Esplanada ontem, hoje, amanhã
Resumo
Subsiste na cabeceira alta da Avenida Independência o Edifício Esplanada, testemunho de tempo áureo duma construção tecidual média qualificada que dava a Porto Alegre certos ares de Montevidéu, donde veio Román Fresnedo Siri para coordenar as obras do Hipódromo do Cristal em 1951. A construção do Esplanada, encomendado no embalo pelos irmãos Iochpe, começa já no ano seguinte e se estende por outros oito, findas as três etapas que traduziram execução, mas não leitura. Monólito coeso, unitário, define com precisão as arestas do quarteirão conformado ainda pelas ruas Ramiro Barcelos e André Puente e sugere que a construção perimetral à quadra também é problema do movimento moderno e não contradiz o edifício em altura. Há sessenta anos, entretanto, o Esplanada já não é o edifício mais alto da cidade; a vizinhança cresceu e, hoje, sua imponência reside menos no sentido vertical que no horizontal. A extensão do bloco ainda impressiona: a regularidade rítmica corrobora os noventa metros de comprimento da fachada leste — coisa rara na paisagem edificada de então e ainda hoje — sobre plataforma generosa, larga em sete metros, esplanada de fato, igualmente excepcional. O vermelho do piso esmaeceu há uns meses, quando o ladrilho original, já fora do mercado, deu lugar às placas cimentícias pigmentadas; a vegetação junto à rua repercute a colunata esmeralda de ascendência clássica, defronte. Impensáveis em tempos atentos ao meio-ambiente, as caldeiras abastecidas com lenha aquecem a água que ainda circula no sofisticado sistema de calefação e municiam os apartamentos contra o frio, mas não contra o calor. Aqui, no entanto, a proliferação das máquinas de ar-condicionado, sina da fachada moderna resistente à contemporaneidade, não é tão nociva: a grelha profunda em balanço obriga seu recuo em relação ao plano externo. Em contradição, o fechamento das sacadas — creditado ao ruído inerente à crescente congestão e descoordenado em posição, modulação e acabamento — fragmenta o volume e compromete, em algum grau, a elegância consequente do asseio. A modulação estrutural tem rigor, mas faz concessões quando a geometria do lote exige — ao que Comas chama de "irregularidades controladas." Reporta-se a uma planta celular de cômodos calibrados: a largura interna média duns 3,5 metros é versátil e se presta à sala tanto quanto ao dormitório. No outro sentido, perpendicular à fachada, o comprimento de 6 metros varia com a incorporação de circulação, armários embutidos, jardins de inverno, sacadas. A vedação em alvenaria disfarça a estrutura independente e priva o som com competência, ao mesmo tempo em que permite alguma variação nas plantas-baixas. Para além das variações cristalizadas à execução do edifício (como a inserção de um apartamento a mais por andar entre o segundo e o quatro pavimentos dos blocos B e D), há aquelas realizadas a posteriori pelos próprios moradores. Abreu já percebeu alterações recorrentes em apartamentos de mesma prumada do bloco A visando minimizar problemas distributivos da planta original; nos demais blocos, a regularidade dimensional permite a venda de área fracionada, podendo um apartamento incorporar uma sala do vizinho sem comprometimento distributivo nem plástico. Esse procedimento é comum no bloco B, em que a supressão de um módulo implica apartamentos desiguais em disposição geral e número de salas. Pretende-se, aqui, identificar essas e outras atualizações às quais foi submetido o Esplanada e investigar suas principais causas e consequências.
Palavras-chave
Abstract
There remains at the highest end of the Independencia Avenue the Esplanada building, witness of a golden era for the average construction which used to bestow upon Porto Alegre a certain spirit that one would remind of Montevideo, from where Román Fresnedo Siri came to coordinate the construction process of the Hippodrome of Cristal in 1951. The construction of the Esplanada, comissioned shortly after by the Iochpe brothers, starts in the following year and runs for another eight when the three construction stages are completed. Cohesive, unitary monolith, the Esplanada defines precisely the edges of the block drawn also by the Ramiro Barcelos and the André Puente streets and suggests that the traditional perimetral block is also of interest of the Modern Movement and does not contradict the high-rise building at all. It’s been sixty years, however, since the Esplanada is no longer the highest building in town; the neighbourhood is fully grown-up and nowadays its impressiveness lies more horizontally than vertically. The extension of the mass still impresses, though: its rhythmic regularity reaffirms the ninety meters of the East facade — rare asset now and then — upon generous platform, seven meters wide, an exceptional
esplanade indeed. The red colour of the floor has faded a little, when the original ceramic tiles have been replaced by the pigmented concrete ones. Structural modulation is strict, but makes concessions where the site geometry demands. It refers to a cellular, divided plan with suitable rooms about 3,5 meters of average internal width — the flexible dimension could be both living or sleeping rooms, or even a kitchen. The average length is about 6 meters, but varies in order to embody corridors or balconies. Heavy, thick brick walls hides the independent structure and isolates the noise while allows some variations in plans. Besides the alternatives proposed by the original project (such as the possibility of a third apartment per floor between the first and fourth stories in B and D sectors), there are those made afterwards by the inhabitants themselves. Abreu, for instance, has already noticed recurrent amendments within similar apartments in block A aiming to solve distribution problems. In the other blocks, the dimensional regularity of plan and facade allows that one sells a fraction of his apartment to his next door neighbour, in a way that one room is embodied by another apartment without neither programatic nor plastic consequences. This work aims to identify these and other modifications to which has already been subjected the Esplanada building and to investigate its major causes and consequences.
Keywords
Como citar
DUARTE, Rafael Saldanha. Esplanada ontem, hoje, amanhã. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 5., 2016, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2016. ISBN 978-85-61965-40-2. DOI: 10.5281/zenodo.19296509.
Referências
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Ficha catalográfica
5º Seminário Docomomo Sul: anais: o moderno no contemporâneo: herança e prática [recurso eletrônico] / organização: Ana Carolina Pellegrini, Carlos Eduardo Comas. Porto Alegre: Marcavisual, 2016. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-5o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-61965-40-2

