Hélio Modesto em Fortaleza: ressonância e resistibilidade do Urbanismo Moderno

Capa dos anais

2º Seminário Docomomo Norte/Nordeste, Salvador, 2008

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19293310

Resumo

O Plano Diretor de Fortaleza, concebido pela equipe do urbanista carioca Hélio Modesto em 1962, e aprovado no ano seguinte, tem sido com freqüência analisado sob a óptica de uma oportunidade perdida para a organização do espaço em uma cidade com vertiginoso crescimento. A frustração sempre renovada dos planos esquecidos tem imbricações profundas no pensamento coletivo dos urbanistas. Em tal contexto, reforça-se a idéia de que não se tem vivido plenamente a história, mas padecido de sua ausência como uma catástrofe ou um castigo. Neste trabalho, propomos investigar este plano e o pensamento do seu autor a partir de outra perspectiva: a da apropriação diferenciada no tempo e da repercussão da herança do urbanismo moderno. Em um mundo em constante transformação, a dialética hegeliana ensina que em cada processo de mudança é possível observar contradição e conciliação com repercussões no domínio da lógica, mas também no âmbito da cultura e da história. Ninguém no mundo contemporâneo, diz Marshal Berman, é ou pode ser “marginal”. Um pergaminho que comenta sobre os desígnios da cidade pode, com o tempo, perder muito de sua nitidez, adequação e senso político, mas de algum modo, seu sentido restaurase em novos usos e interpretações. É, assim, como a própria idéia de modernidade. Na volátil atmosfera dos anos 60, o Plano Hélio Modesto marcou uma etapa no avanço do conhecimento sobre o urbanismo em Fortaleza. A ele se atribui a dupla tentativa de livrar a cidade das incertezas e vulgaridades de um crescimento desordenado e de estimular a autonomia e a dignidade das atividades do urbanista. O Plano Hélio Modesto é, neste sentido, testemunho das aflições de uma época, embora não seja possível ignorar que sua dimensão técnica e sua estética espacial mostraram-se flexíveis o bastante para resistirem em meio a um processo histórico com alto grau de dinamismo. Lançado à sorte, o Plano Hélio Modesto haveria de permanecer até os dias atuais na “memória urbanística da cidade”, ganhando ressonância e resistibilidade, quer no ensino do planejamento urbano, quer na crítica da prática urbanística, quer nos discursos e debates contemporâneos. Reconstituir o prestígio alcançado pelo Plano Hélio Modesto parece, então, ser fundamental para compreender a evolução e influência do urbanismo e do planejamento urbano no Ceará. Com base na análise dos artigos publicados do autor, no texto e mapas do Plano Diretor, nas matérias de jornais, e com a ajuda imprescindível de depoimentos de profissionais que vivenciaram este período, foi possível compor esta narrativa expos-facto do Plano Hélio Modesto.

Palavras-chave

Abstract

Fortaleza’s Director Plan, conceived by the team of the carioca urban planner Hélio Modesto in 1962, and approved in the following year, has been frequently analyzed as a lost opportunity to spatial organization in a city with rapid growth. The always renewed frustration from forgotten plans has deep roots the urban planners’ collective thoughts. In this context, it is reinforced the idea that history hasn´t been lived thoroughly, and thus its absence has been perceived as a catastrophe or punishment. In this work, we propose to investigate this plan and the author´s thought from another perspective: the one of differentiated appropriation in time and the repercussion of the modernist urbanism´s legacy. In a world in continuous transformation, the Hegel dialectics teaches that in every changing process it is possible to observe contradiction and conciliation with repercussions on formal logic domain, but also on the ambit of culture and history. No one in contemporary world, says Marshal Berman, is or could be marginalized. A papyrus scroll which talks about the city urbanistic plans can, in the course of time, lose much of its clearness, suitability and political sense, but somehow, its sense is restored by new uses and interpretations. It’s the same with the idea of modernity. In the 1960s volatile atmosphere, Hélio Modesto Plan marked a period in the advance of urbanism knowledge in Fortaleza. It is attributed to the plan the double endeavour to liberate the city from uncertainties and vulgarity of a chaotic growth, and to stimulate autonomy and dignity of the urban planner activities. Hélio Modesto Plan is, in this way, a testimonial of an age’s despair, although it’s not possible to ignore that its technical dimension and its spatial esthetic were flexible enough to resist in the middle of a historical process with high level of dynamism. Hélio Modesto Plan would remain until the present days in the “city urban memory”, winning resonance and resilience, either in urban planning teaching, or in urban practice critic, or in contemporary speech and debates. To reconstitute the prestige obtained by Hélio Modesto Plan seems, then, to be fundamental to comprehend the urbanism’s and urban planning’s evolution and influence in Ceará. Based on the author’s articles analysis, on Director Plan text and maps, on newspapers’ material, and with the utmost contribution from professionals that lived this period, it was possible to compose this expos-facto history of Hélio Modesto Plan.

Keywords

Como citar

FARIAS FILHO, José Almir. Hélio Modesto em Fortaleza: ressonância e resistibilidade do Urbanismo Moderno. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO NORTE/NORDESTE, 2., 2008, Salvador. Anais [...]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE / UFBA, 2008. DOI: 10.5281/zenodo.19293310.

Referências

  • ADERALDO, Mozart Soriano. História abreviada de Fortaleza e crônicas sobre a cidade amada. Fortaleza: Programa Editorial da Casa José de Alencar, 1998.
  • BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
  • BERNAL, Cleide. A metrópole emergente: a ação do capital imobiliária na estruturação urbana de Fortaleza. Fortaleza: Editora UFC/Banco do Nordeste do Brasil SA, 2004.
  • BRONSTEIN, Laís. A crise do urbanismo contextualista. In Anais do VIII Seminário da História da Cidade e do Urbanismo. Niterói, 2004.
  • CASTRO, José Liberal de. Ceará, sua arquitetura e seus arquitetos. In: Cadernos Brasileiros. Panorama da Arquitetura Cearense. São Paulo: Projeto, 1982. p1-13.
  • COSTA JR. Fausto Nilo e PONCE DE LEON, Delberg. Conversão de Impactos Urbanísticos em Oportunidades de Revitalização Urbana. In Seminário UFC. Centro Multifuncional de Feiras e Eventos. Fortaleza: ASTEF/UFC, CD ROM, 2002.
  • GIEDION, Sigfried. Espacio, tiempo y arquitectura. (1941). Madrid: Editorial Dossat, 1978.
  • HABERMAS, Jüngen. Modernidade. Um projeto inacabado. (1980). In ARANTES, O. e ARANTES, P.E. Um ponto cego no projeto moderno de Jürgen Habermas. São Paulo: Brasiliense, 1992.
  • IBAM (org.). Leituras de Planejamento e Urbanismo. Rio de Janeiro, IBAM, 1965.
  • JUCÁ, Gisafran Nazareno Mota. Verso e reverso do perfil urbano de Fortaleza (1945-1960). São Paulo: Annablume, 2003.
  • LEME, Maria Cristina da Silva (coord.) Urbanismo no Brasil. 1895-1965. São Paulo: Studio Nobel; FAUUSP; FUPAM, 1999a.
  • LEME, Maria Cristina da Silva (coord.). A formação do pensamento urbanístico no Brasil, 1895-1965. In LEME, Maria Cristina da Silva (coord.) Urbanismo no Brasil. 1895-1965. São Paulo: Studio Nobel; FAUUSP; FUPAM, 1999b. p20-38.
  • MARQUES, Regina Elizabeth do Rêgo Barros. Urbanização e classes sociais: o caso de Fortaleza. Dissertação de Mestrado em Sociologia, Universidade Federal do Ceará, 1986.
  • MARTINELLI, Marcelo. Curso de cartografia temática. São Paulo, Editora Contexto, 1991.
  • MODESTO, Hélio. O urbanismo e a profissão de urbanista. Revista de Administração Municipal, nº 34, mai/jun 1959a, p9-13.
  • MODESTO, Hélio. Ausência de planejamento no Brasil. Revista de Administração Municipal, nº37, nov/dez 1959b, p2-5.
  • MODESTO, Hélio. Planejamento Governamental e Urbanização. Revista de Administração Municipal, nº 38, jan/fev, 1960, p2-4.
  • MODESTO, Hélio. Problemas de planejamento urbano. Revista de Arquitetura, nº 72, jun/jul 1968.
  • MODESTO, Hélio e MELLO, Diogo Lordello de. Mentalidade de Planejamento no Brasil. In IBAM (org.). Leituras de Planejamento e Urbanismo. Rio de Janeiro: IBAM, 1965. p. 47-61.
  • PAZ, Octavio. Convergências: ensaios sobre arte e literatura. Poesia latino-americana. Rio de Janeiro: Rocco, 1991, p161-173.
  • PREFEITURA MUNICIPAL DE FORTALEZA. Plano Diretor, Decreto nº 785, de 26/02/1947.
  • PREFEITURA MUNICIPAL DE FORTALEZA. Código Urbano, Lei nº 2.004 de 06/08/1962.
  • PREFEITURA MUNICIPAL DE FORTALEZA. Plano-Diretor de Fortaleza. Lei nº 2.128 de 23/03/1963. In Revista do Instituto do Ceará, Anno LXXVIII, 1964, p201-247.
  • SALES, José Albio Moreira de. O desenho da cidade moderna em Fortaleza: um estudo dos planos Saboya Ribeiro e Hélio Modesto. Dissertação de Mestrado em Desenvolvimento Urbano. Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, 1997.
  • SALES, José Albio Moreira de. Fortaleza anos 50: uma história da arte como história da cidade. Tese de Doutorado em História. Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, 2002. *

Ficha catalográfica

2º Seminário Docomomo Norte/Nordeste: anais: desafios da preservação: referências da arquitetura e do urbanismo modernos no Norte e Nordeste [recurso eletrônico]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE; UFBA, 2008.