Arquitectura colonial portuguesa e sistemas construtivos tradicionais africanos: abordagens modernas
Resumo
Durante a década de 1950, os arquitectos portugueses tomam contacto com as novas tendências internacionais que aconselham uma maior integração das culturas locais, designadamente a paisagem, o território, os materiais de construção, os hábitos das populações rurais, etc. Em 1955, o Sindicato Nacional de Arquitectos recebe autorização para dar início ao levantamento da arquitectura popular em Portugal, dividindo o país em seis regiões e calcorreando o território nacional, registando tipologias habitacionais rurais e sistemas construtivos tradicionais. Este levantamento é publicado em 1961 com o título Arquitectura Popular em Portugal e tem enorme repercussão nas práticas profissionais e nos partidos arquitectónicos que os portugueses seguem a partir de então. Paralelamente, estudos menos abrangentes e mais localizados são igualmente realizados tendo em atenção a África subsariana e os territórios tropicais que então constituem o império colonial português. Como consequência deste movimento, as abordagens desenvolvidas pelos arquitectos portugueses para África passam a lidar com sistemas tradicionais. Estas podem ser elencadas em dois grupos: 1. Produção arquitectónica especificamente pensada para as populações “indígenas” africanas, abarcando tipologias programáticas de pequena escala, desde a habitação unifamiliar, passando por uma grande diversidade de equipamentos (escolas primárias, lavadouros comunitários, instalações sanitárias colectivas, etc.); 2. Equipamentos públicos de forte significado de representação política, ainda que ligados à comunidade africana, como estruturas de ensino religioso ou instituições de formação profissional. Nos dois casos, o estudo dos sistemas construtivos tradicionais africanos, o uso da madeira (especificamente no território de São Tomé e Príncipe), do barro (Guiné, Moçambique e Angola) ou da pedra (Cabo Verde) tornam-se determinantes nas opções de projecto. Inscrevem-se no primeiro caso, por exemplo, as instalações sanitárias colectivas para Bafatá (Gabinete de Urbanização Colonial, ainda datadas da década de 1940), as escolas primárias desenvolvidas por Fernando Schiappa de Campos para as regiões rurais da Guiné (1961) ou as casas construídas (e já demolidas) de Alfredo Silva e Castro para a vila piscatória de Santa Catarina (São Tomé e Príncipe, 1964). No segundo caso, onde se integram os equipamentos de maior porte e escala, quer o Seminário da Praia (também de Silva e Castro, 1962) quer as diversas propostas para a Escola Prática de Agricultura de São Jorge dos Orgãos (Victor Consiglieri, 1964), ambos localizados na ilha de Santiago, em Cabo Verde, inscrevem temas da arquitectura local, recorrendo à pedra, por exemplo. Tratam-se de projectos, na sua maioria construídos, que reflectem as abordagens arquitectónicas que integram sistemas construtivos inspirados nas técnicas tradicionais, desenvolvidas pelo projecto moderno durante a última fase do domínio colonial português em África, onde se inclui o recurso à madeira, barro ou pedra, entre outros.
Palavras-chave
Abstract
During the 1950s, the Portuguese architects make contact with the new international guidelines that recommend greater integration of local cultures, including the landscape, territory, building materials, habits of rural populations, etc. In 1955, the National Union of Architects (Sindicato Nacional dos Arquitectos) receives authorization to begin the survey of popular architecture in Portugal, dividing the country into six regions, inventorying rural housing typologies and traditional construction systems. This survey is published in 1961 under the title Popular Architecture in Portugal and has huge effect on professional practices that Portuguese architects follow thereafter. Meanwhile, new studies are performed with particular attention to Africa and to the tropical territories that constitute the Portuguese colonial empire until 1975. As a result of this achievement, the new approaches developed by Portuguese architects to Africa can be listed in two groups: 1. Architectural production specifically designed for African populations, covering small-scale programs, from single family dwelling to public facilities (primary schools, collective toilets, etc.); 2. Facilities that represent the colonial power strongly linked to the African community, as religious or professional schools. In both cases, the study of African traditional construction systems, the use of wood (specifically in the territory of São Tomé e Príncipe), clay (Guinea, Mozambique and Angola) or stone (Cape Verde) become crucial in the design adopted. In the first case, can be mentioned, for example, collective sanitary facilities in Bafatá (Colonial Office Urbanization, even in the 1940s), the elementary schools developed by Fernando Schiappa de Campos for rural regions of Guinea (1961) or the houses built (and already demolished) by Alfredo Silva and Castro to the fishing village of Santa Catarina (São Tomé e Príncipe, 1964). In the second case, which includes large scale facilities, either the Praia Seminary (Silva e Castro, 1962), or the various proposals for the Practical School of Agriculture in São Jorge dos Orgãos (Victor Consiglieri, 1964), both located on the island of Santiago in Cape Verde, follow themes of local architecture, using the stone, for example. These projects, the majority built, reflect the architectural approaches that integrate building systems inspired by African traditional techniques developed through the modern project during the last phase of Portuguese colonial presence in Africa, which includes the use of wood, clay or stone, among others.
Keywords
Como citar
MILHEIRO, Ana Cristina Fernandes Vaz. Arquitectura colonial portuguesa e sistemas construtivos tradicionais africanos: abordagens modernas. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 4., 2013, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2013. ISBN 978-85-60188-13-0. DOI: 10.5281/zenodo.19291822.
Referências
- Bonito, Mário. “Regionalismo e Tradição”, in Sindicato Nacional dos Arquitectos, 1º Congresso Nacional de Arquitectura – Relatório da Comissão executiva, Teses, Conclusões e votos do Congresso, Lisboa: SNA, 1948, 42-53.
- Campos, Fernando Schiappa. Projecto de Escola Capela tipo para a província da Guiné, Processo n. 624 Lisboa: DGOPC – DSUH, 20/01/1961, IPAD
- Campos, Fernando Schiappa,Escola Rural tipo para a província da Guiné, Processo n. 628 Lisboa: DGOPC – DSUH, 03/01/1961, Arquivo Histórico Ultramarino Carvalho, Fernão Lopes Simões de; Cunha, José Pinto da. Projecto de Habitação Tipo A - Bairros de Pescadores da Ilha de Luanda, Memória Descritiva e Justificativa Geral, Província de Angola, Comissão Administrativa do Fundo dos Bairros Populares de Angola, 1965. cota IPAD: [PT/IPAD/MU/DGOPC/DSUH/1973/01458]
- Castro, Alfredo Silva e. Projecto de Habitações Económicas para São Tomé e Príncipe, Processo n. 706 Lisboa: DGOPC – DSUH, 02/12/1964 IPAD
- Castro, Alfredo Silva e. Escola Prática de Agricultura – S. Jorge dos Orgãos, Processo n. 691-A Lisboa: DGOPC – DSUH, 12/06/1964 Arquivo Histórico de Cabo Verde
- Castro, Alfredo da Silva e. “Considerações sobre a Construção Tradicional e a Pré-fabricada” in 1ºs. Jornadas de Engenharia de Moçambique, 1965
- Escudeiro, J.; Cruz, Lucínio. “Aditamento ao parecer da Comissão de revisão” in Lopes, Eurico Pinto. Liceu para a Cidade do Mindelo, processo n. 612, Lisboa: DSUH-DGOPC, 1960, Arquivos HistóricoUltramarino.
- Fernandes, Inácio Peres. “Relatório das teses apresentadas ao Tema I A Arquitectura no Plano Nacional”, in Sindicato Nacional dos Arquitectos, 1º Congresso Nacional de Arquitectura – Relatório da Comissão executiva, Teses, Conclusões e votos do Congresso, Lisboa: SNA, 1948, 180-186
- Gama, Eugénio Sanches da. “Aditamento” in Lopes, Eurico Pinto. Liceu para a Cidade do Mindelo, processo n. 612, Lisboa: DSUH-DGOPC, 1960, Arquivos Histórico Ultramarino Guedes, Pancho.
- Manifestos Ensaios Falas Publicações, Lisboa: Ordem dos Arquitectos, 2007
- Pancho Guedes – vitruvius mozambicanus, Lisboa: CCB, 2009
- Guedes, Pancho. “Pancho Miranda Guedes, entrevista por Ana Vaz Milheiro, Jorge Nunes, Jorge Figueira”, In JA-Jornal dos Arquitectos, n. 241, Out. /Dez., Ser Belo, 2010, 28-33
- Guedes, Pancho. “1001 portas do caniço, Maputo, Moçambique”, In JA-Jornal dos Arquitectos, n. 241, Out. /Dez., Ser Belo, 2010, 84-87
- Lopes, Eurico Pinto. Liceu para a Cidade do Mindelo, processo n. 612, Lisboa: DSUH-DGOPC, 1960, Arquivos Histórico Ultramarino Mota, A. Teixeira da. Origem da Casa Indígena no litoral da Guiné do Cabo Verde, Bissau,
- Mota, A. Teixeira da; Neves, M.G. Ventim (dir.). A Habitação Indígena na Guiné Portuguesa, n.7, Bissau: Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, 1948
- Nos Trópicos sem Le Corbusier, Arquitectura luso-africana no Estado Novo, Lisboa: Relógio d’Água, 2012
- Milheiro, Ana Vaz. “À procura de Mário de Oliveira, um arquitecto do Estado Novo” in JA – Jornal Arquitectos, n. 245, Abril/Junho, Ser Arquitecto, 2012, 24-39
- Oliveira, Mário. “A Arquitectura no Plano nacional”, in Sindicato Nacional dos Arquitectos, 1º Congresso Nacional de Arquitectura – Relatório da Comissão executiva, Teses, Conclusões e votos do Congresso, Lisboa: SNA, 1948, 24-32
- Oliveira, Mário de. Problemas essenciais do Urbanismo no Ultramar, Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1962
- Oliveira, Mário de. “O «Habitat» nas zonas suburbanas de Quelimane: um caso positivo de formação de sociedades multirraciais”, in Geographica, ano 3, n. 3, Julho de 1965a, Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa, 65-75
- Oliveira, Mário de. Os novos Povoamentos nas Províncias Ultramarinas, Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1965b Oliveira, Mário de. Relatório da Viagem à Guiné, DSUH, DGOPC, Lisboa, 2 de Dezembro de 1958.
- Cota IPAD: [PT/IPAD/MU/DGOPC/DSUH/2073/01004] Oliveira, Mário de. Urbanização dos Bairros Populares de Bissau – tipo de moradias a adoptar – Memória Descritiva e Justificativa, Lisboa: DGOPC – Secção de Serviços Urbanismo e Habitação, 28/09/1959.
- Cota IPAD: [PT/IPAD/MU/DGOPC/DSUH/2073/00783]
- Oliveira, Mário de. Urbanização dos Bairros Populares de Bissau, Lisboa: DGOPC – Secção de Serviços Urbanismo e Habitação, trab. 603, 1959, 10/1959.
- Cota IPAD: [PT/IPAD/MU/DGOPC/DSUH/2073/08299] Pereira, Alberto Feliciano Marques. A Arte em Moçambique, Lisboa: [sem editora?],1966
- Possolo, Luís. Estações Rádio-Navais para Luanda e Lourenço Marques, processo n. 581 e 581A, Lisboa: DSUH-DGOPC,1959, Arquivos Histórico Ultramarino Possolo, Luís. Esplanada para Bissau, processo n. 571, Lisboa: DSUH-DGOPC,1959, Arquivos Histórico Ultramarino Ribeiro, Orlando. Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, Lisboa: Letra Livre, 2011
- [Saldanha, José Luís]. Luís Possolo – um arquitecto do Gabinete te Urbanização do Ultramar, Lisboa: CIAAM, FCT [PTDC/AURAQI/104964/2008], 2012
- Sindicato Nacional dos Arquitectos. 1º Congresso Nacional de Arquitectura – Relatório da Comissão executiva, Teses, Conclusões e votos do Congresso, Lisboa: SNA, 1948
- Sindicato Nacional dos Arquitectos.
- Arquitectura Popular em Portugal, vol. 1 e 2, Lisboa: SNA,
- Tenreiro, Francisco. Estudos, Ensaios e Documentos III – Acerca da casa e do Povoamento da Guiné, Lisboa: Ministério das Colónias, 1950
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Sul: anais: pedra, barro e metal: norma e licença na arquitetura moderna do cone sul americano, 1930-1970 [recurso eletrônico] / organização: Carlos Eduardo Comas, Claudia Costa Cabral, Airton Cattani. Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2013. 1 CD-ROM. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-4o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-60188-13-4

