Habitar o Patrimônio Moderno: o caso do Pedregulho

Capa dos anais

5º Seminário Docomomo Sul, Porto Alegre, 2016

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19291722

Resumo

Reformas, reciclagens e restaurações de edifícios de uso público considerados patrimônio são controversas. Porém a polêmica aumenta quando se tratam de conjuntos habitacionais com estas características, pois as medidas de conservação raramente convergem os interesses dos moradores e dos órgãos patrimoniais. Muitos dos imóveis que passam por este processo atualmente são exemplares emblemáticos para o Movimento Moderno no Brasil. Edifícios residenciais institucionalmente protegidos, ainda que de propriedade privada, estão subordinados aos interesses da coletividade no que tange à preservação do patrimônio. Nestes casos, a avaliação dos projetos está sujeita a, no mínimo, três instâncias: a municipal, que trata de aspectos fundamentalmente quantitativos; a dos órgãos patrimoniais, que avaliam o mérito das intervenções propostas, e a dos moradores e proprietários das unidades, que desejam adaptações necessárias ao habitar contemporâneo em edifícios que, quando tombados, nem sempre suportam estas modificações. Por conseguinte, o júri deste tipo de operação não tem conhecimento técnico suficiente — muitas vezes os moradores sequer entendem o valor da obra enquanto representante de uma cultura — e raramente chega a um consenso. A arquitetura do século XX foi marcada por uma série de inovações técnicas que possibilitaram a aplicação da linguagem do novo estilo. O advento do concreto armado e a crescente produção industrial permitiram a imensa inovação formal do período, mas também acarretaram algumas modificações nos processos construtivos. Todos estes fatores, aliados à inexperiência no uso das novidades e o desconhecimento sobre o seu envelhecimento acarretaram uma serie de peculiaridades quanto à conservação desta arquitetura. As técnicas e teorias de restauração aplicáveis a edifícios de outros períodos nem sempre são adequadas ao patrimônio modernista.As ultimas décadas têm registrado um crescente interesse pela preservação do patrimônio moderno, que é impulsionado pelas ações do Docomomo, ICOMOS, Unesco e por pesquisas na área. No entanto, apesar do reconhecimento dos órgãos de proteção e do meio acadêmico ter aumentado significativamente nos últimos anos, a adesão da sociedade a esta causa ainda é muito pequena. Este fator é determinante no caso de intervenções em edifícios habitacionais modernistas, pois impõe uma resistência maior por parte dos moradores durante o processo. A fim de ilustrar os desafios e as oportunidades da árdua tarefa de adaptar edifícios de habitação coletiva do Movimento Moderno ao uso contemporâneo, o exemplar eleito é o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes — popularmente conhecido como Pedregulho — situado na cidade do Rio de Janeiro. O empreendimento tem projeto de Affonso Eduardo Reidy(1946 - 1950), é patrimônio reconhecido em instância municipal e estadual, e está em processo de tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A obra, que nunca foi concluída integralmente, sofre intervenções desde 2002,algumas sem a orientação de órgãos de proteção ou técnicos em preservação. Desde 2011, o conjunto passa por obras de restauração e reforma — empreendidas pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, através da Cehab, com supervisão técnica do arquiteto Alfredo Britto —que tiveram a segunda etapa concluída recentemente. Este artigo, cujo tema é parte da dissertação de mestrado da autora, buscadiscorrer a respeito da adaptação das moradias modernas para o uso contemporâneo através do processo de recuperação do Conjunto Pedregulho. Com o propósito de ponderar tanto o valor de uso quanto a salvaguarda, foi realizada uma entrevista com o senhor Hamilton Marinho, representante da Associação de Moradores,que reside noconjunto.Como referencial teórico, além das usuais teorias de restauro, as análises serão pautadas por textos de pesquisadores contemporâneos com visões menos ortodoxas das questões patrimoniais, como, por exemplo, Ana Carolina Pellegrini e Carlos Eduardo Comas.

Palavras-chave

Abstract

Reforms, recycling and restoration of public buildings considered heritage is controversial, but the controversy increases when dealing with housing with these characteristics, because the conservation measures rarely converge the interests of residents and heritage agencies. Many building that go through this process now are emblematic to the Modern Movement in Brazil. institutionally protected residential buildings, although privately owned, are subordinated to collective interests with respect to heritage preservation. In such cases, the evaluation of the projects is subject to at least three levels: municipal, which is fundamentally quantitative aspects; the protection of heritage that assess the merits of the proposed interventions, and the residents and owners of units that demand for adaptations inherent in contemporary live in buildings that, when institutionally protected, are not always able to do so. Therefore, the resulting jury of this operation is not homogeneous technical knowledge - often the locals even understand the value of work as a representative of a culture - and rarely reach a consensus. The architecture of the twentieth century was marked by a series of technical innovations that made possible the implementation of the new style language. The advent of concrete and increasing industrial production allowed the immense formal innovation of the period, but also led to some changes in construction processes. All these factors, coupled with inexperience in the use of new materials and ignorance about its aging give today a series of peculiarities about the conservation of this architecture. The techniques and restoration theories applicable to buildings from other periods are not always appropriate to the modernist heritage. The last decades has recorded a growing interest in the preservation of modern heritage, which is driven by the actions of Docomomo, ICOMOS, UNESCO and research in the area. However, despite the recognition of the protection agencies and academia have increased significantly in recent years, the recognition of the membership of the society to this issue is still very small. This factor is crucial in the case of interventions in modernist residential buildings, because it imposes a greater resistance by the locals during the process. In order to illustrate the challenges and opportunities of the arduous task of adapting collective housing buildings of the Modern Movement to contemporary usage, the chosen example is the Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes - popularly known as Pedregulho - located in the city of Rio de Janeiro. The development has Affonso Eduardo Reidy project (1946 - 1950), is recognized in equity municipal and state instance, and is in process of recognizing by the Historical and Artistic Institute (IPHAN). The construction, which was never fully completed, suffers interventions since 2002, some without technical guidance heritage protection. Since 2011, the group goes through works of restoration and reform - undertaken by the State Government of Rio de Janeiro, through CEHAB, with technical supervision of the architect Alfredo Britto - who had recently completed the second stage. This article, whose theme is part of the author's tesis, search discourse concerning the adjustment of modern villas to contemporary usage through the recovery process of the Conjunto Pedregulho. In order to consider both the value in use as a safeguard, an interview with Mr. Hamilton Navy was held, representative of the Residents Association, which resides in the set. As a theoretical framework, beyond the usual theories of restoration, the analysis will be guided by texts of contemporary researchers with less orthodox views of architectural heritage, for example, Ana Carolina Pellegrini and Carlos Eduardo Comas.

Keywords

Como citar

MARCHETTO, Kátia Fernanda. Habitar o Patrimônio Moderno: o caso do Pedregulho. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 5., 2016, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2016. ISBN 978-85-61965-40-2. DOI: 10.5281/zenodo.19291722.

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Ficha catalográfica

5º Seminário Docomomo Sul: anais: o moderno no contemporâneo: herança e prática [recurso eletrônico] / organização: Ana Carolina Pellegrini, Carlos Eduardo Comas. Porto Alegre: Marcavisual, 2016. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-5o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-61965-40-2