Experiências em concreto armado na África Portuguesa: influências do Brasil
Resumo
Existe uma proximidade entre a cultura moderna brasileira e Portugal que pode ser identificada através das influências sentidas na produção arquitectónica portuguesa. É possível enumerar casos de estudo que provam as afinidades existentes durante o século XX e que se reflectiram num entendimento muito particular do Movimento Moderno e da sua progressão num contexto de afirmação pela “localidade”. Genericamente, estas relações iniciaram-se com Brazil Builds – Architecture New and Old 1652-1942, que os portugueses conhecem desde meados da década de quarenta, progredindo até à inauguração de Brasília que marca o declínio do interesse português na arquitectura do Brasil. Manifestam-se todavia, em caso muito particulares, após o fecho da cronologia moderna – como prova o Edifício Sede da Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre de Álvaro Siza, obra já do século XXI. As qualidades plásticas da arquitectura brasileira – consequência do uso e exploração das potencialidades do concreto armado – podem ser detectadas em alguns exemplos construídos em Portugal durante os anos cinquenta. A influência determinante de Oscar Niemeyer é a mais documentada. Niemeyer chegou mesmo a construir em território português – na ilha da Madeira – o Hotel-Casino do Funchal, obra dos anos sessenta inaugurada após a Revolução de 1974. Nunca visitou a ilha e o desenvolvimento do projecto deveu-se a Alfredo Viana de Lima, arquitecto portuense grande admirador de Le Corbusier, que chegaria a realizar outros projectos em co-autoria com o arquitecto carioca, mas que não se concretizariam. Um fenómeno semelhante de influências estendeu-se aos antigos territórios coloniais africanos, onde Portugal manteve soberania até 1975. Aqui, todavia, o interesse na produção brasileira persistiu mais tempo se comparado com a metrópole. Tanto em Angola como em Moçambique assistiu-se a uma forte actividade construtiva durante as décadas de cinquenta/sessenta, prolongando-se até ao inicio dos anos setenta onde o recurso ao concreto armado se intensificou como prática dominante. Em alguns casos o seu uso traduziu-se em explorações plásticas originais. O exercício da arquitectura nos antigos territórios da África portuguesa beneficiava de alguma liberdade conceptual e, na generalidade, a qualidade do operariado não se diferenciava daquele que trabalhava no Portugal Ibérico. Dentro do contexto descrito serão aqui apresentados três casos de arquitectos com obra relevante em Angola e Moçambique, que construíram em concreto e, simultaneamente, tiveram ou manifestaram afinidades com a arquitectura brasileira do mesmo período. Em Angola, recorda-se o percurso de Francisco Castro Rodrigues, no Lubito entre 1953 e 1987, e de Fernão Lopes Simões de Carvalho, autor do Plano Director de Luanda, onde permaneceu de 1960 a 67. Em Lourenço Marques (actual Maputo), encontrava-se Amâncio d'Alpoim Miranda Guedes, conhecido por Pancho Guedes, que manteve uma actividade profissional entre 1951 e a data da independência da antiga colónia portuguesa, fixando-se em seguida na África do Sul. Tratando-se de uma área de investigação ainda pouco aprofundada, esta primeira aproximação apoia-se preferencialmente nos testemunhos destes três arquitectos, os primeiros, actualmente a viverem em Portugal e o último entre Lisboa e a África do Sul.
Palavras-chave
Abstract
There is a proximity between modern Brazilian culture and Portugal that is identifiable in the influences of the former on Portuguese architectural output. It is possible to list study cases that th document the affinities that existed during the 20 century. These are reflected in a very particular understanding of the Modern Movement and its progression in a context of affirmation of “locality”. Generally speaking, the relationship began with Brazil Builds – Architecture New and Old 1652-1942, with which the Portuguese became acquainted from the 1940s onwards. It progressed until the inauguration of the new capital Brasilia, which marked the beginning of a decline in Portuguese interest in the architecture of Brazil. However, in very specific cases the relationship continues to manifest itself after the end of the modern period – as embodied by Álvaro Siza’s building for the Iberê Camargo Foundation in Porto Alegre, which is a work of the 21st century. The sculptural qualities of Brazilian architecture – a result of the exploitation and use of the potentials of reinforced concrete – can be identified in some examples built in Portugal in the 1950s. The decisive influence of Oscar Niemeyer is the most documented. Niemeyer even built a project in Portugal – the Funchal Hotel Casino on the island of Madeira – which was designed in the 1960s and opened after the revolution of 1974. He never visited the island and the project’s development was very much due to Alfredo Viana de Lima, an architect from Porto who was a great admirer of Le Corbusier and who was to go on to co-design a number of other projects with the architect from Rio which were never built. A similar phenomenon in terms of influences extended to the former colonies in Africa, which remained under Portuguese control until 1975. Here, however, the interest in Brazilian output persisted longer than in Portugal. Both Angola and Mozambique experienced something of a construction boom during the 1950s and 60s and extending into the 70s, where the use of reinforced concrete gradually established itself as the dominant practice. In some cases, the use of this material produced some highly original sculptural creations. The practice of architecture in the former Portuguese colonies in Africa benefited form a certain degree of conceptual freedom and, in general terms, the quality of workmanship was no different to that in Portugal itself. In the aforementioned context I will present three cases of architects with a relevant body of work in Angola and Mozambique who built in concrete and, at the same time, had or showed affinities with Brazilian architecture of the same period. In Angola, I will be highlighting the career of Francisco Castro Rodrigues, in Lubito from 1953 to 1987, and Fernão Lopes Simões de Carvalho, who designed the Master Development Plan for Lourenço Marques (now Maputo), where he lived from 1960 to 1967. And in Lourenço Marques, Mozambique I will look at the work of Amâncio d'Alpoim Miranda Guedes, who was known as Pancho Guedes and who worked in the city from 1951 to the year of independence from Portugal, when he moved to South Africa. Given that this is an area in which little research has yet been done, this first approach is based primarily on accounts by the three architects, the first two are now living in Portugal and the last one between Lisbon and South Africa.
Keywords
Como citar
MILHEIRO, Ana Cristina Fernandes Vaz. Experiências em concreto armado na África Portuguesa: influências do Brasil. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 2., 2008, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2008. ISBN 978-85-60188-09-3. DOI: 10.5281/zenodo.19290883.
Referências
- ALBUQUERQUE, António Manuel da Silva e Souza. Arquitectura Moderna em Moçambique, inquérito à produção arquitectónica em Moçambique nos últimos vinte e cinco anos do império colonial português 1949-1974, Coimbra Prova Final, Departamento de Arquitectura FCTUC, 1998
- CÂMARA MUNICIPAL DO LOBITO. Relatório da Actividade Municipal no Triénio de 1961 – 1962 – 1963, Câmara Municipal do Lobito.
- CASTELO, Cláudia. «O Modo Português de Estar no Mundo», o luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961), Porto: Edições Afrontamento, 1998
- Exposição da Arquitectura Moderna Brasileira, Sociedade Cultural de Angola (1960)
- FERNANDES, José Manuel. Geração Africana – Arquitectura e Cidades em Angola e Moçambique, 1925-1975, Lisboa: Livros Horizonte, 2002
- FONTE, Maria Manuela Afonso de. Urbanismo e Arquitectura em Angola – de Norton de Matos à Revolução, Dissertação para Doutoramento em Planeamento Urbanístico, Lisboa: Faculdade de Arquitectura da Universidade Tecnica de Lisboa, 2007
- GOODWIN, Philip L., SMITH, G.E. Kidder. Brazil Builds – Architecture New and Old 1652-1942. New York: The Museum of Modern Art, 1943.
- GUEDES, Pancho. Manifestos Ensaios Falas Publicações, Lisboa: Ordem dos Arquitectos, 2007.
- GUEDES, Amâncio (Pancho); JACINTO, Ricardo. Lisboscópio, Representação Oficial Portuguesa na 10ª Exposição Internacional de Arquitectura – Bienal de Veneza, Lisboa: Instituto das Artes, 2006
- KULTERMANN, Udo. New Architecture in Africa, London: Thames and Hundson, 1963
- LÉONARD, Yves. Salazarismo e Fascismo, Lisboa: Editorial Inquérito, 1998, 1996
- MILHEIRO, Ana Vaz. A Construção do Brasil – Relações com a Cultura Arquitectónica Portuguesa. Porto: FAUP Publicações, 2005
- MILHEIRO, Ana Vaz. “O Brasil Moderno e a sua influência na Arquitectura Portuguesa: a Tradição em Brazil Builds (1943) e o seu reflexo no Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal (1955-1961)”, In MOREIRA, Fernando Diniz, Arquitectura Moderna no Norte e Nordeste do Brasil: universalidade e diversidade, Recife: DOCOMOMO, PE, 2007, pp. 107-128
- MORAIS, João Sousa. Maputo, Património da Estrutura e Forma Urbana, Topologia do Lugar. Lisboa: Livros Horizonte, 2001
- NOBREGA, José Manuel da. “Ora se me dão licença…”, Notícia, Publicação Semanal, nº483, 08/03/1969, Luanda/Lisboa, pp. 14-19
- OGURA, Nobuyuki. “Ernest May and Modern Architecture in East Africa”, ArchiAfrika Conference Proceedings: Modern Architecture in East Africa around Independence (Dar es Salaam, Tanzania, July 27-29, 2005), pp. 81-88 ( <http://archnet.org/library/documents/one-> document.jsp?document_id=9952)
- PEREIRA, Nuno Teotónio. Escritos. Porto: FAUP Publicações, 1996.
- PIMENTA, João. “De servente a industrial da construção civil”, Entrevista a João Pimenta, O Mirante, 29/11/2006 <http://dossiers.omirante.pt/noticia_dos.asp?idgrupo=93&IdEdicao=263&idSeccao=3659&id=302> 94&Action=noticia
- RIBEIRO, Ana Isabel de Melo. Arquitectos Portugueses: 90 anos de vida associativa 1863- 1953, Porto: FAUP Publicações, 2002
- RODRIGUES, Francisco Castro. “A Arquitectura Moderna Brasileira”, Palestra proferida pelo Senhor Arquitecto Francisco Castro Rodrigues, no dia 13 de Junho de 1961, integrada na Jornada Luso-Brasileira levada a efeito de colaboração com o Núcleo de Estudos Angolano- Brasileiros, na Cidade do Lobito [texto policopiado]
- RODRIGUES, Francisco Castro. “O Betão Nú e o Lobito”, Divulgação – Boletim da Câmara Municipal do Lobito, primeiro semestre, 1964, pp.3-9
- RODRIGUES, Francisco Castro. “Planificação para um Museu no Lobito”, Divulgação – Boletim da Câmara Municipal do Lobito, primeiro e segundo semestres, 1966, pp.3-7
- RODRIGUES, Francisco Castro. CV, Azenhas do Mar: 2001 [texto policopiado, recortes e manuscritos]
- ROSAS, Fernando. Portugal entre a Paz e a Guerra 1939-1945, Lisboa: Editorial estampa, 1995
- SALVADOR, Cristina, RODRIGUES, Cristina Udelsmann. “Utilizações coloniais e pós-coloniais das cidades: arquitectura em Angola (Luanda, Benguela e Lobito)”. IX Congresso Luso-Afro- Brasileiro de Ciências Sociais, Dinâmicas, Mudanças e Desenvolvimento no Século XXI, Luanda, 28, 29 e 30 de Novembro, 2006 [texto policopiado]
- SANTIAGO, Miguel. Pancho Guedes, Metamorfoses Espaciais, Lisboa: Caleidoscópio, 2007
- SIMÕES, João. “A Profissão de Arquitecto nas Colónias”, in: Sindicato nacional dos Arquitectos, Actas do I Congresso de Arquitectura, Lisboa: SNA, 1948, pp. 147-150
- SOUSA, Pedro Miguel. O Colonialismo de Salazar, Lisboa: Occidentalis, 2008
- TOSTÕES, Ana. Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50, Porto: FAUP Publicações, 1997
- Recolheram-se os testemunhos dos três arquitectos citados: Pancho Guedes (07/12/2007 e 18/06/2008), Fernão Lopes Simões de Carvalho (08/06/2008 e 23/06/2008) e Francisco Castro Rodrigues (17/06/2008, 26/06/2008 e 10/07/2008).
Ficha catalográfica
2º Seminário Docomomo Sul: anais: concreto: plasticidade e industrialização na arquitetura do cone sul americano, 1930/70 [recurso eletrônico] / organização: Carlos Eduardo Comas, Edson Mahfuz, Airton Cattani. Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2008. 1 CD-ROM. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-2o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-60188-09-3

