A poética dos tijolos aparentes e o caráter industrial: MAESA (1948)
Resumo
Até a Primeira Guerra Mundial, parte das fábricas brasileiras era caracterizada formalmente pela simplicidade e despojamento. Alguns desses edifícios adotaram o que se pode chamar de “padrão manchesteriano”: fachadas erguidas em tijolos aparentes que encobrem estruturas moduladas de concreto armado e/ou estruturas importadas de ferro. Nelas, o barro “reveste” o concreto, fazendo duelar a manufatura rudimentar da vedação versus a racionalização construtiva da estrutura e cobertura. Tijolo a tijolo, provavelmente, buscava-se traduzir o caráter fabril depreendido dos materiais e se ensaiava a fábrica moderna brasileira. Ilustram estes casos, entre outras, a Industrial Pernambucana, em Camaragibe; a Cia. Progresso e a Fábrica de Tecidos Botafogo, no Rio de Janeiro; e, em São Paulo, a Fábrica de Tambores Irmãos Mauser e as Indústrias Reunidas Matarazzo. No contexto gaúcho, percebe-se que fábricas com padrão manchesteriano foram mais raras. Fábricas com linguagem colonial foram recorrentes no sul do Estado, condicionadas pelas charqueadas e pela forte presença portuguesa. Nas regiões de colonização alemã e italiana, as referenciais projetuais adotadas foram aquelas dos países de origem dos imigrantes e não da Inglaterra, cujo capital financiou grande parte do desenvolvimento das indústrias no centro do país. Na década de 1920, algumas poucas fábricas assumiram feições ecléticas e outras já buscavam a racionalização da construção, como os moinhos RioGrandense, Porto-Alegrense e Chaves. Ao longo da década de 30 e 40, foram recorrentes edifícios industriais com linguagem Art Déco e, isoladamente, já ocorreram experiências com vocabulário moderno, como a fábrica A. J. Renner & Cia., que lembra os volumes curvilíneos e envidraçados de Mendelsohn. Nesse cenário, grandes fábricas em tijolos aparentes ganham relevância no Estado, pela excepcionalidade das mesmas. São fábricas que, normalmente, ocupam grandes áreas urbanas e que, pelo seu porte ou pelo seu apelo visual, estão diretamente ligadas à história e à imagem das cidades, ajudando a introduzir e a popularizar elementos da arquitetura moderna no Rio Grande do Sul. Analisar as características projetuais de tais fábricas é objetivo principal deste trabalho. Mais precisamente, o artigo objetiva analisar a Fábrica da Metalúrgica da Eberle – MAESA (1945), construída em Caxias do Sul. O conjunto ocupa uma área fora do perímetro original da cidade e próxima à BR 116. O projeto envolve quatro quadras, deixando livre uma grande área verde e algumas ruas internas de acesso, onde estão distribuídas galpões, edificações de um a dois andares. O sistema construtivo do conjunto é definido por estrutura modulada de concreto armado, evidenciado a preocupação com a racionalização construtiva e com a configuração de plantas livres. Vedam o conjunto superfícies de tijolos aparentes. Em alto relevo, tijolos ainda marcam a estrutura e definem molduras nas platibandas e nas aberturas. No artigo, após uma breve contextualização das fábricas de padrão manchesteriano e das primeiras fábricas modernas no mundo e no Brasil, a MAESA é documentada e analisada em sua implantação, seus aspectos formais e tecnológicos. Revela-se o seu valor patrimonial para Caxias do Sul, estando este diretamente associado à poética do tijolo aparente e seu caráter industrial.
Palavras-chave
Abstract
Until World War I, part of Brazilian factories was formally characterized by simplicity and despoliation. Some of these buildings have adopted what might be called the "standard Manchesterian": built in brick facades that hide modulated structures of concrete and / or imported iron structures. Here the clay "coats" the concrete, making the duel between crude manufacture of sealing and constructive rationalization of the structure and roof. Brick by brick, probably sought to translate character inferred from manufacturing materials and rehearsed the modern factory in Brazil. These cases are illustrated, among others, by Industrial Pernambucana in Camaragibe; Cia Progresso and Fábrica de Tecidos Botafogo, in Rio de Janeiro; and, in São Paulo, Fábrica de Tambores Irmãos Mauser and Indústrias Reunidas Matarazzo. In Gaucho context, one realizes that Manchesterian standarded factories were rare. Colonial language factories were recurred in the south of the state, conditioned by charqueadas and strong Portuguese presence. In regions of German and Italian colonization, project references adopted were those of the immigrants' origin countries and not from England, whose capital largely financed the development of industry in the center of the country. In the 1920s, just a few factories showed eclectic features and some others already sought construction rationalization, such as Rio-Grandense, Porto-Alegrense and Chaves mills. Throughout the 30s and 40s, Art Deco industrial buildings language were recurring, and, separately, have occurred experiments with modern vocabulary, like A. J. Renner & Co. factory, which resembles Mendelsohn's curvilinear volumes and glazing. In this scenario, large brick factories gain relevance in the state by their exceptionality. This factories normally occupy large urban areas and that, due to their size or visual appeal, are directly linked to the history and image of cities, helping to introduce and popularize the elements of modern architecture in Rio Grande do Sul. Analyzing project characteristics of such buildings is the main objective of this work. More precisely, the paper aims to analyze Eberle Metallurgical Factory – MAESA (1945), built in Caxias do Sul. The set occupies an area outside the original boundaries of the city and close to BR 116. The project involves four blocks, leaving a large open green area and some access internal streets, where are distributed sheds, buildings of one or two floors. The building constructive system is defined by reinforced concrete modulated structure, evidencing the concern with rationalization and constructive setting free plants. The set is sealed by brick surfaces. Embossed, bricks still mark the structure and define frames in openings and parapets. In the article, after a brief standard factories Manchesterian contextualisation and the first modern factories in the world and in Brazil, MAESA is documented and analyzed in its deployment, its formal and technological aspects. It is revealed, then, its heritage value to Caxias do Sul, being that directly associated to the poetics of apparent brick and its industrial character.
Keywords
Como citar
COSTA, Ana Elísia da. A poética dos tijolos aparentes e o caráter industrial: MAESA (1948). In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 4., 2013, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2013. ISBN 978-85-60188-13-0. DOI: 10.5281/zenodo.19291826.
Referências
- ÁLBUM COMEMORATIVO DO 75° ANIVERSÁRIO DA IMIGRAÇÃO ITALIANA NO RIO GRANDE DO SUL. Porto Alegre: Globo, 1950.
- Antunes, D. P. Caxias do Sul – metrópole do vinho. Caxias do Sul: Livraria Mendes, 1957.
- Banham, R. Teoria e projeto na primeira era da máquina. São Paulo: Perspectiva, 1979.
- Berdini, P. Walter Gropius. Barcelona: Gustavo Gili, 1986.
- Buchard, J. e Busch-Brow, A. A arquitetura dos Estados Unidos − uma história social e cultural. São Paulo: Cultrix, 1961. CINQÜENTENÁRIO DELLA COLONIZZAZIONE ITALIANA NEL RIO GRANDE DEL SUD – 18751925. Porto Alegre: Globo, 1925.
- Conde, L. P. F. e Almada, M. “Panorama do Art-Déco na arquitetura e no urbanismo do Rio de Janeiro”. In: Guia da arquitetura art déco no Rio de Janeiro/ Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Urbanismo. Rio de Janeiro: Index, 1997.
- Correia, T. de B. “O modernismo e o núcleo fabril: o anteprojeto de Lúcio Costa para Monlevade”. In: Anais do Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Natal, UFRN, 2000.
- Costa, A. E.; Machado, M. B. P.; Venzo, M. “Toigo: architecto – constructor licenciado,” Métis: história & cultura, Vol. 7, No 13, 2008.
- Costa, A. E. A Evolução do Edifício Industrial em Caxias do Sul: de 1880 a 1950. Porto Alegre: PROPAR-UFGRS, 2001. (Dissertação de mestrado) Costa, C. T. da. O sonho e a técnica – a arquitetura de ferro no Brasil. São Paulo: EDUSP, 1994.
- Couto, R. G. (Coord.) Algodão no Brasil. São Paulo: Editora Index, 1988. D’aló Frota, J. A. “A permanência do transitório”. In: Busko, A M. P. D. (Coord.). Arquitetura comemorativa – exposição do centenário farroupilha – 1935. Porto Alegre: UFRGS e Assembléia Legislativa do Estado, 1999.
- Giedion, S. A decade of new architectura. Zurich: Editions Girsberger, 1951. Gössel, P. & Leuthäuser, G. Arquitetura do século XX. Alemanha: Taschem, 1996. Hardman Foot, F.; Leonardi, V. História da Indústria e do Trabalho no Brasil. São Paulo: Global Editora, 1982.
- Lenain, P. “Quand L’industre laisse des paysages,” Revista Lotus Internacional, n. 14, mar. 1977.
- Luccas, L. H. “Arquitetura Moderna em Porto Alegre: uma história recente”, Revista Arqtexto, n. zero, 2000.
- MAHFUZ, E. da C. “Composição e caráter e a arquitetura no fim do milênio,” Projeto Design, n. 195, abr.1996.
- Midlin, H. E. Modern architecture in Brasil. Amsterdam: Colibris, 1956.
- Miranda, A. E. A Evolução do Edifício Industrial em Porto Alegre: de 1870 a 1950. Porto Alegre: PROPAR-UFGRS, 2003. (Dissertação de mestrado)
- Moura, E. “Fábrica do Rio Anil − patrimônio reciclado,” Revista Arquitetura e Urbanismo, n. 56, out./nov. 1994.
- Pehnt, W. La architectura expressionista. Barcelona: Gustavo Gili, 1975.
- REVISTA PROJETO, n. 156, set. 1992 (Suplemento especial Opera Prima e Prêmio Paviflex 92).
- REVISTA ARQUITETURA E URBANISMO, n. 51, dez. 1993./jan. 1994.
- REVISTA LA ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI, n. 42-43, out. 1952, p. 29.
- Segawa, H. “Modernidade Pragmática – uma arquitetura dos anos 1920/1940 fora dos manuais,” Revista Projeto, n. 191, nov. 1995.
- Segawa, H. “Utopia e Realidade na procura de uma arquitetura industrial,” Revista Projeto, jul/1987.
- Silva, M. A. Arquitetura moderna − atitude alagoana. Alagoas: Sergaza, 1991.
- Weimer, G. Arquitetura Modernista em Porto Alegre entre 1930-1945. Porto Alegre: U/E Porto Alegre, 1998.
- Weimer, G. A arquitetura. Porto Alegre: Ed. Da Universidade/ UFRGS, 1992.
- Weimer, G. “Theo Wiedersphan,” Revista Projeto, n. 80, out. 1989.
- Vaz, R. de C. A. “Raízes brasileiras da arquitetura moderna,” Revista Arquitetura e Urbanismo, n. 51, dez.1993/ jan. 1994.
- Venzo, Michele. Reutilização da Maesa. Caxias do Sul: UCS – Curso de Arquitetura e Urbanismo, 2008. (Monografia de Trabalho de Conclusão de Curso) Vichnewski, H. T. As indústrias Matarazzo no interior paulista: arquitetura fabril e patrimônio industrial (1920-1960). Campinas: Unicampi, 2004. (Dissertação de mestrado)
Ficha catalográfica
4º Seminário Docomomo Sul: anais: pedra, barro e metal: norma e licença na arquitetura moderna do cone sul americano, 1930-1970 [recurso eletrônico] / organização: Carlos Eduardo Comas, Claudia Costa Cabral, Airton Cattani. Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2013. 1 CD-ROM. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-4o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-60188-13-4

