Reformas notáveis em contextos ordinários
Resumo
Requalificação, reabilitação, remodelação, renovação, retrofit e reutilização são termos que abrangem uma ampla gama de projetos de intervenção em edifícios existentes. Embora estas denominações possam parecer imprecisas como conceitos, todas elas implicam um afastamento ou até uma superação dos cânones clássicos da restauração. Além disso, cada uma delas alude a uma modalidade possível de operação de reforma. Todo projeto arquitetônico, como qualquer ação social, constitui um ato histórico. Nesse contexto, cada construção representa uma intervenção dentro de um quadro preexistente, seja ele cultural, natural ou edificado. As ações voltadas à preservação do patrimônio construído operam dentro de uma lógica razoavelmente codificada, na qual narrativas históricas específicas sobre um determinado objeto concreto são selecionadas como autênticas. Essa seleção impõe uma forma discursiva particular que, ao mesmo tempo, integra e diferencia a estrutura original da nova intervenção, promovendo uma convivência entre memória e novidade dentro de um mesmo edifício. Ao projetar para preservar ou intervir em estruturas arquitetônicas significativas, geralmente se recorre às recomendações emanadas da Teoria da Restauração. Projetos de reforma, apesar de corriqueiros, são via de regra subestimados pela crítica e pela historiografia contemporâneas. Diferentemente da restauração, a operação de reforma não conta com um campo teórico autônomo, a ela especialmente dedicado. Enquanto as arquiteturas totalmente novas estabelecem forma e materialidade inéditas ordenadas segundo de uma dada realidade, e a restauração visa a restabelecer um estado autêntico ou ideal (nem sempre claramente determinado), a reforma tem base conservadora, mas propósito transformador. A reforma trata o texto existente como pretexto e interage com ele mais livremente do que a restauração, envolvendo ações como cortar, adicionar, colar e refazer. O projeto de reforma começa com o exame da condição preexistente e uma necessidade prática de utilização sustentável de uma infraestrutura edificada, uma vez que a demolição e o descarte não apenas geram mais resíduos sólidos, mas também pressupõem o consumo de mais recursos na nova construção. Adaptada a diversas exigências de permanência e, sobretudo, a propósitos econômicos, a reforma prescinde de uma gramática específica ou de resultados previsíveis; liberta-se do papel de coadjuvante ao integrar elementos preexistentes em uma nova realidade na qual, parafraseando Riegl, a novidade se torna um valor patrimonial capaz de suplantar a antiguidade. Esta sessão propõe a coleta de estudos de caso capazes de estimular o debate acadêmico sobre uma operação de projeto comum, porém frequentemente negligenciada: a reforma. Estão convidados trabalhos que apresentem arquiteturas históricas ou reformas contemporâneas de edifícios modernos. Tanto a análise minuciosa da estrutura existente quanto a criação da nova arquitetura são de interesse neste contexto. Interessam à sessão casos nos quais novas arquiteturas, associadas a edifícios mais antigos que não constituam patrimônio cultural, transformam-nos e a si próprias em construções que não apenas merecem interesse, mas também justificam sua preservação.
Como citar
PELLEGRINI, Ana Carolina Santos. Reformas notáveis em contextos ordinários. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 16., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Marcavisual Editora, 2025. ISBN 978-65-993024-6-6.

