Bahia – um outro modernismo: paralelo e escamoteado
Resumo
Ao longo das décadas de 30 e 40, Lucio Costa estudou as “casas sem dono” e projetou Monlevade, o Museu das Missões, o Park Hotel de Nova Friburgo e o Parque Guinle. Os irmãos Roberto ergueram algumas de suas principais obras no mesmo período. Oscar Niemeyer, já consagrado com a Pampulha, projetou a sede do Banco Boavista em 1946. Naquele ano, Vilanova Artigas projetou o Edifício Residencial Louveira, em São Paulo; logo, desenharia para Londrina, a sua inquietante Estação Rodoviária (1950). A residência de Lina Bo e Pietro Maria Bardi é de 1949. Os primeiros anos da década de 50 seriam caracterizados por projetos marcantes de Affonso Eduardo Reidy para o Rio de Janeiro, como o Pedregulho, o Teatro de Marechal Hermes, o Museu de Arte Moderna e o Aterro do Flamengo. Em 1946, a Cia. Brasileira Imobiliária e de Construções publicou um álbum comemorativo. Embora com escritórios em Salvador e em São Paulo, o objetivo era mostrar aos seus clientes soteropolitanos as edificações executadas em quase dez anos de atividade da empresa na Bahia. Ou seja, abrangendo um período de 1936 a 1946, aproximadamente. A Companhia destacava-se na indústria da construção, para tanto contando com a colaboração de profissionais importantes, entre os quais salientamos o engenheiro civil Carlos Espinheira de Sá – de 1937 a 1954 – e o arquiteto Hélio Duarte – atuando de 1938 a 1944. Tal catálogo foi idealizado pelo jornalista José Maria Cardoso e organizado por Ernani A. Caricchio. Com cento e quatro páginas, alternando material publicitário e cento e vinte e oito fotografias de diferentes realizações, trata-se de um documento de extrema riqueza sobre o desenvolvimento de uma linguagem moderna na Bahia e, sem dúvida, no Brasil. De um lado, temos a divulgação dos fornecedores de materiais para a construção civil – ferro, cimento, madeiras, assoalhos, ladrilhos, elevadores etc. – e, de outro, uma respeitável mostra da arquitetura que vinha sendo então executada. Nele encontramos inúmeras casas em estilos variados, como o “misiones de Califórnia”, também conhecido como “californiano”, além de outras já claramente modernistas, como as residências do engenheiro Carlos Pinto de Pinho e de Fernando Sá. Encontram-se lá ainda diversos prédios de orientação moderna, de alto significado na cidade, como os edifícios Oceania, Xavier, Chile, Dourado, Santa Elisa e o Banco da Bahia. De importância institucional, deve-se lembrar a Escola de Puericultura Raimundo de Magalhães, o Instituto Brasileiro para a Investigação da Tuberculose (IBIT), o Ambulatório da Santa Casa de Misericórdia e o Mercado Municipal, estes dois últimos em Ilhéus. Embora construídos no exato momento que as obras inicialmente arroladas – todas de arquitetos atuantes no Rio de Janeiro ou em São Paulo –, as edificações baianas se destacam por apresentar uma outra linguagem arquitetônica, um outro modernismo, não hegemônico e quase sempre escamoteado.
Palavras-chave
Abstract
During the 1930’s and 1940’s, Lucio Costa studied the "houses without owners" and designed Monlevade, the Missions Museum, the Park Hotel and the Park Guinle. The brothers Roberto raised their major works in the same period. Oscar Niemeyer, already recognized for his Pampulha project, designed the headquarters of the Boavista Bank in 1946. That year, Vilanova Artigas designed he Louveira Residential Building in São Paulo. Soon, he would design the disturbing bus station of Londrina (1950). The house of Lina and Pietro Maria Bardi was designed in 1949. The first years of the 1950's were characterized by significant projects by Affonso
Eduardo Reidy in Rio de Janeiro, such as the Pedregulho housing complex, the theater of Marechal Hermes, the Museum of Modern Art and the Flamengo Landfill. In 1946, the Companhia Brasileira Imobiliária e de Construções published a commemorative album. Although with offices in Salvador and São Paulo, the publication’s aim was to show customers in Salvador the buildings built in its almost ten years activity in Bahia, thus covering a period from 1936 to 1946. The Company was leading in the construction industry, and counted with the collaboration from important professionals, including civil engineer Carlos Espinheira de Sá (from 1937 to 1954) and architect Hélio Duarte (from 1938 to 1944). The catalogue, edited by journalist José Maria Cardoso and organized by Ernani A. Caricchio, with 104 pages, alternating advertising material and 128 photos of buildings, doles out a rich documentation on the establishment of a modern language in Bahia (and in Brazil). On the one hand, the album presents advertisings from construction industry suppliers (iron, cement, wood, flooring, tiles, elevators etc.), on the other, a considerable exhibition of the architecture performed back then – homes in different styles, such as the "Californian style", and several significant Modern buildings, such as the Oceania, Xavier, Chile, Dourado, Santa Elisa, the residences of engineer Carlos Pinto de Pinho and Fernando Sá, the Bank of Bahia, the Raimundo de Magalhães Puericulture School, the Brazilian Institute for Tuberculosis Research (IBIT), the Outpatient Clinic of the Santa Casa de Misericordia and the City Market (the last two in Ilhéus). Although constructed at the same period as the works initially mentioned – mostly designed by architects from Rio de Janeiro or São Paulo - the Bahia’s buildings stand out by presenting a different architectural language, another Modernism, not hegemonic and often suppressed.
Como citar
SCHLEE, Andrey Rosenthal; FICHER, Sylvia. Bahia – um outro modernismo: paralelo e escamoteado. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO NORTE/NORDESTE, 2., 2008, Salvador. Anais [...]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE / UFBA, 2008. DOI: 10.5281/zenodo.19293242.
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Ficha catalográfica
2º Seminário Docomomo Norte/Nordeste: anais: desafios da preservação: referências da arquitetura e do urbanismo modernos no Norte e Nordeste [recurso eletrônico]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE; UFBA, 2008.

