Infraestrutura como arquitetura: o caso linha férrea da Brasília extensiva
Resumo
A infraestrutura é um elemento inerente às cidades, especialmente nas metrópoles, fundamentais para a organização e expansão do espaço urbano. Brenner e Schmid (apud Castriota, 2016) distinguem a urbanização concentrada, que resulta da aglomeração inicial, da urbanização extensiva, caracterizada pela transformação das áreas periféricas em paisagens operacionais. Essas margens da urbanização, frequentemente vistas como caóticas, abrigam a produção e circulação de recursos essenciais, como água, energia e mão de obra. Domingues, em Paisagens Transgênicas, enxerga essas paisagens como paisagens transgênicas e argumenta que a urbanização entrou em um estado de desassossego a partir da Revolução Industrial, com uma expansão periférica marcada por paisagens elétricas e tecnológicas. Conjectura-se que a Brasília concentrada seria o Plano Piloto, e a região metropolitana, a Brasília extensiva, com uma paisagem marcada pela operalização e por paisagens elétricas e tecnológicas. Essas frequentemente associadas a corrupção da cidade e com apropriações informais, distantes da imagem ideal de cidade formal (Lassance et al., 2024). No livro Cidade Pós-Compacta, é questionada a idealização da cidade compacta, propondo uma visão mais inclusiva das realidades urbanas, considerando os espaços intersticiais e as infraestruturas como elementos fundamentais da paisagem urbana e como infraestruturas habitadas (BRAGA, 2006). Com a crescente mecanização do ambiente rural, observa-se uma diluição da fronteira entre campo (Domingues, 2010) (Figura 1). Nas cidades do Sul Global, identifica-se um espaço de transição entre a cidade compacta e o vazio não habitado, onde se concentram as infraestruturas. Esse processo evidencia um distanciamento entre as políticas de planejamento urbano e a prática projetual. Os planos diretores, frequentemente, apresentam diretrizes abstratas e carecem de abordagens multidisciplinares (Saboia et al., 2024), o que leva à obsolescência programada e à especialização funcional das infraestruturas urbanas, negligenciando o potencial dessas como elementos ativos na construção do espaço urbano (Maciel, 2015). Anthony Vidler, em Photourbanism: Planning the City from Above and from Below, compara duas abordagens de representação urbana: a visão “de cima” e a “de baixo”. A primeira, oferece uma visão totalizante da cidade, importante para o planejamento, mas que ignora as dinâmicas sociais e cotidianas.
Como citar
PERES, Marcela. Infraestrutura como arquitetura: o caso linha férrea da Brasília extensiva. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 8., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / Marcavisual, 2025. p. 213-219. ISBN 978-85-61965-82-2. DOI: 10.5281/zenodo.19292411.
Referências
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Ficha catalográfica
8º Seminário Docomomo Sul: anais: infraestrutura / superestrutura, cone sul global [recurso eletrônico] / organização: Sergio M. Marques, Carlos Eduardo Comas, Silvia Leão, Daniel Pitta, Monica L. Bohrer. Porto Alegre: Marcavisual, 2025. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/. ISBN 978-85-61965-82-2

