Heroicos e pragmáticos: a arquitetura latino-americana frente à escassez de recursos

p. 484-487

Capa dos anais

8º Seminário Docomomo Sul, Porto Alegre, 2025

Baixar PDF DOI10.5281/zenodo.19292557

Resumo

“É notável como a arquitetura recuou; suas limitadas possibilidades de influenciar onde ainda há muito a ser feito, seu limitado poder de convicção perante a sociedade, os detentores do poder e até mesmo os próprios arquitetos: uma disciplina bastante indisciplinada. Mas se nos colocarmos em posição de observatório, e de longe olharmos o panorama, com certa acuidade, encontraremos algumas obras que nos mostram outros caminhos. Representam uma nova etapa, talvez sem heróis. São pragmáticas que propõem uma resposta arquitetônica completa às circunstâncias de fazer arquitetura na América do Sul.” (TORRENT, 2002, p. 10-13, tradução do autor). Durante o período moderno, a arquitetura latino-americana se desenvolveu na esteira dos estados de bem-estar social, do sonho de uma sociedade moderna, onde os interesses coletivos se sobrepunham aos individuais, concretizada através de encargos públicos: edifícios educacionais, obras de infraestrutura e conjuntos habitacionais. Estados foram decisivos no fomento de novas construções, muitas delas em escala monumental, reafirmando políticas de diminuição da desigualdade, estímulo ao desenvolvimento econômico, social e cultural, materializando um mundo novo. Essa perspectiva otimista perdeu força gradativamente a partir dos anos 1970. A adoção de políticas neoliberais diminuiu drasticamente os investimentos governamentais ocasionando o distanciamento da busca por uma sociedade mais justa, e trazendo fortes consequências para a disciplina. Hoje nos encontramos em um novo momento de cambio de paradigmas. Embora a arquitetura latino-americana sempre tenha enfrentado contextos de escassez, o cenário de crises consecutivas – econômicas, sociais e climáticas – potencializam um campo de trabalho para práticas contemporâneas capazes de evidenciar o papel fundamental do arquiteto mesmo em situações onde os problemas político-econômico são evidentes e definidores. Em nossa recente história, o território latino-americano tem sido habitado e construído concomitantemente. São paisagens que se modificam em um processo complexo de transformação capaz de gerar cidades em contínua construção, um cenário impreciso que a arquitetura é cada vez mais desafiada a enfrentar. Ao afirmarmos que na América Latina somos mais geográficos que históricos, demonstramos esta condição de recente urbanidade e a incipiente reflexão sobre o nosso contexto.

Como citar

SAUER, Cássio Orlandi; MARTINS, Elisa Toschi. Heroicos e pragmáticos: a arquitetura latino-americana frente à escassez de recursos. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO SUL, 8., 2025, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: Núcleo Docomomo RS / Marcavisual, 2025. p. 484-487. ISBN 978-85-61965-82-2. DOI: 10.5281/zenodo.19292557.

Referências

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Ficha catalográfica

8º Seminário Docomomo Sul: anais: infraestrutura / superestrutura, cone sul global [recurso eletrônico] / organização: Sergio M. Marques, Carlos Eduardo Comas, Silvia Leão, Daniel Pitta, Monica L. Bohrer. Porto Alegre: Marcavisual, 2025. Disponível em: www.ufrgs.br/propar/. ISBN 978-85-61965-82-2