A flexibilidade como atributo da Arquitetura Moderna Brasileira e sua vigência na contemporaneidade

Capa dos anais

5º Seminário Docomomo Sul, Porto Alegre, 2016

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19291604

Resumo

A flexibilidade é um conceito que abrange uma grande diversidade de interpretações e que tem sido explorado por vários autores em distintos campos do conhecimento. Em arquitetura, os estudos sobre este tema investigam como potencializar por intermédio de espaços flexíveis o uso das construções, ao mesmo tempo em que considera a sua permanência, seja através de estratégias de projeto relacionadas à transformação ou, no caso de soluções mais abertas, entendendo o edifício como algo capaz de crescer e se reconfigurar ao longo do tempo. A arquitetura moderna potencializou o desenvolvimento de questões relativas ao conceito de flexibilidade, constituindo umas das premissas do movimento. As partes que compõem uma obra arquitetônica passam ser organizadas e arranjadas de diferentes maneiras, de acordo com o programa, o sítio e os meios de construção que se utilizam, e estrutura e vedação passam a ser vistos como sistemas independentes, redundando, portanto, na autonomia de cada elemento de composição do projeto. Na arquitetura moderna, a flexibilidade derivada do racionalismo estrutural se traduz em espaços contínuos, vedações internas e externas sem funções estruturais ou móveis e organização espacial a partir do núcleo de serviços. A arquitetura moderna brasileira desde a origem teve em seus exemplares a aplicação de espaços flexíveis. O próprio Ministério da Educação e Saúde Pública (1936-45), ícone do movimento, possui uma planta racional, com pavimento livre e concentração de circulações verticais e áreas molhadas. Isso, no entanto, não foi um caso isolado. Ao focar seus esforços no desenho das estruturas, criando geometrias simples e espaços generosos para resolver os novos problemas complexos que surgiam naquele momento, aliando a isso a preocupação da construção da paisagem e a articulação territorial, a arquitetura moderna brasileira apresenta, de maneira geral, uma grande abertura à possibilidade de mudança de uso e à apropriação dos seus espaços que a diferencia significativamente da produção dos países do hemisfério norte do mesmo período. Sendo capazes de acomodar variados usos ao longo do tempo, estes edifícios ampliam sua longevidade e retardam a obsolescência de suas funções. Nesta direção, o objetivo deste artigo é realizar uma reflexão teórica e histórica sobre a questão da flexibilidade presente na arquitetura moderna brasileira e sua vigência na contemporaneidade. Assim, o trabalho inicia sua análise resgatando como os primeiros representantes da arquitetura moderna aplicaram este conceito em suas obras e ideias, e quais as motivações por trás dessa nova maneira de projetar. Na sequência, será abordado o caso específico de edifícios de caráter público e com função administrativa da arquitetura moderna brasileira, uma vez que tal tipologia exige, em sua essência, atributos de flexibilidade e adaptabilidade. Por fim, a título de conclusão, será apresentada a dupla vigência deste conceito nos dias de hoje, quando se torna de extrema relevância considerá-lo tanto como estratégia em novos projetos como em propostas de intervenção em obras modernas, podendo auxiliar na preservação da integridade de tais exemplares.

Palavras-chave

Abstract

Flexibility is a concept that embraces a large diversity of interpretations and that has been explored by several authors in distinct fields of knowledge. In architecture, the studies about this theme investigate how to increase the use of buildings throw flexible spaces, at the same time considering its permanence, either through design strategies related to transformation, or in more open solutions, understanding the building as something able to grow and reconfigure over time. Modern architecture enhanced the development of issues related to the concept of flexibility, being one of the movement premises. The parts of the building started being organized and arranged in different ways, according to the program, the site and the construction elements that are used, and structure and walls are seen as independent systems, resulting therefore in autonomy of each project element. In modern architecture, the flexibility derived from the rationality structural translates into continuous surfaces, internal and external walls without structural functions or mobile and spatial organization from the core services.

Brazilian modern architecture since its origins always had in its buildings the application of flexible spaces. The Ministry of Education and Health (1936-45), one of the movement’s icons, has a rational and free plan, concentrating the vertical circulations and wet areas. This, however, was not an isolated case. By focusing their efforts in the design of structures, creating simple geometries and generous spaces to solve the complex new problems that arose at that time, combining it with the concern of landscape construction and territorial articulation, Brazilian modern architecture has, in general, a large opening to the possibility of use change and the appropriation of the spaces that significantly differs from the production of the northern hemisphere at the same period. Being able to accommodate a variety of uses over time, these buildings extend its longevity and delay the obsolescence of its functions. In this direction, the goal of this article is a theoretical and historical reflection on the issue of flexibility in Brazilian modern architecture and its validity in the contemporary days. Thus, the work begins with the analysis of the first representatives of modern architecture that applied this concept in his works and ideas, and the motivations behind this new way of designing. Following, the work analyses the specific case of buildings of public character and administrative function of Brazilian modern architecture, as this type requires, in essence, flexibility and adaptability attributes. Finally, for conclusion, it will be presented the double validity of this concept nowadays, when it becomes extremely important considering it both as a strategy in new projects as in intervention proposals in modern buildings to assist in preserving its integrity.

Keywords

Como citar

BRAGA, Bruno Melo. A flexibilidade como atributo da Arquitetura Moderna Brasileira e sua vigência na contemporaneidade. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 5., 2016, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2016. ISBN 978-85-61965-40-2. DOI: 10.5281/zenodo.19291604.

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Ficha catalográfica

5º Seminário Docomomo Sul: anais: o moderno no contemporâneo: herança e prática [recurso eletrônico] / organização: Ana Carolina Pellegrini, Carlos Eduardo Comas. Porto Alegre: Marcavisual, 2016. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-5o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-61965-40-2