Dos mosaicos às curvas: a estética modernista na arquitetura residencial de Belém
Resumo
Em Belém, cujas heranças dos séculos XVIII e XIX estão bem presentes, o modismo modernista foi-se mesclando aos padrões anteriores. Por trás das platibandas eram encontrados telhados de barro e, na maioria das vezes, as esquadrias eram feitas em madeira. Até a formação do curso de Arquitetura da Universidade Federal do Pará em 1964, a Arquitetura local foi realizada por mestres de obras e engenheiros. Não se encontravam em Belém as causas da implantação da Arquitetura Moderna no Brasil: nem um Estado forte, nem uma burguesia industrial apta a financiar as novas concepções arquitetônicas; apenas uma classe dominante advinda do extrativismo e da pecuária, e uma emergente classe média. Porém, as conseqüências perversas de nosso modo de produção ocorriam também aqui: as migrações campo-cidade, ocasionando a carência de habitações saudáveis e de infra-estrutura. O modelo modernista era, para nós, uma fachada, um símbolo de status, de pertencermos ao mesmo país em desenvolvimento, apesar das marcantes diferenças. Os estilos da arquitetura belemense seguiam, nas primeiras décadas do século XX, as tendências evidenciadas nas demais metrópoles brasileiras - estas agitadas pela industrialização tardia - como o Art Nouveau e o Art Decò, que foram empregados nos primeiros edifícios residenciais e comerciais verticalizados e nas vilas operárias. A tipologia do bangalô foi largamente utilizada, algumas vezes com platibanda encobrindo o telhado, jardins utilizando plantas regionais, azulejos, vidros. As esquadrias eram em sua maioria em madeira, por causa dos costumes locais, da adaptação climática e das dificuldades de importação de esquadrias metálicas produzidas em série no Sudeste do país. As renovações ocorreram aos poucos, cabendo as formas mais ousadas aos clubes desportivos, escolas e edifícios, além de algumas residências de alto padrão. Havia rejeição aos primeiros apartamentos, sendo preferida a tipologia da casa isolada no lote, que passou a caracterizar as construções dos novos bairros residenciais. Entre as décadas de 50 e 70, os edifícios dividiam-se em comerciais e mistos, construídos no bairro do Comércio, tais como os edifícios “Palácio do Rádio” e “Importadora”, com térreo comercial e apartamentos residenciais ou de serviços. Nos bairros de Nazaré e Batista Campos, no núcleo central de Belém, foram construídos edifícios com amplos apartamentos cujos interiores lembram casas, os quais, apesar de utilizarem tecnologias modernas, têm a decoração dos halls de entrada em Art Nouveau ou Decò. Entre as décadas de 50 e 70, engenheiros civis como Camillo Porto de Oliveira e Judah Levy divulgaram as novas tecnologias construtivas como uso do concreto armado, panos de vidro, telhas de cimento-amianto, tijolos vazados, escadas e rampas. Nesta fase, a Arquitetura residencial belemense apreciava a tendência organicista, ao gosto das obras de Frank Lloyd Wright, com sacadas e rampas curvas que hoje caracterizam seus principais exemplares, combinando a estética volumétrica à funcionalidade na adaptação do espaço aos novos padrões sociais e familiares. A formação da Arquitetura moderna em Belém exalta a substituição das fachadas características do século XIX por elementos decorativos mais simples, de tendência Art Decò, ou pela elaboração de platibandas com linhas inclinadas, revestidas por mosaicos de azulejos, que se tornaram localmente conhecidas como estilo “Raio que o parta”. Os modelos estruturais formadores da concepção moderna na Arquitetura tornam-se tipos ornamentais, que viriam a dotar de modernidade as residências das décadas de 50 a 60 em Belém, segundo o gosto de engenheiros, desenhistas e dos proprietários.
Palavras-chave
Abstract
In Belém, with the heritage of the XVIII e XIX centuries’ presence, the modern fashion joined to the past forms. Behind the “platibandas” there are clay roofs and wood windows. Since the inauguration of
Architecture graduation at Universidade Federal do Pará in 1964, the local architecture was made by engineers and masters. In Belém there is neither Strong State nor industrial burguesy in order to provide reasons to the implantation of the Modern Architecture; only a high class originated from the extrativism and an emergent middleclass. Although, the perverse consequences of capitalism happened here: migrations which propitiated the lack of healthy housing and infra-structure. The modernist model was a façade, a
status symbol. The architecture stiles in Belém were, in the first decades of 20century, the same of the other Brazilian cities as Art Nouveau and Art Decò, which were used in the first residential and commercial buildings and in the workers houses. The bungalow was constructed with gardens using regional plants. The window was made in wood, because of local costumes, climatic adaptations and difficulties in importing metal ones produced in the Southeast of Brazil. The renovation was slow, occurring in the Clubs and in high level residences. The population rejected the apartments, preferring the houses isolated, which was the chosen typology of the new residential districts. Between the 50 and 70 decades, the buildings were commercial or mixed, build in the Comércio’s district, such as “Palácio do Rádio” and “Importadora”, with commerce in the ground floor and apartments in the other stages. In Nazaré and Batista Campos districts, in the city center, were build large apartments whose interior seems houses, although the entrance hall being decorated in Art Nouveau or Decò styles. Between the 50 and 70 decades, civil engineers such as Camillo Porto de Oliveira and Judah Levy introduced new technologies as concrete, glass walls, roofing of cement tiles, open bricks, staircases and ramps. At this time, the residential Architecture in Belém liked the organic forms, characteristic of Frank Lloyd Wright’s projects, using balcony and curved ramps, combining aesthetic and functionality in order to adapt the spaces to new social and familiar patterns'. The Modern Architecture formation in Belém shows the substitution of XIX century façades by simple decorative elements of Art Decò, or by ornamentation in angled lines, covered by pieces of ceramic tile, called locally “Raio que o parta” style. The structural models of Modern Architecture were converted in ornamental types, giving modernity to the 50’s and 60’s houses in Belém, according to engineers, masters and proprietaries.
Keywords
Como citar
MIRANDA, Cybelle Salvador; CARVALHO, Ronaldo Nonato Ferreira Marques de. Dos mosaicos às curvas: a estética modernista na arquitetura residencial de Belém. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO NORTE/NORDESTE, 2., 2008, Salvador. Anais [...]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE / UFBA, 2008. DOI: 10.5281/zenodo.19293262.
Referências
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Ficha catalográfica
2º Seminário Docomomo Norte/Nordeste: anais: desafios da preservação: referências da arquitetura e do urbanismo modernos no Norte e Nordeste [recurso eletrônico]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE; UFBA, 2008.

