Cidade Baixa debaixo d'água: um panorama das transformações urbanas através do histórico das inundações do bairro
Resumo
A Cidade Baixa é um dos bairros mais antigos e emblemáticos de Porto Alegre, com uma história que remonta ao período colonial e se entrelaça com as transformações socioculturais da cidade até hoje. Localizada na planície da bacia do Guaíba e próxima à sua foz, a região é uma zona alagadiça e sofre com o impacto de inundações até hoje. Na sua mais recente e grave inundação, ocorrida em maio de 2024 após um temporal e falhas no sistema de drenagem, o bairro foi submerso e dezenas de milhares de pessoas precisaram deixar suas casas. Este artigo busca remontar a história do bairro Cidade Baixa, abordando marcos das inundações históricas e das transformações urbanas na região ao longo do século XX. Com o grande crescimento de Porto Alegre entre 1910 e 1914, por encomenda de Montaury, foi realizado um estudo visando implantar reformas urbanas, inspirado em processos de outras grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e São Paulo (BURIN, 2008). Foi instaurado o Plano Geral de Melhoramentos, que incluía a retificação do Riacho, como era conhecido o Arroio Dilúvio. Durante a implementação do plano, em 1912 e 1914, a cidade enfrentou mais dois eventos de inundação, sendo o último especificamente impactante na infraestrutura urbana. A partir disso, iniciou-se a discussão sobre reformas urbanas para lidar com as recorrentes enchentes. O Riacho era um elemento estruturador da paisagem urbana da região, especialmente no ponto da Ponte de Pedra. Sua canalização provocou grandes mudanças na paisagem e na estruturação do espaço urbano porto-alegrense (MOG, 2014). Nas décadas de 1920 e 1930, a cidade sofreu novas inundações, com as mais fortes ocorrendo em 1926, 1928 e a mais devastadora delas em 1936. Diante da iminente urgência de se discutir o problema, diversos documentos e propostas de projeto foram publicados, destacando-se: Schneider (1925), Medáglia (1930), Ary de Abreu Lima (1935), Ubatuba de Faria e Edvaldo Pereira Paiva (1936) e, por fim, o plano de urbanização do arquiteto Arnaldo Gladosch (1939-1943). Esse plano, encomendado por Loureiro da Silva, culminou na canalização do Riacho desde sua foz até a João Pessoa (BURIN, 2008) e na construção da Avenida Ipiranga (MOG, 2014). Em maio de 1939, o Conselho do Plano Diretor expressou suas preocupações quanto às consequências da canalização: “O grande problema é o aproveitamento, para urbanização, das grandes áreas marginais do Riacho.
Como citar
CAVALLI, Juliana Giazzon. Cidade Baixa debaixo d'água: um panorama das transformações urbanas através do histórico das inundações do bairro. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 8., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / Marcavisual, 2025. p. 183-186. ISBN 978-85-61965-82-2. DOI: 10.5281/zenodo.19292399.
Referências
- BURIN, Carolina Wolff. O caso da canalização do arroio Dilúvio em Porto Alegre: ambiente projetado x ambiente construído. Dissertação (Mestrado em Planejamento Urbano e Regional)—Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. 2008.
- FARIA, Ubatuba de; PAIVA, Edvaldo Pereira. Contribuição ao Estudo da Urbanização de Porto Alegre. Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Porto Alegre, 1937.
- PORTO ALEGRE. Lei Complementar nº 43, de 21 de julho de 1979. Dispõe sobre o desenvolvimento urbano no Município de Porto Alegre, institui o Primeiro Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e dá outras providências. Porto Alegre. 1979
- PORTO ALEGRE. Lei Complementar nº 434, de 1º de dezembro de 1999. Institui o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental – PDDUA e dá outras providências. Porto Alegre. 1999.
- MOG, William; CAMPOS, Heleniza Ávila; PICCININI, Livia Teresinha Salomão. “Análise morfológica de espaços urbanos em bacias hidrográficas: um olhar sobre o entorno de Arroio Dilúvio em Porto Alegre”. Cadernos Metrópole. São Paulo. PUCSP, v. 16, n. 31, p. 221-239, jun. 2014.
- PORTO ALEGRE. Decreto nº 18.611, de 9 de abril de 2014. Regulamenta o uso e ocupação do solo na cidade de Porto Alegre. Porto Alegre, 2014.
- PORTO, Maria Luiza (Coord.); OLIVEIRA, Paulo Luiz (Coord.). Atlas Ambiental de Porto Alegre. Porto Alegre. Editora Universidade, 2008.
- ROVATI, João Farias. La modernité estailleurs : “ordre et progrès” dans l’urbanisme d’Edvaldo Pereira Paiva (1911-1981). Tese (Doutorado em História do Urbanismo) – Université de Paris 8 - Vincennes-Saint-Denis. Paris. 2001.
- SECRETARIA DO PLANEJAMENTO MUNICIPAL. Plano Diretor 1954-1964. Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1964. p. 52.
- SEVAIO, Joanna Munhoz. Cidade Baixa em Festa: Análise Histórica de um Bairro Boêmio. Em Tempo de Histórias, [S. l.], v. 1, n. 40. 2022.
Ficha catalográfica
8º Seminário Docomomo Sul: anais: infraestrutura / superestrutura, cone sul global [recurso eletrônico] / organização: Sergio M. Marques, Carlos Eduardo Comas, Silvia Leão, Daniel Pitta, Monica L. Bohrer. Porto Alegre: Marcavisual, 2025. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/. ISBN 978-85-61965-82-2

