Madeiras horizontais

Capa dos anais

3º Seminário Docomomo Sul, Porto Alegre, 2010

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19291242

Resumo

A exploração da araucária (araucaria angustifolia), encontrada em extensões vastas e homogêneas do sul de Minas Gerais ao norte do Rio Grande do Sul, determinou um ciclo econômico que vai de 1900 a 1950. Determinou também um tipo característico de construção: a casa de araucária. Isso se depreende da historiografia tradicional que, nostalgicamente, assimila esta arquitetura às etnias regionalmente dominantes. O estudo aqui apresentado traz um conjunto de obras produzidas no início do século XX nos Estados do Paraná e Santa Catarina, reconhecidas como patrimônio histórico, mas, até então, entendidas como excepcionais, únicas e isoladas. Esses edifícios são construídos inteiramente com tábuas de madeira; um material característico do processo industrial de transformação da natureza. Abordam questões chaves do discurso da modernidade na arquitetura: a racionalização e padronização de materiais e métodos, o projeto como ferramenta não histórica e como expressão de uma lógica produtiva, a técnica como ética. Figuram a classe e a posição social de seus proprietários; opõem-se ao vernáculo e à tradição acadêmica. Estabelecem um código de gosto, de conforto e de modernidade. Ao contrario da tradicional casa de araucária que utiliza tábuas e sarrafos na vertical como fechamento de uma estrutura que determina as arestas do volume construído, os edifícios aqui estudados apresentam tábuas dispostas horizontalmente como seu fechamento externo. A estrutura do edifício (balloon-frame) fica entre este fechamento externo de tábuas horizontais e o interno. Esse modo de construir é característico do processo industrial norte-americano que une serrarias e ferrovias na penetração e colonização do território. Os edifícios aqui abordados - aqueles de madeira na horizontal, diretamente relacionados aos “senhores das serrarias” - e os destinados à morada dos trabalhadores, aos galpões e ao comércio (aqueles de madeira na vertical) compartilham uma origem comum: o processo industrial de desdobramento da madeira desenvolvido na América do Norte no século XIX. Racionalidade construtiva; coerência entre forma, método e material; reprodutibilidade e padronização; impessoalidade, supressão do ornamento; valorização da tecnologia; estas são algumas características que unem essas construções de madeira e as colocam no processo historiográfico de construção da modernidade arquitetônica.

Palavras-chave

Abstract

The exploration of the Araucária (araucaria angustifolia), a tree commonly found in vast regions from Southern Minas Gerais to Northern Rio Grande do Sul, determined a particular economical cycle that goes from the 1900s to the 1950s. It also determined a typical construction style: the house made of Araucária. These two observations are extrapolated from traditional historiography, which nostalgically associate this architecture to regionally dominant ethnic groups. This study focuses on a group of buildings produced at the beginning of the 20th Century in the states of Paraná and Santa Catarina. Although these constructions are recognized as historical heritage, they are understood as exceptional, unique, and isolated events. These buildings are entirely made of lumber - signaling the transformation of nature through an industrial process. This study exams key questions regarding architecture’s modernity discourse: the rational and systematized use of raw materials and construction methods, the design as an expression of logical production rather than a historical tool, and the technique itself as ethics. Property owner’s economic and social class contradicts prevalent practice and academic tradition. A new order of taste, comfort and modernity is established. Contrary to the traditional house made of Araucária, which has its enclosed structure and edges of constructed volume built with vertical boards and beams, the buildings studied here have horizontal boards only as an exterior wall. The building’s structure (balloon-frame) is located in between the exterior and the interior walls. This style of construction is characteristic of the North American industrial process, which united sawmills and railroads during its colonization period. The buildings studied here, those with horizontal boards - directly associated with the “sawmill owners,” and those with vertical boards - used by sawmill workers, or used as warehouses and commercial buildings, share a common origin: the industrial process of wood exploration developed in North America during the 19th Century. Other characteristics that unite these buildings and put them in the historiographic process of modern architecture construction are: rationalization of construction; coherent use of form, method, and material; capacity of replication and patronization; suppression of ornaments; and valorization of technology.

Keywords

Como citar

MEZZADRI, Humberto. Madeiras horizontais. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 3., 2010, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2010. ISBN 978-85-60188-11-6. DOI: 10.5281/zenodo.19291242.

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Ficha catalográfica

3º Seminário Docomomo Sul: anais: madeira: primitivismo e inovação na arquitetura moderna do cone sul americano, 1930-1970 [recurso eletrônico] / organização: Carlos Eduardo Comas, Edson Mahfuz, Airton Cattani, Sérgio Marques. Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2010. 1 CD-ROM. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-3o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-60188-11-6