Madeira como material de projeto no Brasil moderno
Resumo
Presente nos muxarabis, nos assoalhos, nas estruturas de telhados, nas fôrmas das taipas de pilão e das estruturas de concreto armado, a madeira no Brasil raras vezes ocupou o papel de estrutura ou vedação. Quando o fez, nas casas de tábuas e mata-juntas ou na produção de alguns arquitetos, não chegou a constituir uma mudança de paradigma. A gênese do projeto de sistemas e edificações de madeira contém especificidades que o diferenciam dos projetos de edifícios de alvenaria e concreto. A tectônica, ou seja, sua articulação e dissociação em partes, sua aptidão à pré-fabricação e montagem a seco, sua organicidade, condição de um material heterogêneo por natureza, ficaram à margem do discurso racionalista. O presente trabalho faz reflexões sobre o uso da madeira na produção modernista, no final da primeira metade e início da segunda metade do século XX. Para isso, traçam-se alguns paralelos entre a produção de arquitetos nos Estados Unidos, França e Brasil. Como antecipação de seu reference frames on space, Rudolf M. Schindler concebeu em 1921 a Casa Schindler-Chace, na Califórnia, dentro de uma matriz espacial, através de montantes e vigas de madeira maciça, tábuas de cobertura plana revestidas com linóleo. O sistema era representado em duas pranchas: contendo um corte e detalhes que sintetizavam uma lógica construtiva, passível de ser compreendida e multiplicada. Três décadas mais tarde, em 1951, Le Corbusier projetou uma cabana em Cap Martin, na Riviera Francesa, talhada pelo Modulor e detentora da dualidade: aparente rusticidade e realidade tecnológica – paredes de painéis metal/madeira, internamente revestidos com chapas de compensado e externamente por troncos roliços. O programa das Case Study Houses, concebidas no período pós-segunda Guerra Mundial, como protótipos modernos experimentais de baixo custo, incluía um número considerável de casas de estrutura de madeira, como as de Richard Neutra. Menos emblemáticas que as Case Study Houses de estrutura de aço, aqueles projetos utilizavam seções modulares padronizadas, e foram igualmente concebidos como protótipos para a produção em massa. Essas soluções apresentavam a madeira como estrutura e vedações horizontais e verticais, mas, mais do que isso, constituíram tentativas de instituir uma mudança da lógica construtiva vigente. No Brasil, o legado de uma colonização portuguesa personificado pelas cantarias de pedra, alvenarias e taipas, frutificou em uma arquitetura que não fez uso da madeira em sua acepção mais fecunda, de material apto a ser industrializado e utilizado através de uma lógica construtiva que pressupõe esquemas de modulação. Constituem exceção as casas de tabuas e mata-juntas, que na primeira metade do século XX foram construídas em Londrina, Curitiba, São Mateus do Sul ou Antônio Prado, com um sistema linear, modulado e eficiente. Obras como o Park Hotel São Clemente (1944), de Lúcio Costa, a casa de Fim de Semana (1949) de Carlos Frederico Ferreira em Nova Friburgo, a casa de campo do embaixador Accioly (1950) de Francisco Bolonha – mantiveram um traço inconfundível de brasilidade, referenciando-se à arquitetura popular e, concomitantemente, aos pressupostos modernistas. O Catetinho, RP1 (Residência Presidencial 1), de Oscar Niemeyer, uma edificação elevada sobre pilotis de madeira beneficiada de seção quadrada, modulada e construída de 21 a 31 de outubro de 1956, cujo caráter provisório, evidenciado pela escolha da madeira como estrutura e vedação, faz dela um exemplo adequado para esta investigação. Na produção desses arquitetos, as partes pesadas ou esteriotômicas, construídas de pedra, taipa, concreto ou tijolos, e as partes leves ou tectônicas, constituídas por um arranjo entre pilares e vigas de madeira, vedados e contra-ventados por tábuas, estabeleceram um equilíbrio dinâmico do construído articulado a complexas estruturas visuais.
Palavras-chave
Abstract
Present in mousharabie screens, floors and roofing structures, molds for rammed earth prepared with ramming poles and reinforced concrete frames, wood was seldom used in Brazil as a structural or enclosure element. On the rare occasions when wood was present, it was only in board-and-batten sidings or in some architectural designs, which was never enough to lead to a paradigm shift. The initial design specificities of wood systems and buildings differ from those of brick-and-mortar or concrete buildings. Aspects like tectonics, i.e. how components are joint or disjoint, suitability to pre-fabrication and dry assembly, organicity and natural heterogeniety were left out of the rationalist discourse. This paper investigates the use of wood in modernist architecture in the late first half and early second half of the 20th century by comparing the production of U.S., French and Brazilian architects. Anticipating his reference frames on space, Rudolf M. Schindler designed the Schindler-Chace House in California in 1921 using a special matrix of solid wood posts and beams and flat linoleumcovered siding boards. The layout was shown in two plans: one with the cross-section and the other with details that summarized a constructive concept which could be understood and replicated. Three decades later, in 1951, Le Corbusier designed a cabin in Cap Martin, in the French Riviera, scaled according to the “Le Modulor” and marked by the duality between its apparent rusticity and technological features, namely with metal/wood walls covered with plywood boards on the inside and logs on the outside. The Case Study Houses program developed after World War II to showcase modern low-cost experiments included a considerable number of wood structures as those designed by Richard Neutra. Though less emblematic than the steel-framed houses which were part of the project, the wood houses were based on standardized modules also conceived as prototypes suitable to mass production. These solutions employed wood both in the structure and in horizontal and vertical enclosure components in a clear attempt to change the then prevailing construction concepts. In Brazil, the legacy left by Portuguese settlers in stonemasonry, brickwork and rammed earth constructions disseminated an architectural tradition that failed to employ wood to its fullest potential as a material suited to industrialization and used in modular construction schemes. Exceptions to this rule are the board-and-batten houses built in the first half of the 20th century in Londrina, Curitiba, São Mateus do Sul or Antonio Prado using an efficient modular linear system. Buildings like Park Hotel São Clemente (1944) designed by architect Lucio Costa; the weekend house (1949) by Carlos Frederico Ferreira in Nova Friburgo, and ambassador’s Accioly country house (1950) by Francisco Bolonha all display unmistakably Brazilian characteristics referenced on popular architecture while adopting, at the same time, modernist influences. The Catetinho RP1 (Presidential Residence 1) by Oscar Niemeyer, an elevated house supported by pilotis made of modular square sections of sawn wood, was built between October 21st and October 31st, 1956 and, due to its provisional character -- evidenced by the choice of wood as a structural and enclosure element -- serves as an adequate example for this investigation. In the work of these architects, heavy or stereotomic components made of rock, rammed earth, concrete or bricks, and light or tectonic components consisting of wood posts and beams with internal and external board walling create a dynamic balance which integrates the construction itself with complex visual structures.
Keywords
Como citar
BERRIEL, Andrea. Madeira como material de projeto no Brasil moderno. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 3., 2010, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2010. ISBN 978-85-60188-11-6. DOI: 10.5281/zenodo.19291043.
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Ficha catalográfica
3º Seminário Docomomo Sul: anais: madeira: primitivismo e inovação na arquitetura moderna do cone sul americano, 1930-1970 [recurso eletrônico] / organização: Carlos Eduardo Comas, Edson Mahfuz, Airton Cattani, Sérgio Marques. Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2010. 1 CD-ROM. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-3o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-60188-11-6

