Continuidade da Arquitetura Moderna no Brasil
Resumo
À primeira vista, parece desnecessário justificar o legado moderno em um país ainda carente de habitação, escolas, hospitais, infraestrutura e equipamentos públicos para atender a uma população desprovida de um sentido de dignidade que se realiza, espacialmente, pela própria arquitetura. Notadamente, o que se vê é um legado em seu crônico estado parcial, inconcluso. Do ponto de vista histórico, o legado se evidencia e se transmite após a conclusão de um ciclo ou movimento. Como a causa que justifica a inteligência sensível moderna ainda é uma realidade, entendemos que a noção de continuidade nos parece mais adequada que o sentido fechado e retrospectivo que o termo “legado” carrega. Compreendemos que o entendimento de continuidade, hoje, não se dá de modo apaziguado ou acrítico, mas como acomodação, por meio de estratégias de diálogo com a realidade que substituem a utopia moderna, sendo essa expressa na convicção da força da ideia e do desenho para uma transformação estrutural da condição social e espacial. A acomodação pode também ser vista como um modo de sobrevivência da utopia entre os arquitetos, por meio da substituição, com igual teor de convicção, de aparatos técnicos definitivos por enunciados mais indeterminados e processuais. A indeterminação moderna como pressuposto revela uma questão central para o debate: a crise do programa como funcionalidade determinante do uso. Em vez de prescrever a função, a continuidade moderna oferece instrumentos materiais, tecnológicos e formais para, justamente, suportar a indeterminação do uso. Nesses termos, esta sessão do 16º Seminário DOCOMOMO Brasil entende que são bem-vindos para o debate trabalhos que abordem temas como: 1. arquitetura moderna e os novos modos de morar (a partir da multiplicidade de configurações na atualidade); 2. arquitetura moderna como patrimônio e preexistência capaz de amparar novos e indeterminados usos; 3. arquitetura moderna como referência, seja ela conceitual ou literal, para uma produção contemporânea que, não por mera coincidência, assume destacada posição no panorama internacional; 4. arquitetura moderna e a descentralização de sua continuidade no território brasileiro; 5. arquitetura moderna como léxico para novas experiências materiais e tecnológicas; 6. arquitetura moderna como referência para soluções sustentáveis (baixo impacto ambiental, baixo custo de manutenção e baixo gasto energético); 7. arquitetura moderna e seus pontos de contato com as demais expressões artísticas contemporâneas; 8. arquitetura moderna como referência para o imaginário visual na atualidade; 9. arquitetura moderna e as novas modalidades de interpretação de sua genealogia no presente; e 10. arquitetura moderna como dispositivo dialógico com a cidade. Oposta à uma previsível postura ingenuamente saudosista, esta sessão não se restringe à reflexão contemporânea sobre a arquitetura moderna, pois pretende interpretá-la como uma inteligência instrumental e propositiva para compreensão do presente e para o projeto de um futuro que incorpora a complexidade (inclusive formal, que localiza a autoria como antítese dos arranjos em coletivos) por meio de instrumentos que superem a hoje frágil universalidade moderna quando posta diante das especificidades de urgências locais, mesmo que integrantes de uma agenda que, em parte, ainda nos convoca para tomadas de decisão em larga escala.
Como citar
QUEIROZ, Rodrigo Cristiano; IMBRUNITO, Maria Isabel. Continuidade da Arquitetura Moderna no Brasil. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

