A permanência do transitório: os pavilhões do Brasil e do Chile para a Expo 92 – Sevilha

Capa dos anais

5º Seminário Docomomo Sul, Porto Alegre, 2016

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19296539

Resumo

A arquitetura de exposição, embora não seja um dispositivo novo, presta-se com eficiência a um mundo no qual inúmeros fenômenos de cunho social, tecnológico, científico apontam uma tendência: a emergência do transitório. Ainda que o caráter provisório seja predominante neste tipo de operação, as arquiteturas efêmeras projetadas para exposições têm apresentado um poder quase incontestável: o de contribuir solidamente para a construção da imagem das arquiteturas locais em âmbito internacional. Tem sido assim desde que as Exposições Universais iniciaram suas atividades, em 1851, na ocasião da “Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de Todas as Nações” , quando Londres, cidade que sediou o evento, apresentou ao mundo o, então, surpreendente Crystal Palace. A inovadora construção seria precursora de um programa arquitetônico que surgiria para não mais ser esquecido: o pavilhão de exposição. O presente trabalho tem por objetivo estudar a relevância dos pavilhões de exposição, concebidos para serem efêmeros, na permanente construção da imagem da arquitetura latino-americana pelo mundo, relacionando-a com a cena da produção arquitetônica regional. O recorte se dá em dois exemplares de pavilhões projetados para a Expo’92, realizada em Sevilha: os do Brasil e do Chile. Enquanto o primeiro é lembrado pelas grandes polêmicas envolvendo o concurso através do qual foi escolhido e pelo fato de não ter sido construído, o segundo marcou definitivamente a história e arquitetura de seu país através de uma participação cheia de notoriedade. A participação do Brasil na Expo’92 retratou o momento de grande instabilidade política e social que o país vivia naquela altura. Era natural que o projeto vencedor para o pavilhão do Brasil (de autoria de Angelo Bucci, Alvaro Puntoni e José Oswaldo Vilela), eleito através de um concurso de projetos do qual participaram 256 equipes, dividisse as opiniões de uma classe de arquitetos que se encontrava muito segmentada quanto aos próprios ideais. O que não se esperava é que o então presidente da república, Fernando Collor de Mello, decidiria pela não construção do pavilhão, limitando a participação do país a um pequeno stand alocado dentro do pavilhão da América Latina, anulando a chance de visibilidade verdadeiramente relevante. A última participação de um pavilhão do Brasil em exposições universais apontada como arquitetonicamente representativa teria sido em Osaka, em 1970, com o pavilhão de Paulo Mendes da Rocha e equipe. O “ostracismo arquitetônico” de mais de 20 anos foi determinante para esfriar a imagem de excelência que a arquitetura brasileira começou a construir desde a participação na Exposição de Nova York, em 1939, com o celebrado e reconhecido pavilhão de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Já a participação do Chile, apontou a intenção de projeção do seu país em direção bem diferente do Brasil. Projeto dos arquitetos chilenos Germán Del Sol e José Cruz, o Pavilhão do Chile foi construído inteiramente em madeira laminada e com cobertura de cobre. Não deixou de ter forma pura, mas, com suas curvas que enfrentavam a abundante ortogonalidade encontrada nos demais pavilhões, muitos deles erguidos na forma de grandes paralelepípedos, foi o mais visitado do evento e eleito por um grupo de 53 arquitetos espanhóis como um dos 5 pavilhões mais interessantes do evento. O que se pretende é indicar a importância que tais obras tiveram para a construção da imagem da arquitetura local do país ao qual pertencem perante às demais nações. Os pavilhões às vezes apresentam, e em outras representam seu país, numa mistura do que se é e do que se quer ser, e a arquitetura deixa seu legado também através de projeto, ainda que a materialidade da obra já tenha desaparecido, ou nunca chegado a existir.

Palavras-chave

Abstract

The exhibition architecture, although not a new device lends itself effectively to the current world in which many phenomena of social, technological, scientific, point to a trend: the emergence of the transitory. Although the provisional character predominates ephemeral architectures designed for exhibitions have presented an almost unassailable power: the solidly contribute to building the image of the local architecture of international order. It has been so since the Universal Exhibition started its activities in 1851 on the occasion of the "Great Industry Works Exhibition of All Nations ", when London, the city that hosted the event, introduced the world to the then amazing Crystal Palace. The innovative construction would be the precursor of a new architectural program that would appear not to be forgotten: the exhibition pavilion. This paper aims to study the relevance of the exhibition hall, designed to be ephemeral, the ongoing construction of the image of Latin American architecture in the world, linking it to the scene of the regional architectural production. The cut takes place in two copies of pavilions designed for Expo 92 held in Sevilla: from Brazil and Chile. While the former is remembered for the great controversies involving the contest through which was chosen and because it has not been built, the second definitely marked the history and architecture of his country through a full share of notoriety. Brazil's participation in Expo 92 portrayed the time of great political and social instability that the country lived. It was natural that the winning design for the pavilion of Brazil (designed by Angelo Bucci, Alvaro Puntoni and José Oswaldo Vilela), elected through a controversial project contest attended by 256 teams, divide opinions of a class of architects who was very targeted as to ideals. What was not expected is that the president of the Republic, Fernando Collor de Mello, would decide by not building the pavilion, limiting the country's participation to a small stand allocated within the Latin American pavilion, negating the chance of a truly relevant visibility. The last appearance of a pavilion of Brazil in Expos appointed as representative architecturally would have been at Expo 70 in Osaka, with the pavilion of Paulo Mendes da Rocha and staff. The "architectural ostracism" of more than 20 years was crucial to cool the image of excellence that Brazilian architecture began to build from participation in Expo 39 in New York, with the celebrated and recognized pavilion of Lucio Costa and Oscar Niemeyer. The participation of Chile, noted the intention of projection of his country in very different direction from Brazil. Project of the Chilean architects Germán Del Sol and José Cruz, Chile Pavilion was built entirely of laminated wood and copper sheeting. Not without pure form, but with her curves facing the abundant orthogonality found in other pavilions, many of them erected in the form of large cobblestones, it was the most visited and was elected by a group of 53 Spanish architects as one of the 5 most interesting pavilions of the event. The aim is to indicate the importance that such works had to build the image of the local architecture of the country to which they belong before to other nations. The sometimes pavilions present, and others represent their country in a mixture of what is and what it wants to be, and the architecture leaves his legacy also through design, although the materiality of the work has already gone, or never arrived to exist.

Keywords

Como citar

SILVA, Thaís Luft da. A permanência do transitório: os pavilhões do Brasil e do Chile para a Expo 92 – Sevilha. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 5., 2016, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / PROPAR-UFRGS, 2016. ISBN 978-85-61965-40-2. DOI: 10.5281/zenodo.19296539.

Referências

  • Amaral, Izabel. “Pavilhões de exposições em concursos: lições a aprender.” 2009. Não paginado. Disponível em <https://concursosdeprojeto.org/2009/05/28/pavilhoes-de-exposicoes-e-concursoslicoes-a-aprender/> Acesso em 14 jun. 2016
  • Amaral, Izabel; Zein, Ruth Verde. “A Feira Mundial de Osaka de 1970: O Pavilhão Brasileiro”. In: Revista ARQTEXTO 16. Mega Eventos. A772 Arqtexto/ Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Arquitetura. Ano X, n. 2 (2010). Porto Alegre: Departamento de Arquitetura; PROPAR 2010. P. 108-127.
  • Bastos, Maria Alice Junqueira; Zein, Ruth Verde. Brasil: arquiteturas após 1950. São Paulo: Perspectiva, 2010.
  • Bucci, Ângelo; Puntoni, Álvaro; Vilela, José Oswaldo. “Pavilhão do Brasil na Expo 92 Sevilha.” In: Projeto. Fevereiro 1991, N. 138. São Paulo: Arco Editorial. 1991, p. 40.
  • Cavalcanti, Lauro; Lago, André Correa do. “Ainda Moderno? Arquitetura Brasileira Contemporânea”. ARQUITEXTOS, 066.00, ano 06, Novembro 2005. Não paginado. Disponível em <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.066/404> Acesso em 14 jun. 2016.
  • Comas, Carlos Eduardo. “A feira mundial de Nova York de 1939: o pavilhão brasileiro”. In: Revista ARQTEXTO 16. Mega Eventos. A772 Arqtexto/ Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Arquitetura. Ano X, n. 2 (2010). Porto Alegre: Departamento de Arquitetura; PROPAR 2010. P. 56-97.
  • Corradini, Eduardo. “Pavilhão brasileiro na Expo'92 de Sevilha: uma história de concursos em busca de nossa identidade”. Outubro 2014. Não paginado. Disponível em <https://concursosdeprojeto.org/2014/10/24/pavilhao-expo92/> Acesso em 07 jun. 2016.
  • Fiorin, Evandro. “O projeto para o Pavilhão Brasileiro na Expo´92 em Sevilha e a chamada ‘Arquitetura Paulista’”. N7 Arquitectura entre concursos. Noviembre 2012. Universidad de Sevilla. P. 122-133. Disponível em <https://ojs.publius.us.es/ojs/index.php/ppa/article/download/125/138> Acesso em 07 jun. 2016
  • Guerra, Abilio. “Arquitetura para todos”. Exposição Coletivo no Maria Antonia. Drops, 016.04, ano 07, Setembro 2006. Não paginado. Disponível em <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/07.016/1695> Acesso em 08 jun. 2016
  • Macadar, Andrea Moron. “Uma trajetória brasileira na arquitetura das Exposições Universais dos anos 1939-1992”. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005.
  • Medeiros, Ana Elisabete de Almeida; Ribeiro, Paulo Victor Borges; Saboia, Luciana. “Arquitetura contemporânea e os concursos de projeto de Osaka e Sevilha”. In: Anais do 1º Congresso 19
  • Internacional de Espaços Públicos (1. : 2015 : Porto Alegre, RS). Disponível em <http://www.pucrs.br/eventos/espacospublicos/downloads/117_D.pdf> Acesso em 5 jun. 2016
  • Medeiros, Heloisa. “Em torno do concurso”. In: Arquitetura e Urbanismo. Abril Maio 1991, N. 35. São Paulo: Pini. P. 74-75.
  • Pellegrini, Ana Carolina. Quando o Projeto é Patrimônio: a Modernidade Póstuma em Questão. Tese apresentada em 2011 ao Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
  • Pereira, Miguel. “Sevilha, um sonho inacabado”. In: Arquitetura e Urbanismo. Abril Maio 1991, N. 35. São Paulo: Pini. P. 5.
  • Pesavento, Sandra Jatahy. “Exposições Universais”. Espetáculos da Modernidade do Século XIX. São Paulo: Editora Hucitec, 1997.
  • Puente, Moisés. “Pavilhões de Exposição. 100 anos”. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2000.
  • Rossetti, Eduardo Pierrotti. “Pavilhão Serpentine 2013: Impressões e provocações de uma arquitetura efêmera”. ARQUITEXTOS, 163.01, ano 14, Dezembro 2013. Não paginado. Disponível em <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.163/4988> Acesso em 27 jun. 2014.
  • Segawa, Hugo. “Pavilhão do Brasil em Sevilha: deu em vão”. In: Projeto. Fevereiro 1991, N. 138. São Paulo: Arco Editorial. 1991, pp. 34-39.
  • Zein, Ruth Verde. “Desvendando os rumos da arquitetura brasileira após Brasília”. Resenhas on line, 017.02, ano 02, maio 2003. Não paginado. Disponível em <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/02.017/3182>

Ficha catalográfica

5º Seminário Docomomo Sul: anais: o moderno no contemporâneo: herança e prática [recurso eletrônico] / organização: Ana Carolina Pellegrini, Carlos Eduardo Comas. Porto Alegre: Marcavisual, 2016. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/anais-do-5o-seminario-docomomo-sul/. ISBN 978-85-61965-40-2