A Arquitetura Moderna em Maceió, Alagoas: perspectivas de preservação
Resumo
Este artigo tem como objetivo discutir a inserção das obras modernas de Maceió, Alagoas, nas políticas e práticas preservacionistas vigentes, sendo este trabalho parte da dissertação de mestrado intitulada “Expressões Arquitetônicas de Modernidade em Maceió: Detalhes de Identidade sob a Perspectiva da Preservação”. Supõe-se que a preservação dos exemplares modernos é ainda incipiente devido a uma falta de distanciamento histórico; o que, segundo Benjamin (1994), é de fundamental importância para que determinado objeto venha a se tornar um fato/elemento histórico. Esta assertiva justifica-se a partir da prerrogativa de Rouanet (2003) que afirma não termos ainda ultrapassado o momento histórico da modernidade, sendo talvez por isto que não se reconhece em sua totalidade, as obras modernas como elementos históricos a serem preservados. Choay (2001) afirma que com a Revolução Industrial dá-se uma ruptura no tempo, trazendo à tona discussões acerca da preservação do monumento histórico. No Brasil, as manifestações da arquitetura moderna iniciam-se na década de 1920, tornando-se forte aliada aos poderes do Estado a fim de produzir e consolidar uma identidade nacional para o país, ao mesmo tempo em que simbolizava o progresso da nação. É por este motivo que foram os intelectuais brasileiros do movimento moderno os responsáveis pela concepção e concretização de um órgão competente para a preservação do patrimônio histórico no país, o SPHAN em 1937. Amparado na política nacionalista do Estado Novo, o resgate do passado na busca da afirmação de uma identidade cultural, limitou-se à preservação dos monumentos históricos brasileiros com ascendência portuguesa colonial. Dessa forma, as obras arquitetônicas posteriores ao século XIX ficavam destituídas de valor cultural e, conseqüentemente, consideradas indignas de serem preservadas (FERRARE, 1996). É somente a partir das décadas de 1970/1980 que se iniciam discussões e reivindicações para a ampliação da noção de Patrimônio Histórico tida pela Instituição. Com efeito, muito se tem discutido a respeito da preservação de bens culturais. Desde a década de 1930, com a Carta de Atenas, houve uma evolução no pensamento preservacionista no estabelecimento de normas e procedimentos de uma maneira geral. No entanto, quando se trata de preservar a produção arquitetônica do século XX, ainda há muitas lacunas e questionamentos. Em Alagoas, como nos demais estados nordestinos, a economia canavieira resistiu por muito tempo à industrialização brasileira no início do século XX. Em Maceió, as edificações construídas no período imperial, passam a dividir espaço com as novas tecnologias que anunciavam o progresso impulsionado durante a proclamação da República. Com o avanço temporal, a população da cidade tem eventualmente seus desejos e necessidades modificadas. Os espaços devem, portanto, estar em consonância com estes novos interesses, recebendo intervenções e adequando-se às novas formas de utilização. Entretanto, uma transformação acelerada e isenta de qualquer preservação fere a identificação do indivíduo com a sua cidade e todo o sentido de memória que os seus elementos possuem. A partir do exposto, percebe-se que foi necessário um distanciamento histórico para que o estilo eclético se estabelecesse enquanto um momento da história brasileira e, com isso, adquirisse um caráter de bem cultural passível de preservação. É preciso, então, compreender qual a posição a ser tomada diante da produção arquitetônica moderna, se esta já está superada podendo ser apreendida como passado, ou, se, sua prática ainda se faz presente na atitude construtiva atual, sendo ainda constituinte do momento presente. Aliados a estes questionamentos, devemos adotar, segundo Ferrare (1996), uma política preservacionista ”aberta ao futuro” que permita a preservação de bens culturais independente de sua inserção no passado ou no presente, desde que sejam reconhecidos enquanto acervo representante de um momento histórico e impregnados de significação e de vínculos identitários para com a população.
Palavras-chave
Abstract
This article is to discuss the insertion of Maceió, AL modern buildings in preservation pratices. This papaer is part of the Masters tittled "Modernity Architectural Expressions in Maceió: Identity Details in Terms of Preservation." It is thought that the preservation of modern buildings is iniciating due to a lack of historical distance, which, according to Benjamin (1994), very important to some object become historical element. This is justified by Rouanet (2003) whom says that modernity historical moment wasn’t crossed, and maybe it is the cause that we do not recognize historical elements to be preserved in the modern production. Choay (2001) afirms that Industrial Revolution brings new questions about the preservation of the historical monument. In Brazil, the manifestations of modern architecture begins during 1920, becoming allied to the government, due to produce a national identity, symbolizing the nation’s progress. That explains why the intellectuals of the brazilians modern movement were answerable for the implementation of a institution responsible for the preservation of historical heritage in the country, the SPHAN in 1937. Based in the nationalist politics of the New Statement, the brazilian historical monuments preservation was limited to colonial portuguese descent. Thus, the architectural buildings after the nineteenth century were absent from cultural (FERRARE, 1996). It is only from 1970/1980 on that begins discussions and demands for the expansion of Heritage conception. Indeed, much has been discussed about the cultural assets preservation. Since the 1930's, with Athens Charter, there was an evolution in thinking preservacionist ideas. However, when it is about preserving the architectural production of the twentieth century, there are still many questions. In Alagoas, as in other northeastern states, the sugar cane economy resisted to industrialization at the beginning of the twentieth century. In Maceio, the buildings of the imperial period, share space with new technologies of progress propagated by the Republic proclamation. As the time pass by, the population changes their needs. Then, the cities’ spaces should be in line with these new interests, adjusting to the new forms of use. However, a accelerated transformation without preservation violates the individuals identification with their city. From the foregoing, it is realized that it has been need a historical distancing allowing that eclectic style was established as a moment of brazilian history and acquired a character of cultural likely to preservation. It is needful understanding if the modern architectural production, is exceeded or if their practice is still part of the current constructive attitude. Allied to these questions, we must adopt, according to Ferrare (1996), a preservacionist politics "open to the future" that allows the cultural assets preservation independent of its insertion in the past or the present, since they are recognized as a representative collection of a historical moment and filled up with meaning to the population.
Keywords
Como citar
AMARAL, Vanine Borges; FERRARE, Josemary Omena Passos. A Arquitetura Moderna em Maceió, Alagoas: perspectivas de preservação. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO NORTE/NORDESTE, 2., 2008, Salvador. Anais [...]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE / UFBA, 2008. DOI: 10.5281/zenodo.19293380.
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Ficha catalográfica
2º Seminário Docomomo Norte/Nordeste: anais: desafios da preservação: referências da arquitetura e do urbanismo modernos no Norte e Nordeste [recurso eletrônico]. Salvador: Núcleo Docomomo BA.SE; UFBA, 2008.

