a acrescentar ou adequar funções, restituir o desempenho físico de elementos, ou simplesmente responder a demandas alheias às intenções originais dos projetos, tornaram-se recorrentes. O reconhecido papel das comunidades na salvaguarda destes edifícios tem levado a favorecer a importância das chamadas “adaptações comunitárias” como atributos a serem preservados, temática que tem sobressaído nas últimas reuniões do DOCOMOMO Internacional. Esse cenário coloca em questão dimensões caras à arquitetura moderna como patrimônio cultural, reconfigurando critérios ligados à autenticidade projetual, integridade material e autoria — sobretudo em situações marcadas pela ausência ou fragmentação da documentação técnica e histórica. Enquanto estudos decoloniais têm fornecido, em parte, ferramentas conceituais para incorporar no quadro das obras consagradas aquelas produzidas no Sul Global — sobretudo reinvindicando “outras modernidades” —, ainda é rara a discussão de pesquisas que abordem a arquitetura moderna no Brasil como objeto histórico estratificado, sujeito, portanto, à conservação de marcas, alterações, transformações de uso e adaptações que carregam valores intrínsecos. Portanto, permanece em aberto campo fértil voltado à compreensão do acervo moderno a partir de suas camadas acumuladas ao longo do tempo, por vezes ainda a revelar pelo exame dos documentos, do corpo dos edifícios e das relações entre os atores sociais que os produziu sucessivamente até hoje. Isso se evidencia com particular força nos exemplares pouco conhecidos que compõem a vasta massa construída do modernismo brasileiro — muitas vezes à margem do reconhecimento no campo, mas cuja trajetória de transformações também se observa em obras de valor arquitetônico consagrado. A necessidade de adotar novas abordagens de conservação — especialmente em face da emergência climática, que exige soluções mais flexíveis e sustentáveis — abre espaço para reavaliações que incorporem, mesmo no âmbito da economia de recursos, da eficiência energética, e do projeto “baseado em valores”, novas estratégias de salvaguarda, documentação e gestão da conservação destas transformações, estimulando-se conceitos de “adaptação à mudança” como atributo cultural. Obras que permanecem em pé, mesmo com alterações, desafiam visões que ainda se orientam por ideias de pureza projetual ou retorno a um estado original. Esta sessão propõe o desafio de recuperar trabalhos e pesquisas que permitam identificar transições e metamorfoses da arquitetura moderna no uso, na linguagem, nas tecnologias construtivas, ou mesmo na incorporação de acréscimos e modificações ao longo do tempo. Propõe-se estimular o debate de casos no qual o exame das edificações modernas permitiu a incorporação e inclusão de novos valores, enquanto fases, etapas de construção, discursos e problemas para o enfrentamento de sua preservação no século XXI.

Como citar

BRANDÃO, Claudio Roberto Comas; FREITAS, Pedro Murilo Gonçalves de. Arquitetura Moderna e estratificação: a tranformação como valor. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.