Barragem do Salto: paisagem antrópica

p. 84-90

Capa dos anais

8º Seminário Docomomo Sul, Porto Alegre, 2025

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19292343

Resumo

Este artigo investiga a Barragem do Salto, em São Francisco de Paula, pertencente ao Sistema Salto, um complexo que une a Barragem da Divisa, do Blangue, do Salto e de Bugres, onde está a usina hidrelétrica. Paisagem marcante por sua beleza, e impressionante, pelo caráter épico de sua construção, a Barragem do Salto represa o Rio Santa Cruz e localiza-se no que passou a ser chamado de Vila Eletra, ou apenas Eletra. Inaugurada em 1951, a estrutura de concreto, que contém como uma mão em concha invertida a água do rio, funciona como uma pausa sobre a superfície natural (fig. 1) que, todavia, atinge seu ápice quando transborda (fig. 2), situação em que se solidariza com a paisagem natural em uma simbiose que instaura uma paisagem na qual já não se distinguem o objeto natural e o objeto artificial. O artigo busca resgatar parte da documentação do projeto, acervo em grande parte perdido após os processos de privatização sofridos pela Companhia Estadual de Energia Elétrica entre 2020 e 2021. A história da construção deste objeto é de igual interesse, bem como as ações que configuram seu lugar no mundo (Santos, 2002). De um lado, a obra arrojada iniciada em 1944, contextualiza-se sobre o pano de fundo do desenvolvimentismo. Por outro lado, em alerta após a catástrofe climática que assolou o Rio Grande do Sul em maio de 2024, a barragem passa por um momento de atenção com relação ao suposto risco estrutural (fig.8). Para Besse, “a escolha de uma escala sempre é, como se sabe, ao mesmo tempo, a escolha de um tipo de problema; e, à medida que cresce a escala do estudo, (...) o conceito de paisagem modifica-se inevitavelmente”. (BESSE, 2014, p.16). Há, no exemplo estudado, uma escala geográfica, “que excede as capacidades perspectivas naturais do indivíduo” (BESSE, 2014, p.147-148), apreensível com a mediação de um mapa (fig.3), e que diz respeito ao objeto técnico. Há uma paisagem imaterial, política, de características desenvolvimentistas (fig. 2, 6, 7) tendo em vista que a obra da barragem do Salto inicia no final do Estado Novo — pouco tempo depois de promulgadas as leis trabalhistas na ditadura Vargas — e é inaugurada alguns dias antes do início do governo de Getúlio Vargas em 1951, desta vez, eleito pelo povo.

Como citar

RECENA, Maria Paula Piazza. Barragem do Salto: paisagem antrópica. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 8., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / Marcavisual, 2025. p. 84-90. ISBN 978-85-61965-82-2. DOI: 10.5281/zenodo.19292343.

Referências

  • CAMPOS, Pedro. Sistema Salto: trajetórias e conquistas, uma história dos trabalhadores. YouTube, 10 de janeiro de 2020. 28min16s. Disponível em: https:// www.youtube.com/watch?v=qefhPGCI5Nk. Acessado em: 10 de janeiro de 2025.
  • BEECK, Alexandre Adão Basei. Sistema Salto trajetórias e conquistas: uma história dos trabalhadores. Porto Alegre: Engraf, 2015.
  • BESSE, Jean-Mark. O gosto do mundo: exercícios de paisagem. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2014.
  • O TRABALHO amplo e fecundo do DNOS em nosso estado. O Pioneiro, Caxias, 1 dez. 1948.
  • PASSO do Inferno, Tóca e Salto. O Pioneiro, Caxias, O Pioneiro, 11 nov. 1948, p.12, Edição 00002. Disponível em: <https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=885959&pagfis=28> Acessado em: 13 de janeiro de 2025.
  • PREFEITURA DE SÃO FRANCISCO DE PAULA. “Barragem do Salto”. Acessado em: 10 de janeiro de 2025. <https://www.saofranciscodepaula.rs.gov.br/portal/> turismo/0/9/1401/barragem-do-salto
  • SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002.
  • SALOMÃO, Ivan Colangelo. As origens do desenvolvimentismo brasileiro e suas controvérsias: notas sobre o debate historiográfico. SCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS. Acessado em: 5 de março de 2025. <https://doi> org/10.1590/0103-6351/3220

Ficha catalográfica

8º Seminário Docomomo Sul: anais: infraestrutura / superestrutura, cone sul global [recurso eletrônico] / organização: Sergio M. Marques, Carlos Eduardo Comas, Silvia Leão, Daniel Pitta, Monica L. Bohrer. Porto Alegre: Marcavisual, 2025. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/. ISBN 978-85-61965-82-2