Museu Oscar Niemeyer: o anexo como protagonista

Capa dos anais

5º Seminário Docomomo Sul, Porto Alegre, 2016

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19296489

Resumo

O artigo trata do edifício “Olho” (2000-2002) projeto de Oscar Niemeyer pelo qual transformou em Museu uma sua própria obra anterior – o edifício Humberto Castelo Branco, originalmente projetado, em 1967, foi concebido para abrigar o Instituto de Educação do Paraná, em Curitiba. Entretanto, acabou por razões políticas e longo período, abrigando secretarias do Estado. A proposição para utilização, como Museu ocorreu mais de três décadas após o projeto original. Em 2002, o então governador Jaime Lerner convidou o arquiteto para desenvolver a ampliação e reconversão do prédio para transformá-lo em Museu. O artigo confronta algumas interpretações dos procedimentos projetuais de O. N. por meio de verificações do desenvolvimento da solução proposta no ano 2002, em relação ao repertório e condutas compositivas observáveis em 1967. Localiza-se na continuidade dos temas apresentados no 7º DOCOMOMO Brasil e no III PROJETAR que trataram de reciclagem- rearquitetura requalificação -, ambos realizados em Porto Alegre, em 2007. O edifício pré-existente, embora contivesse uma arquitetura de qualidade foi durante muito tempo desconsiderado na historiografia das obras do arquiteto. Basta lembrar sua ausência no livro de J. Ma. Botey (1996) tido como um dos que melhor registraram os trabalhos de O.N. Entretanto, a sua proposição é pioneira na obra de O.N. a conter um volume de grande porte, definido por uma caixa completamente fechada (edifício viga). Suas paredes laterais e as alveolares internas funcionam como vigas possibilitando grandes vãos e balanços apoiando-se em 24 pilares piramidais truncados, permitindo um térreo livre. Esta proposta ensaiou o projeto do edifício das salas de aula da Universidade de Costantine (1969-1972). A reconversão do edifício à função museológica ocorreu por meio do projeto de reformulação interno e da constituição de um “anexo” realizando requalificando a antiga obra e ainda expandindo seu uso público. A definição do edifício “Olho” como “anexo” é discutível. Anexos são categorizados, nos dicionários de arquitetura, como peças suplementares ou apêndices para edificações existentes. Quase sempre se configuram como novas alas, adições de corpos menores ou construções para receber programas adicionais. Em seu aceite ao convite de Jaime Lerner Niemeyer condicionou seu projeto à execução de um novo prédio que viesse a ser um símbolo de uma hodierna instituição cultural. Formou-se uma disposição de tornar a pretendida ampliação ou “anexo” numa deliberada definição: a nova construção deveria ter papel de protagonista em relação ao Edifício pré-existente. O artigo dentro deste pressuposto conduz uma leitura dos elementos e procedimentos que O. N. teria se utilizado (ou não) em termos de novas proposições para a reciclagem do moderno edifício de 1967. A análise destas ações será conduzida a partir de três interpretações predominantes, dentro de reconhecidos procedimentos de O. N. em seus trabalhos. A primeira é a de que nas obras mais recente utilizou repertórios e procedimentos compositivos com os quais já havia constituído em sua linguagem. A segunda é de que ampliou, entre a obra inicial e o projeto de reciclagem, seu repertório arquitetônico, tanto no modo de adequar programas museológicos, como no repertório de formas estruturas tectônicas de que se utilizou. A terceira se baseia em que o protagonismo do “anexo” se deve não só à reutilização de elementos do arsenal próprio, já constituído ao longo de sua carreira, mas a novas relações entre eles que foram capazes de empreender na reciclagem novas relações entre os componentes de sua linguagem, não se fixando apenas nas meras aparências de seus elementos. O que se manifesta entre elementos conhecidos de seu repertório como as barras, as cascas, os cálices, edifícios circulares, torres, calotas, rampas e pérgolas orgânicas etc. é a proposição da expansão do Museu Oscar Niemeyer não como “anexo”, mas que reverbera como protagonista o qual por meio de novas relações com o lugar, com as pré-existências modernas atualiza e obra e conduz a uma reconversão qualificada.

Palavras-chave

Abstract

The article deals with the building "The Eye" (2000-2002) a project by Oscar Niemeyer by which turned into a museum one of his own earlier work - the building Humberto Castelo Branco, originally designed in 1967, was designed to house the Institute of Education of Paraná, in Curitiba. However, for political reasons, it housed for a long time several state secretariats. The proposition to it use as a museum occurred more than three decades after the original design. In 2002, the then State Governor Jaime Lerner invited the architect to develop the expansion and the conversion of the building into a museum. The article confronts some interpretations of Oscar Niemeyer’s projective procedures through verifications on the development of solutions proposed in 2002, in relation to the repertoire and compositional behaviors observable in 1967. It is located in the continuity of the topics presented in the 7th DOCOMOMO Brazil and III PROJETAR which dealt with building recycling- rearchitecture, requalification - both held in Porto Alegre in 2007. The pre-existing building, though it contained quality architecture, has long been overlooked in the historiography of the works of the architect. We just need to note its absence in the book of J. Ma. Botey (1996), considered one of the best in recording the work of Oscar Niemeyer. Still, its proposition is pioneering in the work of O.N. to contain a large volume, defined by a completely closed box (chevron building). Its sidewalls and the cellular internal walls function as beams enabling large spans and balances relying on 24 truncated pyramidal pillars, allowing a free ground. This proposal worked as a rehearsal for the building design of the classrooms of the University of Costantine (1969-1972). The conversion of the building to a museological function occurred through a project of internal restructuring and the establishment of an "annex" requalifying the old work and still expanding its public use. The definition of the building known as "The Eye" as an "Annex" is debatable. Attachments are categorized in architecture dictionaries as additional parts or appendages to existing buildings. Almost always they are configured as new wings, additions of smaller bodies or buildings to receive additional programs. In his acceptance of the invitation from Jaime Lerner, Niemeyer conditioned his project to the implementation of a new building that would become a symbol of today's cultural institution. It showed a willingness to make the desired extension or "annex" in a deliberate definition: the new building should have starring role in relation to the pre-existing building. The article in this assumption makes a reading of the elements and procedures that Niemeyer would have used (or not) in terms of new proposals for recycling of modern building from 1967. The analysis of these actions will be conducted from three prevailing interpretations, within recognized procedures in the architect's work. The first one is that in the most recent works, he used repertoires and compositional procedures with which he had already turned into his language. The second is that the architect extended, between the initial work and the recycling project, his architectural repertoire, both in order to adapt museological programs, as well as in the repertoire of tectonic forms structures, which he used. The third is based on the idea that the "annex" has a protagonist role is due not only to the reuse of elements from his own arsenal, already built throughout his career, but to new relationships among them, which made possible to engage in its recycling new relationships among components of his own language, not fixing only on the mere appearance of its elements. What is manifested among known elements of his repertoire as the bars, the shells, the chalices, circular buildings, towers, hubcaps, ramps and organic pergolas etc. is the proposition of the Oscar Niemeyer Museum not as an "annex", but it reverberates a protagonist that, through new relationships with the place, with modern pre-existences, update propositions and leads to a qualified conversion.

Keywords

Como citar

PERRONE, Rafael Antonio Cunha; NEIVA, Simone. Museu Oscar Niemeyer: o anexo como protagonista. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 5., 2016, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2016. ISBN 978-85-61965-40-2. DOI: 10.5281/zenodo.19296489.

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Ficha catalográfica

5º Seminário Docomomo Sul: anais: o moderno no contemporâneo: herança e prática [recurso eletrônico] / organização: Ana Carolina Pellegrini, Carlos Eduardo Comas. Porto Alegre: Marcavisual, 2016. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-5o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-61965-40-2