Arquitetura para a sociedade a partir do estado
Resumo
No Brasil, a arquitetura moderna conheceu suas melhores expressões quando associada à construção da imagem do Estado-nação. Essa vinculação refletiu não apenas um compromisso com a modernização do país, mas também a busca por uma identidade arquitetônica própria que expressasse os ideais de progresso, desenvolvimento e, de certo modo, de coesão social desempenhando um papel estratégico na materialização cultural, por meio da realização de edificações institucionais, equipamentos coletivos e inúmeras outras obras. Na historiografia brasileira vê-se que a arquitetura moderna está diretamente relacionada às obras públicas, em diferentes governos. A princípio, no governo de Getúlio Vargas, conheceu a dimensão simbólica de progresso, mesmo que não fosse “eleita” como linguagem oficial do governo, e convivesse com outras linguagens arquitetônicas. Posteriormente, em paralelo à difusão nacional e veiculação internacional, alcançou sua consagração nos mandatos de Juscelino Kubitschek com obras em Minas Gerais e, como presidente, com a construção da nova capital, Brasília, em ambos os casos tendo Oscar Niemeyer como autor dos projetos simbólicos das gestões políticas. As concepções arquitetônicas, a partir das demandas públicas, além da dimensão cultural, constituem um conjunto da expressão material da arquitetura, na medida em que esses equipamentos não apenas abrigam funções essenciais para o cotidiano como educação, saúde e cultura, mas também refletem concepções sobre “projetos de sociedade” e cidadania almejados. Ao configurar espaços de serviços, encontro e socialidade, tornam-se elementos centrais na construção da vida pública e na conformação simbólica das cidades. A relação entre a arquitetura moderna e a preservação cultural configura um campo amplo de investigação, revelando desafios e contradições no reconhecimento e na proteção desse legado. Entretanto, a preservação dos bens modernos não recebe a devida atenção do Estado. Nos últimos anos, no Brasil, esse patrimônio tem sido alvo de ataques, descaracterizações e tentativas de alienação, evidenciando o descaso e a fragilidade dos mecanismos de proteção. A depredação dos edifícios situados na Praça dos Três Poderes, reconhecida como Patrimônio da Humanidade, ocorrida durante a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, ainda que tenha tido uma motivação política que extrapola o campo patrimonial, exemplifica um processo mais amplo de negação da cultura e pelo conhecimento que alimenta a vulnerabilidade do patrimônio público moderno brasileiro. Além de casos emblemáticos, como a proposta de venda do Palácio Capanema, a concessão do Estádio do Pacaembu à iniciativa privada e os ataques à integridade do Conjunto Esportivo do Ibirapuera, que ilustram a crescente mercantilização e a negligência em relação à preservação desse legado. As relações entre a arquitetura moderna e a construção do patrimônio público constituem uma ampla frente de investigações. Partindo do entendimento que a arquitetura moderna é múltipla em sua variedade de formas e concepções, a proposta tem como intuito identificar e refletir sobre concepções arquitetônicas menos difundidas na historiografia e suas relações com o poder. A sessão se propõe como um espaço de reflexão sobre o papel social da arquitetura moderna construída a partir de demandas políticas do Estado, sendo patrimônio reconhecido ou não. Espera-se receber trabalhos que reflitam sobre “A ARQUITETURA MODERNA PARA A SOCIEDADE A PARTIR DO ESTADO”, visando conhecer e debater a contribuição da arquitetura moderna e governanças; trabalhos que analisem e/ou identifiquem patrimônio público e sua preservação nos tempos atuais; registros dos profissionais envolvidos; obras modernas de uso público e seu capital simbólico.
Como citar
SILVA, Jasmine Luiza Souza Silva; BUZZAR, Miguel Antônio. Arquitetura para a sociedade a partir do estado. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

