O Nordeste na historiografia da Arquitetura Moderna nacional
Resumo
A Arquitetura Moderna do Nordeste brasileiro pouco compareceu nas histórias da arquitetura nacional. Ela foi reconhecida tardiamente pela crítica, que destacou a experiência pioneira de Luiz Nunes em Pernambuco (1934-37) e algumas experiências pontuais na Bahia. O período posterior ainda não foi devidamente reconhecido como relevante para o contexto nacional. É certo que, já em 1943, o Nordeste (Pernambuco, Bahia e Ceará) compareciam nas obras documentadas na exposição Brazil Builds através dos frutos da experiência da Diretoria de Arquitetura e Urbanismo em Pernambuco- a Caixa d’água de Olinda, de Luiz Nunes e Fernando Saturnino de Britto, o Pavilhão de Verificação de Óbitos, de Luiz Nunes, a Residência Arthur Moura, de José Norberto da Silva, a Recebedoria de Rendas (Palácio da Fazenda), de Fernando Saturnino de Britto-, além de duas obras em Salvador - Escola Normal e Sanatório de Tuberculose Santa Terezinha- e um projeto de Oscar Niemeyer em Fortaleza (GOODWIN, 1943). Essas referências são praticamente exceções, pois, além desses exemplares, poucas publicações, inclusive o livro de Bruand (1981), reconhecem os méritos dessa produção. Por exemplo, a coletânea Modern Architecture in Brazil (1956) de Henrique Mindlin traz poucos exemplares significativos do Nordeste brasileiro: estão presentes a Casa de João Paulo Miranda Neto (1953), de Lygia Fernandes, em Maceió, Alagoas; o Edifício Caramuru (1946) e o Edifício Sede do Banco da Bahia (1954), ambos de Paulo Antunes Ribeiro, o Hotel da Bahia (1951), de Paulo Antunes Ribeiro e Diógenes Rebouças, e o Teatro Castro Alves, de José Bina Fonyat Filho, todos em Salvador. À exceção do Castelo d´água de Olinda, do Esboço do Jardim da Praça Arthur Oscar (1936) e do Jardim da Capela da Jaqueira (1954), ambos de Roberto Burle Marx, bem como o City Bank do próprio Henrique E. Mindlin, no Recife, o Estado de Pernambuco está quase ausente do livro de Mindlin (MINDLIN, 1956). Destaca os estados da Bahia e de Pernambuco, demais estados do Nordeste brasileiro estiveram quase ausentes na coletânea de Yves Bruand (1981), que foi considerado por Segawa o autor da mais completa obra sobre arquitetura moderna brasileira até o momento (1998). "Brasil: arquiteturas após 1950" (Bastos e Zein, 2011) cujo "precedente notável é(... ) Arquitetura Contemporânea no Brasil (Bruand,1981), tece um panorama histórico da arquitetura no Brasil ao longo da primeira metade do século XX" é (...) "um outro trabalho panorâmico que acompanha os acontecimentos da arquitetura moderna brasileira até o final do século XX". As autoras reafirmam a trama de Bruand, no sentido da existência de um centro principal, o Rio de Janeiro, que fora substituído por Brasília a partir de 1960, que a partir de então, com a ascensão de São Paulo, domina o caminho principal da narrativa. As autoras mencionam a contribuição de Acácio Gil Borsoi e Delfim Amorim, pontuam obras do Nordeste: Cajueiro Seco, Parque dos Guararapes, Fórum Judiciário de Teresina, Hotel Tambaú, João Pessoa, obras de J. Filgueiras, Lina Bo Bardi e Assis Reis em Salvador, Caraíbas no sertão baiano - uma tentativa de preencher lacunas, como é o caso dos discursos historiográficos contemporâneos, porém o Nordeste permanece periférico, quando não ignorado - a pior forma de exclusão segundo Waisman (2013) referindo-se a produção latino-americana em relação à historiografia internacional. Lara (2012) na busca de novas narrativas historiográficas para os países da América Latina entre si e em relação à Europa e América do Norte, propõe entender as suas cartografias imprecisas, sem dúvida uma boa alternativa para a historiografia do Nordeste brasileiro.
Palavras-chave
Abstract
Brazilian northeast modern architecture scarcely comes into sight at national architectural histories. Lately Luiz Nunes experience in Pernambuco (1934-37) and a few specific experiences in Bahia were pointed by critics as relevant. This period hasn´t yet been recognized as relevant to the national milieu. In 1943, the Northeast (Pernambuco, Bahia and Ceará states) attended the documented works on display through Brazil Builds exhibition. In Pernambuco state it was a result of the experience of Architecture and Urbanism Board in PernambucoOlinda´s Water Tower by Luiz Nunes and Fernando Saturnino de Britto, Anatomical Laboratory by Luiz Nunes and Moura House by José Norberto da Silva, Ministry of Finance by Fernando Saturnino de Britto-, and also two buildings in Salvador - Normal School and Santa Terezinha Tuberculosis Sanitarium - and Johnson House by Oscar Niemeyer in Fortaleza (Goodwin, 1943). These references are practically exceptions. Beyond these examples a few publications, including Bruand (1981), recognized the merits of this works. At Modern Architecture in Brazil (1956), Henry Mindlin included few significant works from Brazilian Northeast architecture: João Paulo Miranda Neto House (1953) by Lygia Fernandes, in Maceió, Alagoas; Caramuru Building (1946) and Bahia Bank Building (1954), both by Paulo Antunes Ribeiro, Bahia Hotel (1951) by Paulo Antunes Ribeiro and Diogenes Rebouças, Castro Alves Theatre by José Bina Fonyat, in Salvador; Olinda´s Water tower, Arthur Oscar Square (1936) and Jaqueira Chapel Garden (1954), both by Roberto Burle Marx, apart from City Bank's Building by his own (Henrique E. Mindlin), in Recife, modern architecture from Pernambuco is almost absent from Mindlin´s book (1956). Despite of highlighting Bahia and Pernambuco, other states were almost absent from Yves Bruand (1981) - which was considered by Segawa (1998) the most complete work on Brazilian modern architecture. Brasil: arquiteturas após 1950 (Bastos and Zein, 2011) whose "the remarkable precedent is (...)Contemporary Architecture in Brazil (Bruand, 1981)" is "another panoramic work that accompany the events of modern Brazilian architecture until the late twentieth century". The authors reaffirm Bruand's plot, suggesting the existence of a major center, Rio de Janeiro, which was replaced by Brasília from 1960, which since then, also with São Paulo rise, dominates the main path of the narrative. And mentioned Acacio Gil Borsoi and Delfim Amorim contributions and some other Northeast architecture works: Cajueiro Seco, Guararapes' Park, Judicial Forum in Teresina, Tambaú Hotel in Joao Pessoa, some works by João Filgueiras, Lina Bo Bardi and Assis Reis in Salvador, Caraíbas in Bahia's hinterland - an attempt to fill the gaps, such as contemporary historiography discourses. Northeast modern architecture still remains peripheral, if not ignored - the worst form of exclusion as pointed Waisman (2013) concerning to Latin American modern architecture in relation to international historiography. Lara (2012), in search of a new historiography narrative for Latin American countries themselves and in relation to Europe and North America, proposes to understand its imprecise cartographies, certainly a good alternative for Brazilian Northeast historiography.
Keywords
Como citar
NASLAVSKY, Guilah. O Nordeste na historiografia da Arquitetura Moderna nacional. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO NORTE/NORDESTE, 5., 2014, Fortaleza. Anais [...]. Fortaleza: Núcleo Docomomo Ceará / UFC, 2014. DOI: 10.5281/zenodo.19293927.
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Ficha catalográfica
5º Seminário Docomomo Norte/Nordeste: anais: projeto, obra, uso e memória — a intervenção no patrimônio arquitetônico modernista [recurso eletrônico]. Fortaleza: Núcleo Docomomo Ceará; UFC, 2014.

