A preservação do “não moderno” como parte do processo de preservação da cidade moderna: o caso de Maringá, PR

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5º Seminário Docomomo Sul, Porto Alegre, 2016

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19291610

Resumo

O período de colonização da cidade de Maringá - PR coincide com o auge da arquitetura moderna brasileira. Enquanto algumas cidades como São Paulo e Rio de Janeiro expunham ícones da arquitetura moderna brasileira, Maringá acabara sua gestação e “nascia” pelo plano colonizador da empresa Cia de Terras Norte do Paraná, de capital britânico. Este empreendimento, de cunho capitalista, almejava a ocupação de terras por meio da venda de glebas, distribuídas ao longo de uma rede de cidades dentre as quais destaca-se Maringá, traçada pelo engenheiro Jorge de Macedo Vieira sob o ideário da cidade-jardim de Howard. As facilidades de compra de lotes proporcionadas pela Cia. atraíram a preferência de imigrantes (japoneses, alemães, árabes e portugueses, dentre outros), que viam a oportunidade de se tornarem pequenos proprietários agrícolas. A arquitetura colonizadora de Maringá constituía-se principalmente de edificações de madeira, abundante na região, que revelavam como as técnicas construtivas tradicionais dos imigrantes se adaptavam às condições físicas e culturais encontradas pelos colonizadores. A partir de 1960, com o fim do período colonizador e a escassez da madeira, a “Maringá Moderna”, desde seu projeto de implantação, inseriu-se no contexto modernizador que avançara praticamente todo o país e tinha como principal preceito o rompimento com a arquitetura produzida anteriormente. No curto período marcado por transformações culturais e ideológicas, Maringá vê surgir entre as antigas edificações de madeira símbolos da chegada de uma forma de projetar e construir marcada pelo emprego de novos materiais e técnicas construtivas, pela aparência abstrata que renegava a imagem tradicional da casa, linhas horizontais e outros elementos característicos da arquitetura moderna. A arquitetura de madeira dos colonizadores, não moderna e não condizente com a nova estética ou preceitos, inicia um processo de extinção gerada pela falta de manutenção e descaso por parte do movimento modernista. A cidade moderna tenta apagar ou excluir seu passado, e seus objetos representativos, em prol da modernização desmedida, uma tensão constante entre o antigo e o moderno. A história não deve ser vista de forma linear, sob uma ótica positivista onde movimentos culturais e arquitetônicos (materiais e técnicas) são simplesmente substituídos com a passagem do tempo, onde as antigas edificações de madeira devem dar espaço às edificações modernistas, considerando apenas os avanços científicos, mas como processos que se sobrepuseram e que são continuamente sobrepostos, delineados por conceitos e valores que fogem ao campo científico e se voltam para outras áreas como economia, sociologia e antropologia. Assim, não cabe a rejeição da arquitetura vernácula em madeira e suas técnicas construtivas, pelo fato de constituírem parte intrínseca da história que permite compreender como se deu o processo de colonização de Maringá, e como preservação da própria configuração dela na qualidade de Cidade Moderna. Esta preservação poderia ser assegurada pelas legislações nacionais e internacionais, que compreendem e instituem o registro de bens culturais que atuem como testemunho de uma civilização particular, saberes e conhecimentos, e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades. Propõe-se aqui, por meio de levantamento bibliográfico e análise de conceitos presentes na historiografia, na questão de patrimônio e preservação, o estudo de uma relação equilibrada entre os ideais de modernidade presentes na cidade de Maringá e a preservação do patrimônio cultural da arquitetura em madeira, de forma que o avanço não seja tolhido em detrimento da conservação, e vice-versa. Preservar hoje a arquitetura em madeira na cidade moderna consiste em componente essencial para a sua historiografia e incentiva, a preservação de exemplares da arquitetura moderna. Esta uma herança, acumulada por gerações, que reflete em suas particularidades inseridas no todo, temas que vão além das questões relacionadas ao avanço tecnológico e a própria arquitetura.

Palavras-chave

Abstract

The period of colonization of the city Maringá-Paraná-Brazil coincides with the best moment of the Brazilian modern architecture. While some cities like São Paulo and Rio de Janeiro exposed icons of modern architecture, Maringá was born by the settler Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, of British capital. This capitalist enterprise wanted the occupation of land by sale of plots of farmland distributed throughout a network of cities among which Maringá stands out, designed by the engineer Jorge de Macedo Vieira under the ideals of the City-Garden of Howard. The facilities to purchase lands offered by the settler attracted immigrants like Japanese, Germans, Arabs and Portuguese, among others, who saw the opportunity to become agricultural smallholders. The architecture of Maringá consisted mainly of wooden buildings, abundant in the region, which showed how the tradicional construction techniques of the immigrants adapted to the physical and cultural conditions encountered by the settlers. From 1960 on, with the end of the colonizing period and the scarcity of wood, "Maringá Moderna", since its deployment project, entered in the context of modernization that had advanced all over the country and had as its main precept the breakup with the architecture produced earlier. In the short period marked by cultural and ideological transformations, Maringá sees, between the old wooden buildings, symbols of the arrival of a way of designing and building marked by the use of new materials and construction techniques arising, by abstract appearance that refused the image of traditional home, horizontal lines, and other characteristic elements of modern architecture. The wooden architecture of the colonizers, not modern and not harmonic with the new aesthetic or precepts, starts a process of extinction generated by the lack of maintenance and negligence on the part of the modernist movement. The modern city tries to erase or delete its past, and its representative objects, on behalf of a constant modernization, a tension between the antique and the modern. The history should not be seen in a linear manner, under a positivist perspective in which cultural and architectural movements (materials and techniques) are simply replaced with the passage of time, where the old wooden buildings should be replaced by modernist buildings, considering only the scientific advances, but as processes that overlapped and are continually overlapping, delineated by concepts and values that escape from the scientific field and turn to other areas such as economy, sociology and anthropology. Then, it is not worth it the rejection of the vernacular architecture in wood and its constructive techniques, given the fact that they are an intrinsic part of the history that allows us to understand how the process of the colonization of Maringá was, and how to preserve its own configuration as a modern city. This preservation could be ensured by national and international legislations, which understand and establish the registry of cultural assets that act as evidence of a particular civilization, knowledge and expertise, and ways of doing rooted on the daily routine of the communities. It is proposed, through bibliographical survey and analysis of concepts in historiography, on the matter of heritage and preservation, the study of a balanced relationship between the ideals of modernity existent in Maringá and the preservation of the cultural heritage of the wooden architecture, so that the advance is not stunted at the expense of conservation, and vice versa. Today, preserving the wooden architecture in modern city consists of essential component to its historiography and encourages the preservation of examples modern architecture. This inheritance, accumulated for generations, which reflects in their particularities, themes that go beyond issues related to technological advancement and the architecture itself.

Keywords

Como citar

GONINO, Camila Thiemi Nakamura; SILVA, Ricardo Dias. A preservação do “não moderno” como parte do processo de preservação da cidade moderna: o caso de Maringá, PR. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 5., 2016, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2016. ISBN 978-85-61965-40-2. DOI: 10.5281/zenodo.19291610.

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Ficha catalográfica

5º Seminário Docomomo Sul: anais: o moderno no contemporâneo: herança e prática [recurso eletrônico] / organização: Ana Carolina Pellegrini, Carlos Eduardo Comas. Porto Alegre: Marcavisual, 2016. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-5o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-61965-40-2