Permanências modernistas na Praça Sinimbú — Maceió: em análise e proposta de preservação
Resumo
Este resumo objetiva analisar como um determinado trecho da cidade de Maceió teve o seu processo de modernização impulsionado após o advento da República em 1889, acompanhando as prerrogativas que desatrelava os municípios brasileiros dos governos provinciais deixando-os à diretriz dos intendentes que vislumbravam “ares” de modernismo para renovar a feição das cidades. “Foi o que se deu em Maceió. A partir de (1890) o surto progressista acentua-se numa curva ascendente. (...) O necessário era fazer a cidade; urbanizá-la (...). Abrem-se e alargam-se ruas; constroem-se praças(...). Palacetes que se constroem, (...) as famílias já procuram as ruas, já vão às praças. (COSTA, 1981). A frenética atração pela rua fomentou novas tipologias e renovou a estética do casario que ladeava as vias e espaços públicos, apreciados para lentos passeios a pé. Edificações remodelavam-se ou surgiam sob estilos em voga do final do século XIX / primórdios do XX, concentradas em torno dos espaços públicos. Também Maceió neste período renova sua estética urbana, em pontos dispersos, mas, sobretudo no eixo que ligava Jaraguá ao Centro, unido por uma obra destaque da tecnologia inglesa: - a Ponte dos Fonsecas, com 120 m de comprimento por 4 m de largura e guarda-corpos em gradil de ferro. O ferro, emergente da industrialização, emprestara um ‘ar’ progressista aos equipamentos que “modernizaram” toda esta área adjacente, ou seja, a Praça Sinimbú, pontuada por postes, esculturas de figuras mitológicas, coreto em ferro e circundada por residências de traço eclético, prenunciadores de modernização. (FERRARE, 1999) A modernização sempre definiu o entorno edificado da Praça Sinimbú como um ‘canteiro’ de inovação estética na cidade, tendo sido alvo de marcantes inovações a partir do ano de 1941 até a década de 1960 com a substituição das edificações simbólicas, - Lyceu de Artes e Officios e Companhia Alagoana de Trilhos Urbanos, para respectivamente, edificar a Escola de Engenharia Civil, a Residência Universitária Masculina e o Restaurante Universitário da Universidade Federal de Alagoas, em prédios que utilizaram elementos e materiais emergentes, como: vidro, revestimento cerâmico, brise-solei vertical em concreto; cobogós e pérgolas, expressando funcionalidade e estética modernas. Também o desenho da Praça Sinimbú modernizou-se na administração do prefeito Sandoval Cajú, (1961 – 1964) que ditou uma “revolução” estética inserindo canteiros e bancos sinuosos fabricados em marmorite, e segmentou a praça marcando a parte menor com “um painel todo em azulejos de cores diversificadas, mostrando através de desenhos a economia local, com uma piscina cuja fonte era um ‘my-joãozinho’. No verso desse mural estava escrito “LÁ VEM O ACENDEDOR DE LAMPIÕES DA RUA”; homenagem ao poeta alagoano Jorge de Lima.”(CASTELO BRANCO,1993). Esses painéis de azulejos, em ‘cacos’, tornaram-se ícones da estética modernizadora das praças na gestão deste prefeito que os adquiria, “(...) a preços módicos nas fábricas do Sudeste. Formando desenhos ou preenchendo formas geométricas, cobrem bancos, painéis e outros equipamentos (...).” (SILVA,1991). Muito deste mobiliário em desenho modernista, bastante difundido em outras praças da cidade, desde 1964 vem se perdendo. Porém, na Praça Sinimbú vários deles e um peculiaríssimo painel azulejar, bem como exemplares arquitetônicos de nítida concepção moderna que contornam todo o seu perímetro, remanescem. A concentração de tantas permanências de arquitetura e arte modernista referenda o implemento de medidas urgentes de preservação para esse ‘lócus’ que absorveu mudanças de valores e de técnicas que se anunciaram em momentos pretéritos e as retêm em seu vocabulário formal e imagético, fazendo-se muito significativo para várias gerações de maceioenses. Afinal, ”O espaço atual nada mais é que a acumulação desigual de tempos”. ( SANTOS, 1978 )
Palavras-chave
Abstract
The aim of this summary is to analyze how a specific part of the city of Maceió started a process of modernization after the Proclamation of the Republic in 1889, as a result of the new independence of the administrators in relation to the provincial governments and their desire for “airs” of modernism. That is what happened to Maceió as of 1890, caused by an ascending progressist curve. (…) It was necessary to build the city, to urbanize it (..) New streets are open and widened, squares are built (…) stately mansions are built (…). The families are walking the streets and visiting the squares. (COSTA, 1981). This frantic use of the streets created new styles and renovated the esthetics of the rows of houses next to public spaces that were th used for slow walks. New buildings appeared in the styles in vogue towards the end of the 19 th century/beginning of 20 century, around public spaces. Maceió also goes through periods of urban renovation, particularly, in the way between Jaraguá and the Center, connected by a remarkable English- style construction – The Bridge of the Fonsecas, 120m long and 4m wide and with iron railings. Iron, emerging from the industrialization process, lent a progressive “air” to the equipment that “modernized” Praça Sinimbú. It contained street lamps, mythological sculpture figures, an iron bandstand, all surrounded by eclectic-style residences, forerunners of the modernization. (FERRARE, 1999). The modernization has always been present around Praça Sinimbú, an area of esthetic renovation in the city, especially, as of 1941 and until de 60s, with the replacement of symbolic buildings – the Lyceu the Artes e Officios and the Compania Alagoana de Trilhos Urbanos to build, respectively, the Escola de Engenharia Civil, the Male Dormitories and the Restaurant of the Federal University of Alagoas. The buildings used modern material like glass, ceramic floors, vertical brise-soleil in concrete, ventilation bricks and arbours, all expressing functionality and modern esthetics. The design of the Praça Sinimbú was modernized during the administration of mayor Sandoval Cajú (1961-1964). He started an esthetic revolution by including flower beds, curved stone benches and the division of the square into different parts. The smaller part features a panel with multicolored tiles, depicting scenes from the local economy and a water fountain. At the back of this mural it was written: “THERE COMES THE STREET LAMP LIGHTER”, in homage to the poet from Alagoas, Jorge de Lima. (CASTELO BRANCO, 1993). These mosaics, in “pieces”, became the modern icons in the squares under the administration of the mayor, “(…) who bought them at low prices from the mills in the southeast. Creating designs or filling geometric forms, covering benches, panels and other equipment (…)” (SILVA, 1991). A lot of these installations have been lost in other squares of Maceió since 1964. However, at Praça Sinimbú, several modern installations and a very peculiar tile panel have remained. Such concentration of modern architecture and art justify the preservation of this location that has absorbed values and techniques from a past, which are still retained in the language and image of the square and have great significance for the future generations living in Maceió. After all, “The present space is no more than an unequal accumulation of the different times”. (SANTOS, 1978)
Keywords
Como citar
FERRARE, Josemary Omena Passos. Permanências modernistas na Praça Sinimbú — Maceió: em análise e proposta de preservação. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO NORTE/NORDESTE, 2., 2008, Salvador. Anais [...]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE / UFBA, 2008. DOI: 10.5281/zenodo.19293303.
Referências
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Ficha catalográfica
2º Seminário Docomomo Norte/Nordeste: anais: desafios da preservação: referências da arquitetura e do urbanismo modernos no Norte e Nordeste [recurso eletrônico]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE; UFBA, 2008.

