Recordar para elaborar: o apagamento do Carandiru
Resumo
Quando a memória do trauma não é consciente, está-se fadado à repetição. No texto “Recordar, repetir e elaborar”, um clássico da psicanálise escrito em 1914, Sigmund Freud disse que até que não haja a elaboração do trauma, a repetição será a maneira usada pelo inconsciente para recordá-lo. Portanto, o trabalho terapêutico, em boa parte, consiste na recondução ao passado. Embora baseada na esfera do indivíduo, é possível traçar paralelos entre a constatação de Freud e a elaboração de traumas coletivos. Quando trata-se de memórias dolorosas da coletividade, permanecem existindo duas maneiras de lidar com elas: esquecimento ou recordação para elaboração. No que tange a arquitetura, estes conceitos podem ser equivalentes à demolição e à preservação, respectivamente. Inaugurada em 1920, a Casa de Detenção do Estado de São Paulo (Carandiru) foi modelo no trato carcerário brasileiro, adotando códigos de conduta e higiene difundidos no hemisfério norte. Segundo Paschoal (2021), no início do século XX, prevalecia a ideia de substituir punições físicas por um sistema voltado à reabilitação do preso, refletindo uma mudança global na mentalidade sobre o tratamento de infratores. A estrutura física das prisões deveria atender ao novo modelo de pena decorrente desta troca. Logo, as instalações precisavam ser seguras e também proporcionar um regime de internação que favorecesse a educação e o trabalho. Por isso, as plantas baixas do Carandiru seguiram o modelo espinha de peixe, uma adaptação do modelo panóptico, de planta radial. A construção da casa de detenção durou de 1911 a 1920. Segundo Paschoal (2021), o edifício foi inspirado no Centre Pénitentiaire de Fresnes, penitenciária francesa considerada uma das mais seguras do mundo. A linguagem formal do Carandiru, no entanto, em nada se assemelha ao edifício francês, visto que o exemplar brasileiro já apresentava características protomodernas, como se verifica na Figura 1. O projeto arquitetônico é de autoria de Samuel das Neves, integrante da equipe do renomado arquiteto Ramos de Azevedo. Após duas primeiras décadas de funcionamento, o contexto dentro e fora da casa de detenção começou a mudar. A compreensão de que a cadeia teria o papel de reabilitar e não estritamente o de punir foi sendo gradualmente modificada.
Como citar
MARCHETTO, Kátia Fernanda; PELLEGRINI, Ana Carolina Santos. Recordar para elaborar: o apagamento do Carandiru. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 8., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / Marcavisual, 2025. p. 352-356. ISBN 978-85-61965-82-2. DOI: 10.5281/zenodo.19292477.
Referências
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- CHAIM, Célia. Governo de SP estuda implosão da Casa de Detenção. In: Folha de São Paulo do dia 26 de fevereiro de 2001. Disponível em: <https://www1.folha> uol.com.br/fsp/cotidian/ff2603200106.htm> Acesso em 17 jan. 2025.
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- PASCHOAL, Nina Ingrid Caputo. VIGIAR, PUNIR E REGENERAR: PARALELOS ENTRE A HISTÓRIA DO CARANDIRU E MICHEL FOUCAULT. In Revista Ars Historica, ISSN 2178-244X, no 22, jul./dez. 2021, p.141-162. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/ars/article/view/> Acesso em: 17 jan. 2025.
Ficha catalográfica
8º Seminário Docomomo Sul: anais: infraestrutura / superestrutura, cone sul global [recurso eletrônico] / organização: Sergio M. Marques, Carlos Eduardo Comas, Silvia Leão, Daniel Pitta, Monica L. Bohrer. Porto Alegre: Marcavisual, 2025. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/. ISBN 978-85-61965-82-2

