O Vivaldão e o Chapéu de Palha: a arena decorada e a oca civilizada
Resumo
“Construí uma casa de madeira junto de um igarapé; na época não era costume, apenas as pessoas do povo moravam assim” . “Estava feito o pacto do homem e do arquiteto, com os povos da floresta.” Este trabalho tem como objetivo refletir sobre o uso da madeira na arquitetura moderna brasileira do período 1930-70, a partir de dois projetos de Severiano Porto que representam duas maneiras genéricas de utilização do material: como vedação e como estrutura. O arquiteto mineiro, formado em 1954 na UFRJ, passa a viver e construir na Amazônia a partir da década de 1960. De 1965 a 1989, atua como propagador do modernismo naquelas latitudes, desenvolvendo uma vertente da arquitetura moderna brasileira definida por Sérgio Hespanha como “arquitetura brasileira de feição regionalizada” na qual as estratégias da escola carioca se transfiguram de acordo com o clima, a geografia e a tradição vernacular amazonense. O Estádio Vivaldo Lima, em Manaus, projetado em 1965, conhecido popularmente com o “vivaldão” ou “tartarugão”, ganhou menção honrosa do IAB, em 1965. Localiza-se no limite entre cidade e selva e sua concepção promove junções tão divergentes como essa: o uso simultâneo do concreto armado e madeira representam a fronteira e a articulação entre a modernidade e a tradição. A arena de concreto armado semi-enterrada se constrói como materialização, tanto do perímetro do campo de futebol, quanto desse dado geográfico. Sobre a mesma, estão dispostos os elementos modulados de madeira: as caixinhas com vedações coloridas correspondentes às cabines de imprensa, protegidas por uma cobertura em forma de lua crescente outorgam identidade ao conjunto. Parafraseando Venturi, o Vivaldão tem status de uma arena decorada. (Fig. 1) O Restaurante Chapéu de Palha, projetado e premiado pelo IAB-RJ em 1967, “afirma a brasilidade da arquitetura do autor em um tempo em que se multiplicam construções anônimas” e pode ser descrito como uma oca civilizada, pois sua forma alia estratégias modernistas aos princípios estruturais e aos materiais da oca indígena da região amazônica: uma estrutura de madeira coberta com palha. (Fig. 2) Infelizmente, a reflexão sobre estas duas obras são como homenagens póstumas: o restaurante, do famoso filé com fritas virou um posto de gasolina; e o estádio inaugurado em 5 de abril de 1970 com jogo da seleção brasileira será demolido, cedendo lugar à Arena da Amazônia, um projeto que atende aos complexos requerimentos da FIFA para a Copa de 2014. Entretanto, ambos são eternos para a história da arquitetura e adquirem relevância em tempos de preocupações ecológicas. Caracterizam a tecnologia inovativa do autor e ilustram as duas potencialidades principais da madeira: as cabines do Vivaldão representam a sua capacidade de regra e sistema de forma análoga à obra metálica de Mies; o restaurante, a sua “condição orgânica carregada de conotações naturalistas”, ligada às origens da arquitetura.
Palavras-chave
Abstract
“I built a wooden hut by a little river where only simple people lived”6. “A pact between architect and the man was stablished in the wilds.”7 This work inteds to reflect over the use of wood in the modern architecture (1930-1970) through the Severiano Porto’s two projects that represents two issues: walls and structures. The architect graduated by UFRJ in 1954, moved to Amazonia in 1960. From 1965 to 1989 he worked to spread modernism on those latitudes, developing a new branch of brazilian modern architecture defined by Sergio Hespanha as “a regional brazilian architecture”8, with the Cariocan School adapting it to climate, geography and the amazonic tradition. The Vivaldo Lima Stadium, in Manaus, known as “the Vivaldão or “Big turtle”, was projected in 1965. Localized between the city and the jungle, its conception promoting different junctions, simultanious use of reinforced concrete and wood, representing the boundary and the articulation between modernity and tradition. The arena of reinforced concrete, partially interred is built on either a football court and a geographical issue. Over them the wooden modular elements are put up: the little boxes of coloured curtain walls of the press cabines, protected by a crescent moon shaped cover creating identity to the whole. Paraphrasing Venturi, the Vivaldão keeps the status of “decorated arena”. (Fig.1) The “Straw Hat Restaurant”, projected and prized by IAB-RJ in 1967, “afirms the brazilian architecture of the author in time when anonymous constructions are being multiplyed”9 and can be described as a “civilized hut”10, its form allying modern strategies to the structural principles and the indian hut materials of the amazonic region: a wooden structure covered with straw. (Fig.2) Unfortunatly, these are posthumous homage: the restaurant with the famous “meat and french fried potatoes” changed to a gas post; the stadium giving place to the Amazonic Arena, a project required by FIFA to the 2014 World Cup. Neverthless, both projects grow in importance throug the time due to the echological concern. They show the author’s innovative technology and illustrate two potentialities of the wood: the Vivaldão press cabine’s represent the possibility of using the same rules and system of Mies as to his metalic work; the restaurant and its organic condition filled with naturalistic connotations.
Keywords
Como citar
MACHADO, Andréa Soler. O Vivaldão e o Chapéu de Palha: a arena decorada e a oca civilizada. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 3., 2010, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2010. ISBN 978-85-60188-11-6. DOI: 10.5281/zenodo.19291053.
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Ficha catalográfica
3º Seminário Docomomo Sul: anais: madeira: primitivismo e inovação na arquitetura moderna do cone sul americano, 1930-1970 [recurso eletrônico] / organização: Carlos Eduardo Comas, Edson Mahfuz, Airton Cattani, Sérgio Marques. Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2010. 1 CD-ROM. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-3o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-60188-11-6

