Fortuna. O lado B da virtuosa estação de hidroaviões
Resumo
Tendo em vista a demanda de prover as principais cidades brasileiras com terminais aeroportuários, à semelhança de Salvador, Porto Alegre e São Paulo, o Departamento de Aeronáutica Civil (1931), órgão administrativo encarregado das normas de aviação comercial vinculado ao Ministério de Aviação e Obras Públicas do Rio de Janeiro, preparou dois editais de concurso, tanto para a Estação de Passageiros do Aeroporto Santos Dumont, que seria a estação terrestre, quanto para a marítima, a Estação de Hidroaviões. Enquanto aeródromos iam sendo construídos, a prioridade era dada aos hidroaviões, em virtude das pistas terrestres existentes à época serem inseguras, curtas e sem pavimentação, utilizadas apenas para pequenas aeronaves. Mas essa prioridade iria mudar rapidamente. O primeiro passo em direção à concretização do serviço aeroportuário foi dado, em 1933, com a aprovação do orçamento, tornando público o anteprojeto preliminar que consistia na escolha do local e previsão de infraestrutura, exigindo a construção de um quebra-mar, e o lançamento de mais de 2,7 milhões de metros cúbicos de areia na área conquistada do mar. Já no emblemático ano de 1936, pelo Decreto Nº 1150, com as obras em andamento, o local chamado de Ponta do Calabouço – área da baía da Guanabara ganha por aterro –, passou a chamarse Santos Dumont, marcando um contexto de desenvolvimento e modernidade republicana que não combinavam com a nomenclatura calabouço, cuja conexão com a passado escravocrata se preferia esquecer. Porém, antes do edital para a construção do aeroporto, foi publicado o edital para o concurso público da Estação de Hidroaviões do Aeroporto Santos-Dumont. Com o apoio do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), que elaborou todo o processo, 17 propostas foram analisadas, sendo que uma delas foi escolhida com louvor em razão das premissas: “boa circulação de público e passageiros, serviço bem localizado e um sistema construtivo bem definido”, plenamente em conformidade com o edital. Era fevereiro de 1937, e o primeiro lugar foi dado à Attílio Corrêa Lima e equipe. Por acreditar que o transporte aéreo no Rio de Janeiro seguiria na linha dos hidroaviões, atendendo inclusive ao tráfego aéreo internacional, a obra marítima foi priorizada, sendo concluída em um ano (1938). Isto em comparação com a estação terrestre que, maior, demorou sete anos para ser finalizada, passando na sequência a operar isoladamente com a extinção precoce dos hidroaviões. Assim, a principal adversidade da Estação de Hidroaviões foi operar durante breves quatro anos, dando lugar à estação de aeroaviões, mas houve outras. A efemeridade da operação na Estação de Hidroaviões relaciona-se com a fortuna albertiana e a reflexão a respeito do ímpetos e desejos que deveriam ser controlados, especialmente tratando-se de obras públicas.
Palavras-chave
Abstract
In view of the demand to provide the main Brazilian cities with airport terminals, like Salvador, Porto Alegre and São Paulo, the Department of Civil Aeronautics (1931), an administrative body in charge of commercial aviation standards linked to the Ministry of Aviation and Public Works of Rio de Janeiro, prepared two bidding documents, both for the Santos Dumont Airport Passenger Station, which would be the ground station, and for the maritime, the Seaplane Station. While airfields were being built, priority was given to seaplanes, because the existing runways were unsafe, short and unpaved, used only for small aircraft. But that priority would change quickly. The first step towards the completion of the airport service was taken, in 1933, with the approval of the budget, making public the preliminary draft consisting of site selection and infrastructure forecasting, requiring the construction of a breakwater, and the launch more than 2.7 million cubic meters of sand in the conquered area of the sea. Already in the emblematic year of 1936, by Decree No. 1150, with the works in progress, the site called Ponta do Calabouço - Guanabara Bay area created by landfill -, was renamed Santos Dumont, marking a context of development and republican modernity that did not match the dungeon nomenclature, whose connection with the slave-like past one preferred to forget. However, prior to the announcement for the construction of the airport, the announcement for the public contest of Santos-Dumont Airport Seaplane Station was published. With the support of the Brazilian Institute of Architects (IAB), which elaborated the entire process, 17 proposals were analyzed, one of which was chosen with praise due to the premises: “good circulation of public and passengers, well-located service and a well-defined building system ”, fully in accordance with the edict of the contest. It was February 1937, and the first place was given to Attílio Corrêa Lima and team. Believing that air transport in Rio de Janeiro would continue along the seaplane line, including international air traffic, the maritime work was prioritized and completed in one year (1938). This compared to the larger ground station that took seven years to complete, and then operated in isolation with the early extinction of seaplanes. Thus, the main adversity of the Seaplane Station was to operate for a brief four years, giving way to the airplanes station. The ephemerality of the operation at the Seaplane Station is related to the Albertian fortuna and the reflection on the impulses and desires that should be controlled, especially in the case of public works.
Keywords
Como citar
ROMANO, Leonora; PEREIRA, Cláudio Calovi. Fortuna. O lado B da virtuosa estação de hidroaviões. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 6., 2019, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / Marcavisual, 2019. p. 255-267. ISBN 978-85-61965-77-8. DOI: 10.5281/zenodo.19291966.
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Ficha catalográfica
6º Seminário Docomomo Sul: anais: o moderno e reformado: debatendo o projeto do B. 1920-2019. Parte I [recurso eletrônico] / organização: Carlos Eduardo Comas, Marta Peixoto. Porto Alegre: Marcavisual, 2019. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/publicacoes.htm. ISBN 978-85-61965-77-8

