Pedra, papel: tesouro
Resumo
No antigo jogo de mãos oriental, cujo nome em trocadilho intitula este texto, o papel ganha da pedra, a pedra da tesoura e a tesoura do papel. Simbolicamente, a mão aberta, que representa o papel, pode envolver a mão fechada, que representa a pedra, anulando-a. As regras do jogo a seguir apresentado, entretanto, são diferentes: no que diz respeito a projeto e patrimônio, o papel é aliado da pedra. Passível de ser armazenado e catalogado, o projeto é capaz de se tornar fonte de consulta a respeito de uma construção presente concebida no passado, a qual tenha sofrido modificações decorrentes da ação do tempo. Fundamental é o papel desempenhado pelo registro gráfico de uma obra quando se trata de bem que desperte interesse patrimonial. No âmbito da arquitetura e do urbanismo, no que diz respeito a patrimônio – institucionalmente protegido ou não – vêm à mente, via de regra, edificações realizadas por arquitetos de renome, de importância ou excelência reconhecidas pelos expertos, ou que tenham sido relevantes para a história de certa comunidade. Este trabalho, no entanto, não versará sobre edifícios, mas, sim, calçadas – mais especificamente, aquelas de pedra portuguesa. As calçadas em mosaico português são apropriadas para ilustrar a relação entre desenho e construção que se pretende abordar neste paper. Originária, evidentemente, de Portugal, esta modalidade de pavimentação é comum em países de colonização lusa, principalmente no Brasil, onde está presente em cidades como Porto Alegre, São Paulo, Manaus, Recife, Belém, e tantas outras. Dentre todos, o caso brasileiro mais lembrado é o do Rio de Janeiro, cuja imagem do calçadão de Copacabana – precisamente do trecho delineado pelo desenho sinuoso em preto e branco que alude às ondas do mar – transformou-se em símbolo da cidade. A polêmica a respeito da conveniência deste tipo de pavimentação tem figurado nos meios de comunicação e divide, principalmente, as opiniões da população carioca, que, desde 1906, na administração de Pereira Passos, passeia sobre mosaicos, nem sempre, bem conservados. A suscetibilidade a irregularidades é o principal argumento contrário às calçadas portuguesas. A facilidade de manutenção da rede subterrânea, simplicidade da substituição de peças, e permeabilidade do solo são vantagens a elas atribuídas. É consenso, por outro lado, que cuidados com execução, manutenção e conservação são premissas fundamentais para a eficiência destes passeios, dos quais o desenho é a essência a ser preservada. A substituição de lotes de pedras é natural e, muitas vezes, necessária à conservação da calçada portuguesa. Daí se pode concluir que, por um lado, o desenho prevalece sobre a materialidade. Ou seja, o que interessa preservar é o padrão decorativo e não o bem em si – como ocorre em relação ao patrimônio arquitetônico. Por outro lado, dependendo de como é abordada, a questão da materialidade não é fator de importância menor, já que é da técnica construtiva adotada, da qualidade do material empregado e do rigor com a execução do passeio que depende a excelência do resultado em relação ao previsto em projeto. A fim de discutir as relações entre projeto e patrimônio, à luz das calçadas em mosaico português, o paper se apoiará no caso exemplar do calçadão de Copacabana, projetado por Roberto Burle Marx, em 1970, e tombado provisoriamente em âmbito estadual, em 1991, pelo INEPAC (Instituto Estadual do Patrimônio Cultural). Este passeio moderno levará as ondas do Rossio lisboeta à costa carioca e, de lá, à badalada Lincoln Road de Miami, percorrendo caminhos construídos em pedra que se tornaram tesouros protegidos no – e pelo – papel.
Palavras-chave
Abstract
In ancient oriental hand game, whose name heads this text like a pun, paper beats rock, the rock crashes scissors and scissors wins paper. Symbolically, an open hand, which is paper, may involve the closed hand, which represents the stone nullifying it. The game rules below, however, are different: in respect of design and heritage, the role is an ally of the stone. Properly stored and cataloged, the project is able to become the source of information about a building designed this in the past, which has undergone changes under the action of time. The role of the graphic recording of a work is fundamental when it regards heritage. In the context of architecture and urbanism, with respect to heritage - institutionally protected or not - come to mind buildings made by renowned architects, importance or excellence recognized by experts, or buildings that have been relevant to history of a certain community. This work, however, will focus not on buildings but on sidewalks - more specifically, those of Portuguese stone. The Portuguese mosaic sidewalks are appropriate to illustrate the relationship between design and construction that aims to address this paper. Originally, of course, of Portugal, this type of pavement is common in countries of Portuguese colonization, especially in Brazil, where it's present in cities like Porto Alegre, Sao Paulo, Manaus, Recife, Belem, and many others. Among all, the Brazilian mostly remembered city is Rio de Janeiro, whose image the promenade of Copacabana – precisely the section outlined by sinuous design in black and white that alludes to the waves of the sea – became a symbol of the city. The controversy about the convenience of this type of flooring have been figured in the media and divides mainly the opinions of the population of Rio, which, since 1906, in the administration of Pereira Passos, walks over mosaics, not always well preserved. The susceptibility to irregularities is the main argument against the Portuguese sidewalks. The serviceability of the underground network, simplicity of replacement parts, and soil permeability are advantages attributed to them. There is consensus, however, that care with build, maintenance and conservation are fundamental premises for the efficiency of these sidewalks, which the design is the essence to be preserved. The replacement of some stones is often necessary for maintenance of Portuguese sidewalks. From this one can conclude that on the one hand, the design takes precedence over the materiality. That is, what matters is preserving the decorative pattern and not the stone itself – as in relation to architectural heritage. On the other hand, depending on how it is approached, the question of materiality is not a factor of minor importance, since the excellence of the outcome according to the design depends on the construction technique adopted, the quality of the material used and the rigor with which the execution. In order to discuss the relationship between design and heritage in the light of mosaic pavements in Portuguese stone, the paper will be based on the exemplary case of the Copacabana boardwalk, designed by Roberto Burle Marx, in 1970, and provisionally listed in 1991 by INEPAC (State Institute of Cultural Heritage). This Modern tour will take from the waves of Lisbon Rossio to Rio de Janeiro coast, and from there, to the trendy Lincoln Road Miami, traversing paths built in stone that became protected treasures on – and by – paper.
Keywords
Como citar
PELLEGRINI, Ana Carolina Santos. Pedra, papel: tesouro. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 4., 2013, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2013. ISBN 978-85-60188-13-0. DOI: 10.5281/zenodo.19291818.
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Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Sul: anais: pedra, barro e metal: norma e licença na arquitetura moderna do cone sul americano, 1930-1970 [recurso eletrônico] / organização: Carlos Eduardo Comas, Claudia Costa Cabral, Airton Cattani. Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2013. 1 CD-ROM. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-4o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-60188-13-4

