Ordens tectônicas no Palácio do Congresso Nacional
Resumo
Este trabalho faz parte do conjunto de pesquisas realizado no âmbito do Plano de Documentação e Conservação da Câmara dos Deputados, levado a cabo pelos arquitetos de seu Departamento Técnico, com vistas a subsidiar ações de preservação do Palácio do Congresso Nacional e seus anexos. Ordem tectônica, etimologicamente, diz respeito não à construção de edifícios no sentido lato. Trata-se de uma ordem carpinteira específica, de supostos templos originais de madeira que constituiriam os arquétipos das ordens clássicas greco-romanas, relacionando a idéia de ordem arquitetônica à concepção estrutural e plástica das edificações. Fazem parte desta linhagem não apenas os chamados racionalistas clássicos do século XIX, como Auguste Choisy, como também arquitetos-pensadores como Auguste Perret e Mies van der Rohe. No Brasil, o momento mais significativo rumo a uma leitura moderna desta corrente de pensamento talvez tenha ocorrido nos palácios de Brasília, da década de 1950. O caso particular do Palácio do Congresso Nacional apresenta especial interesse nesse sentido, pois é composto de ao menos três estratégias estruturais independentes, mas ao fim e ao cabo relacionadas justamente por uma matriz tectônica – ou carpinteira – comum, que ao mesmo tempo constituem vivos retratos do estágio de desenvolvimento tecnológico de nosso país em meados do século XX. Primeiramente, temos as torres anexas, executadas com pilares e vigas de aço importadas dos Estados Unidos e montadas pela mão-de-obra local. Se a estrutura – conceitualmente próxima à estrutura de madeira tradicional – não é aparente na fachada, a ordem da caixilharia reflete as estritas ordenação e modulação internas. Na base horizontal, por outro lado, o generoso módulo estrutural de 10mX15m entre pilares de seção elíptica está aparente interna e externamente numa grande colunata de 200m de extensão, ordenando o edifício de modo claro. As cúpulas de dupla curvatura, lisas e sem estrutura marcada, aparentam fugir a esta ordem estruturante. Mas o estudo das fotos e desenhos da fôrmas de madeira construídas para sua execução pela Companhia Construtora Nacional revela-nos que mesmo estas formas puras tiveram por base uma estrita comensurabilidade, uma ordem carpinteira original, por assim dizer, que nos revela novos significados e novas leituras possíveis.
Palavras-chave
Como citar
MACEDO, Danilo Matoso; SILVA, Elcio Gomes da. Ordens tectônicas no Palácio do Congresso Nacional. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 3., 2010, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2010. ISBN 978-85-60188-11-6. DOI: 10.5281/zenodo.19291158.
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Ficha catalográfica
3º Seminário Docomomo Sul: anais: madeira: primitivismo e inovação na arquitetura moderna do cone sul americano, 1930-1970 [recurso eletrônico] / organização: Carlos Eduardo Comas, Edson Mahfuz, Airton Cattani, Sérgio Marques. Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2010. 1 CD-ROM. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-3o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-60188-11-6

