Montadas e largadas: casas individuais pré-fabricadas perdidas na Amazônia
Resumo
A primeira fase do sistema SR2 – criado em 1960, cujo protótipo foi exposto no MAM/RJ – possuía ainda recursos artesanais acentuados. Apesar disso, nesse período foram montadas mais de 200 unidades, incluindo 70 em plena Floresta Amazônica, entre casas, clubes, hospedarias, restaurantes, escritórios, etc… (RODRIGUES, 1993, p. 291). O trecho é parte da descrição de “O sistema SR2 - Arquitetura em madeira” no catálogo da II Bienal Internacional de Arquitetura de 19931. Sem autoria explícita dos textos, o caráter “solidário” do encontro – como descreve Oscar Niemeyer – dá a entender que os arquitetos ficaram a cargo da descrição dos próprios projetos expostos. A passagem registra a primeira referência à arquitetura em madeira pré-fabricada de Sergio como “sistema SR2” e às 70 misteriosas casas construídas na Floresta Amazônica. O sistema SR2 foi uma prática projetual adotada por Sergio Rodrigues no final dos anos 1950. O arquiteto realizou estudos de construção pré-fabricada valendo-se dos materiais fornecidos pela indústria local e suas dimensões comerciais, em paralelo à atividade profissional que desenvolvia na Oca de desenho de mobiliário e interiores. Essa ocupação chamou a atenção de Niomar Muniz Sodré Bittencourt, que o convidou a expor os resultados no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 1960, Sergio expôs o resultado de seus estudos em através de desenhos e maquetes de três possibilidades de tipologia de residência unifamiliar, além de edificar um protótipo de uma casa de dois dormitórios no jardim do museu. A experiência iria pautar a arquitetura em madeira produzida pelo arquiteto, e passou por atualizações nos anos 1980 e 1990. Em uma série de entrevistas realizadas por Ivan Rezende e Lia Siqueira para a publicação do livro Conversas Ilustradas - Sergio Rodrigues (2013), Sergio comentou que as casas amazônicas foram construídas à revelia de seu conhecimento. Relatou que, enquanto palestrava sobre casas pré-fabricadas, um ouvinte revelou haver construído 70 casas conforme as orientações definidas pelo arquiteto e enviado de avião de São Paulo à Amazônia. O ouvinte era Pedro Paulo Lomba, e a iniciativa tinha por objetivo a constituição do núcleo pioneiro da cidade científica de Humboldt. A cidade foi resultado de um convênio firmado em 1973 entre os Ministérios do Planejamento e Coordenação Geral, de Educação e Cultura, do Interior, e o Governo do Estado do Mato Grosso para dar partida ao Projeto Aripuanã.
Como citar
PORTO, Cícero Veiga Oliveira. Montadas e largadas: casas individuais pré-fabricadas perdidas na Amazônia. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 8., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / Marcavisual, 2025. p. 464-469. ISBN 978-85-61965-82-2. DOI: 10.5281/zenodo.19292543.
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Ficha catalográfica
8º Seminário Docomomo Sul: anais: infraestrutura / superestrutura, cone sul global [recurso eletrônico] / organização: Sergio M. Marques, Carlos Eduardo Comas, Silvia Leão, Daniel Pitta, Monica L. Bohrer. Porto Alegre: Marcavisual, 2025. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/. ISBN 978-85-61965-82-2

