Impurezas no mundo moderno
Resumo
O século XIX assistiu a um processo gradual de profusão de elementos decorativos nos interiores domésticos, bem como ao aumento quantitativo de mobiliário - que passou a ser organizado de forma menos rígida, tornando muitas salas de estar quase intransitáveis. A coexistência de estilos diferentes se somava a esse quadro. A acumulação incomodava higienistas, para quem significava impureza; artistas, que acreditavam que o excesso de ornamentos destruiria a arte, e moralistas, para quem a ostentação era inconveniente. Pior do que a quantidade, a qualidade dos objetos que superpovoavam aqueles interiores era duramente criticada. Havia muita falsificação ou mesmo a fabricação de réplicas de objetos como peças arqueológicas ou tapetes orientais. Diante de tudo isso, a supressão dos excessos e a unidade proposta pela arquitetura moderna do início do século XX pareciam ser um bálsamo necessário, um antídoto vital contra a doença do ecletismo. A palavra ecletismo deriva do grego eklektikós, de eklego, que significa “escolher”, também presente na origem de legere, ler, em latim. Ler, portanto, conhecer e interpretar para escolher. O termo ecletismo se aplica à variedade de estilos que se tornou corrente por volta de 1820 e rompeu com a hegemonia do neoclassicismo - embora a tendência de reviver estilos de períodos passados devesse ser mais propriamente chamada de historicismo. Olhando mais de perto, no entanto, percebe-se que a casa moderna, projetada em sua totalidade pelos arquitetos da época, nunca foi desprovida de alguma dose de mistura, de alguma impureza, da contaminação de algum “agente externo”. Encontram-se tapetes orientais na Villa Tugendhat, assim como ânforas de argila entre as cadeiras Thonet e pinturas puristas nas casas de Le Corbusier, na década de 1920. Já em meados do século, a Casa de Vidro de Lina Bo Bardi é prolífica em misturas equilibradas, assim como o casal Eames exibe uma coleção de peças indígenas com destaque sob o telhado de zinco da Casa nº 8. Na década de 1960, as casas projetadas por Charles Moore para si mesmo beiram o exagero, flertando com o kitsch. O que era a sutil coexistência de diferenças estava se tornando uma tendência. Mas já houve, de fato, uma casa moderna “pura”? Esta sessão se propõe a discutir os interiores das casas modernas, produzidos entre os anos 1920 e os nos 1970, em seus diferentes graus de pureza. Esperamos trabalhos que tratem dos espaços privados e dos objetos e/ou elementos – ou da constelação deles - da vida cotidiana que os habitam, da forma como arquitetos e usuários atuam para lidar com seu significado cultural, social e político. Aceitamos artigos que interpretem e analisem a domesticidade, considerando a relação entre modernidade, vernacular, ecletismo e hibridismo como campos de reflexão histórica e teórica sobre o discurso arquitetônico do século XX.
Como citar
PEIXOTO, Marta Silveira; TOSTÕES, Ana. Impurezas no mundo moderno. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

