Edifícios em áreas centrais das cidades brasileiras
Resumo
No transcurso do século XX, as principais cidades brasileiras passaram por profundas transformações decorrentes de processos de modernização econômica e de intensa urbanização. Suas áreas centrais consolidaram-se como núcleos dinâmicos de atividades financeiras, administrativas e comerciais, resultando em um expressivo conjunto de edifícios corporativos. Marcadas por vitalidade, densidade e inovação, testemunharam, especialmente a partir da década de 1920, o surgimento dos primeiros edifícios verticais favorecidos pelos avanços tecnológico do concreto armado e dos sistemas de circulação mecânica. Essas condições favoreceram o florescimento de um acervo de edifícios representativos do Movimento Moderno ao lado de outros que, embora também significativos exemplares de modernização tecnológica, senão de linguagem, permaneceram à margem da historiografia que se consagrou. Certamente, essa produção aguarda uma revisão dos critérios de valoração e classificação adotados pela crítica, desafiando os limites do modernismo ortodoxo. Nas décadas de 1980 e 1990, no entanto, o esvaziamento progressivo dessas áreas centrais têm trazido ameaças a esse patrimônio. O deslocamento de funções urbanas, a obsolescência das edificações e, mais recentemente, as transformações no mundo do trabalho — acentuadas durante a pandemia — contribuíram para o esvaziamento e a ociosidade de muitas edificações, mesmo em zonas com ampla oferta de infraestrutura e localização estratégica. Esse paradoxo evidencia a urgência de estratégias que aliem preservação e requalificação urbana. Nesse cenário, a retomada do legado moderno nas áreas centrais emerge como uma oportunidade de uma ação integrada, com benefícios sociais, culturais e ambientais. O reaproveitamento de edificações existentes se impõe como estratégia sustentável frente à expansão urbana, à produção de resíduos e à emissão de gases. Ao mesmo tempo, a reconversão funcional desses edifícios pode fomentar o repovoamento das áreas centrais e promover sua reintegração à vida urbana. Neste quadro, tem se colocado de maneira cada vez mais frequente o desafio do reaproveitamento de edificações pré-existentes, reconvertidas e adaptadas. Uma nova dimensão da atividade de projeto toma corpo no campo profissional. E, ao fazê-lo, traz simultaneamente, um universo de questões cuja resposta e debate é urgente. Como conservar o legado da produção moderna senão por sua apropriação intensa, integrada ao circuito social e atualizada às exigências da vida contemporânea? Como se definem novos critérios de projeto contidos nos limites de estruturas arquitetônicas pré-definidas? O que deve ser conservado, mantido, preservado e restaurado, em respeito aos valores da obra legada do passado e o que pode ser alterado, transformado, adaptado em resposta às demandas atuais? A proposta desta mesa é discutir essas questões à luz de experiências de reutilização e reconversão de edifícios modernos em áreas centrais brasileiras, explorando caminhos projetuais, critérios de intervenção e marcos conceituais para uma preservação ativa e comprometida com a vida contemporânea.
Como citar
CARRILHO, Marcos José; WOLFF, Silvia Ferreira Santos. Edifícios em áreas centrais das cidades brasileiras. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

