Campos opostos: trabalhos e viagens de Viana de Lima no Brasil

Capa dos anais

2º Seminário Docomomo Norte/Nordeste, Salvador, 2008

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19293369

Resumo

Se a geração dos proto-modernistas à escala internacional exibe uma saliente preocupação pela História, já a geração heróica dos Modernos usa o corte com a tradição como um traço constitutivo e uma das alavancas da nova concepção do espaço. Alguns, porém, onde se encontra precisamente o maior expoente do Movimento Moderno para as paragens latinas do mundo globalizado pelo desiderato moderno – Le Corbusier – nunca rompem as pontes e restabelecem-nas por meio de novos nexos, não tão óbvios e por isso longamente esquecidos. Outra excepção à regra geral se encontra no Brasil. Lúcio Costa, a par da militância pela Arquitectura Moderna e do seu contributo projectual, conhecida para o mundo, se aplica numa actividade bem mais obscura para o conhecimento que dele se construiu no exterior: a do estudo e salvaguarda do patrimônio edificado. No lado oposto do Atlântico, participa neste paradoxo o arquitecto português Alfredo Evangelista Viana de Lima (1913-1991). É consensualmente reconhecido em Portugal como um expoente da Arquitectura Moderna, um dos poucos que nunca se encantou com ajustes contemporizadores de linguagem e cuja produção conhecida é desde o início ao fim da carreira uma límpida sequência de obras sem compromissos. Mas é este arquitecto que, após um período precoce de trabalho de patrimônio no final dos anos 30, vai a partir dos anos 60, dedicar-se a importantes tarefas de levantamento e reabilitação de imóveis históricos e planeamento de antigas zonas urbanas – primeiro no Brasil e depois em diversos e muito dispersos locais de antiga presença portuguesa no mundo. Da antiga potência colonizadora, por essa altura vista como ocupando o pólo oposto da convergência em torno da imagem do progresso e de futuro – a França, a Inglaterra, e desde a 2ª Grande Guerra, os EUA - chega um arquitecto que vai ocupar-se do legado luso em termos da sua recuperação. Inicia uma carreira de consultor internacional da UNESCO debruçando-se sobre a cidade histórica de Ouro Preto, tendo como referência o trabalho desenvolvido na “parte velha” da cidade de Bragança, situada no Nordeste de Portugal. A sua colaboração irá alargar-se ao Norte e Nordeste do Brasil elaborando estudos e planos para cidades históricas situadas no Maranhão, em Alagoas e em Sergipe, cujas considerações metodológicas e projectuais mereceram a atenção do IPHAN, numa época pós Rodrigo Franco de Andrade. Sob a tutela da Fundação Calouste Gulbenkian realiza missões de estudo e intervenções patrimoniais em Rondônia e em outros núcleos de origem portuguesa situados em Ásia e em África. Mas o arquitecto Viana de Lima é, contraditoriamente, um cultor do moderno. Integrou o número de colaboradores de Le Corbusier em Paris, e pertenceu como activista aos CIAMs, onde se filiavam os arquitectos brasileiros da mesma linha. Desta comunhão de princípios surge uma relação profissional e de amizade entre o arquitecto português e Oscar Niemeyer, concretizada nos projectos do Empreendimento Turístico de Pena Furada (1965), no Algarve, e do Casino Park Hotel da Madeira (1966). Os trabalhos e viagens do arquitecto português do outro lado do Atlântico inserem-se numa era de profundo afastamento entre Portugal e o Brasil, iniciado após a sua independência, altura em que o círculo de influências portuguesas é substituído. Em campos opostos estão nesta altura, os estudos de preservação do antigo e o desenvolvimento do moderno, inseridos em quadros políticos distintos. Enquanto Portugal, inicialmente fechado sobre si mesmo, iria abrir-se à democracia, no Brasil iniciava-se o período político dos governos militares. Nesta fase, a defesa do patrimônio escuda-se na UNESCO para reforçar a actuação do órgão de preservação patrimonial do país. Será neste quadro que as relações entre os arquitectos das duas margens do Atlântico serão fortalecidas, apoiando-se num paralelismo de actuação sobre o patrimônio e tendo como epítome brasileiro Lucio Costa e como epítome português Viana de Lima.

Palavras-chave

Abstract

Following the generation of the international quasi-modernists, who demonstrated a conspicuous regard for History, the heroic generation of the Moderns used the breach with tradition as a constitutive trait and as a leverage force for the new conception of space. However, some of these architects, especially Le Corbusier, who acted as the chief advocate of the Modern Movement in the Latin regions of a Modernism-steered globalized world, never severed the bridges with History and re-established them by means of new nexus – nexus that were not so obvious and, because of this concealment, were forgotten for a long time. Another exception to the rule is to be found in Brazil. Lucio Costa, in addition to his militancy for Modern Architecture and his well known to the world contribution as an architect, devoted himself to a more unheard of activity as regards the knowledge that was gained abroad about his work - that of the study and safeguard of the built

heritage. In the other side of the Atlantic Ocean, the Portuguese architect Alfredo Evangelista Viana de Lima (1913-1991) is part of this paradox. In Portugal, he is regularly acknowledged as an exponent of Modern Architecture, one of the few who was never captivated by any compromised architectural language. He is one of the few in the country at that period who authored an opus that since the beginning of his career is a clear sequence of projects without concessions. But he is also the architect who, after an early period of work in matters of heritage at the end of the thirties, is going to devote himself to important tasks of architectural surveying, historical buildings rehabilitation and planning of old urban sectors – first in Brazil and then in diverse and extremely scattered places throughout the world that have had the presence of the Portuguese. Coming from Portugal, the old colonial power, at the time seen as being at the opposite side of the Promised Land of the future and never-ending progress – France, England, and, since second WW, the USA, arrives in Brazil an architect who is going to occupy himself with the rehabilitation of Portuguese heritage. He starts his career in heritage as a UNESCO international consultant at the Ouro Preto historic city. He was refereed for the work he developed in the ‘old part’ of the city of Bragança, located in the Northeast of Portugal. His cooperation is going to reach the North and Northeast regions in Brazil, as he produces studies and plans for the historical cities in Maranhão, Alagoas and Sergipe. His methodological and design concerns drew attention from IPHAN, in a post Rodrigo Franco de Andrade’s era. Under the patronage of Fundação Calouste Gulbenkian he travels in study missions and heritage interventions in Rondônia and in other sites of Portuguese origin located in Asia and Africa. But Architect Viana de Lima is, contradictorily, a promoter of Modernism. He was one of Le Corbusier’s collaborators in Paris, and has belonged as an activist to the CIAMs, where the Brazilian architects of the same convictions were affiliated. Of this close association on the basis of beliefs emerges a professional and personal relationship between the Portuguese architect and Oscar Niemeyer, that would lead to the team projects of the touristic venture Pena Furada (1965), in the Algarve and to the Casino Park Hotel in Madeira (1966). The works and travels of the Portuguese architect in the other side of the Atlantic Ocean took place in an era of deep withdrawal between Portugal and Brazil, which followed this country’s independence – a phase where the circle of Portuguese influence is substituted. In opposed poles are at this time the preservation of the old and the development of the new, and this opposition is set on distinct political scenarios. While Portugal, initially closed upon itself, is going to open itself to democracy, in Brazil a political period of military governments was starting. At this point, heritage protection takes shield behind the UNESCO to strengthen the performance of the institute that is responsible for the heritage preservation in the country. It will be in this setting that the relationship between the two architects in either side of the Atlantic is going to be strengthened, taking hold in a parallel activity on heritage matters where the epitome is Lucio Costa in Brazil and Viana de Lima in Portugal.

Keywords

Como citar

RAMOS, Tânia Beisl; MATOS, Madalena Cunha. Campos opostos: trabalhos e viagens de Viana de Lima no Brasil. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO NORTE/NORDESTE, 2., 2008, Salvador. Anais [...]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE / UFBA, 2008. DOI: 10.5281/zenodo.19293369.

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Ficha catalográfica

2º Seminário Docomomo Norte/Nordeste: anais: desafios da preservação: referências da arquitetura e do urbanismo modernos no Norte e Nordeste [recurso eletrônico]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE; UFBA, 2008.