Herança brutalista: a casa do arquiteto Edenor Buchholz em Porto Alegre
Resumo
Uma das principais características da arquitetura moderna, em seu sentido mais amplo, reside na inovadora proposição formal a partir das relações e transformações do programa de necessidades e sua interpretação. Nesse sentido, os projetos de residências unifamiliares constituíram um fértil laboratório para essas questões. Mesmo não sendo um produto industrial, a “máquina de morar” era concebida como tal, e movimentar-se em seu interior através de percursos surpreendentes fazia parte desse enunciado: a integração espacial surgia para propor e permitir a fruição da arquitetura. No Brasil, mais especificamente no cenário da Escola Paulista, diversos arquitetos projetam casas que procuram uma nova ordem familiar através da liberdade espacial, adotando o volume único solto no lote, em cujo interior ocorre a valorização dos espaços comuns em detrimento dos espaços privativos. Em São Paulo, a Casa Olga Baeta (1957), de Vilanova Artigas – por meio da organização do programa em bloco único e esquema estrutural independente e revelado – dá o tom da arquitetura residencial paulistana da década seguinte. Os dormitórios racionalizados limitam-se às necessidades vitais de sono e higiene, e ao mesmo tempo em que buscam a melhor insolação cedem o protagonismo aos espaços de convivência, interligados em meios níveis sob o mesmo pé-direito alto. Os automóveis estão expostos sob o mesmo volume que abriga o acesso, numa intencional ausência de hierarquia. Características tangíveis como a preferência pela aparência rude do concreto armado, o fechamento de planos com materiais não revestidos e o emprego de instalações aparentes concorrem para a associação do termo brutalismo àquela arquitetura. Na arquitetura residencial unifamiliar de Porto Alegre esses ecos são relativamente tardios, e podem ser observados em algumas residências projetadas somente nos anos 1970, como as casas dos arquitetos Cesar Dorfman (1972), Selso Maffessoni (1972) e Jorge Debiagi (1973). Na fronteira cronológica entre herança e prática, em 1977, encontra-se a casa projetada pelo arquiteto Edenor Buchholz para sua própria família. Relativamente conhecido pelo projeto das agências bancárias Moinhos de Vento (1973) e Independência (1976) da Caixa Econômica Federal, ambas de filiação brutalista (em parceira com o arquiteto Cesar Dorfman), Buchholz concebeu sua casa em lote urbano típico (11 x 44 m), com organização similar à descrita na Casa Baeta de Artigas, no entanto sujeita às transformações decorrentes da implantação entre medianeiras. A caixa aberta ao norte e ao sul organiza-se em torno de escada vazada assimétrica em meios níveis, a qual articula-se com jardim iluminado zenitalmente disposto de forma a borrar os limites entre interior e exterior. O convívio comunitário sob o grande vão dos ambientes de estar e mezanino também é estimulado nos dormitórios, dotados de painéis retráteis de marcenaria que permitem a integração dos quatro cômodos. Como uma grande tenda, a casa promove o encontro quase sem barreiras entre seus cinco habitantes originais. Fortemente descaracterizada, porém, foi ironicamente convertida na sede de uma revista de decoração cujo aposto é “criar, morar, viver”. O presente artigo faz parte de um estudo mais abrangente que está sendo desenvolvido a respeito das residências modernas em Porto Alegre, englobando cerca de 70 casas do período 1950-1970, das quais 20 nunca foram publicadas. Entre estas está a Residência Buchholz, cuja análise é objeto específico deste estudo. A partir do redesenho de seus documentos originais e elaboração de modelo tridimensional, serão discutidos aspectos referentes à sua organização espacial, materialidade e dimensão estrutural, relacionando-os com a de obras referenciais da Escola Paulista dos anos 1960. Ausente das compilações sobre arquitetura moderna em Porto Alegre, a Residência Buchholz carrega atributos espaciais e construtivos que permitem inclui-la e situá-la no âmbito desta produção.
Palavras-chave
Abstract
One of the main features of modern architecture is its innovative formal proposition deriving from interpretations and transformations of building program. Single-family house design is a fertile laboratory for these issues, thus. Although not an industrial product, the "living machine" was designed like that, and walking through its internal spaces is part of it: spatial integration came to propose and allow the enjoyment of architecture. In Brazil, more specifically in the scenery of the Paulista School, many architects were looking for a new family way of living through spatial freedom. They used to design single block houses, emphasizing common areas instead of private spaces. In Sao Paulo, Olga Baeta House (1957), by Vilanova Artigas, organizes the program in a single block with independent structure, establishing a pattern for residential architecture in São Paulo in the 60´s. The bedrooms at Baeta House were minimum, and large living spaces are interconnected by intermediate levels under high ceiling. Cars are displayed in the same volume of the main entrance in a deliberate lack of hierarchy. Tangible features such as rude appearance of reinforced concrete, exposed masonry surfaces, apparent structure and plumbing contribute to the brutalist aesthetics. In single-family residential architecture of Porto Alegre those echoes occur relatively late, and can be observed in some residences designed only in the 1970s, such as houses by architects Cesar Dorfman (1972), Selso Maffessoni (1972) and Jorge Debiagi (1973). A little later, in 1977, a house is designed by architect Edenor Buchholz for his own family. Buchholz is known by the projects of two bank branches: CEF Moinhos de Vento (1973) and CEF Independência (1976), both brutalists. Buchholz´house has been built in a typical urban lot (11 x 44 m ), with similar spatial attributes to those described in Baeta House; however, the house was built until the lateral limits of the site. As a large shelter, the house spatialty envourages the “living together” experience. This article is part of a larger study that is being developed about the modern residences in Porto Alegre, including around 70 modern houses built in Porto Alegre from the 50´s to the 70´s. The Buchholz House belongs to that investigation and is specifically analysed in this paper. The original blueprints were redrawn and a tridimensional model was developed, allowing more precise analysis. Aspects related to its spatial organization, materiality and structural dimension are discussed and related to referential works of the Paulista School of the 1960s. Absent of compilations on modern architecture in Porto Alegre, the Buchholz House has spatial and constructive attributes that allow to include it and place it in the context of this production.
Keywords
Como citar
FISCHMANN, Daniel Pitta. Herança brutalista: a casa do arquiteto Edenor Buchholz em Porto Alegre. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 5., 2016, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2016. ISBN 978-85-61965-40-2. DOI: 10.5281/zenodo.19291652.
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Ficha catalográfica
5º Seminário Docomomo Sul: anais: o moderno no contemporâneo: herança e prática [recurso eletrônico] / organização: Ana Carolina Pellegrini, Carlos Eduardo Comas. Porto Alegre: Marcavisual, 2016. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-5o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-61965-40-2

